Ciclones, tornados e enchentes: Santa Catarina em alerta?

Porque este Estado é um dos mais vulneráveis às manifestações climáticas e o que a meteorologia prevê para a região nos próximos anos

Ana Paula Laux

Felipe da Costa

Renara Almeida

Robson Souza dos Santos

Rua de Itajaí alagada durante a enchente de 2008

Março de 2004. Onze mortos, 35 mil desabrigados, 40 municípios em estado de emergência. Saldo do furacão Catarina, que passou pelo Estado naquele ano, devastando a região. Novembro de 2008. Enchentes afetaram 1,5 milhão de pessoas, vitimaram mais de 100 catarinenses e desalojaram 50 mil, principalmente na região do Vale do Itajaí. Setembro de 2009. Ventos de até 180km/h, da natureza de um tornado, destruíram a cidade de Guaraciaba, no extremo oeste do Estado, afetando mais de 70 mil pessoas num raio que envolveu quarenta e cinco cidades. Como explicar a alta incidência de tornados, granizo, enchentes, e até a ocorrência de um furacão em Santa Catarina? Por que este é um dos Estados mais afetados por fenômenos climáticos no Brasil?

A região Sul é a única do país marcada exclusivamente pelo clima subtropical, que é uma mistura de clima tropical, vigente nas demais regiões do país, e temperado, sob o qual a Argentina sofre maior influência. Isto explica as temperaturas mais baixas em Santa Catarina, que levam à ocorrência de geada e neve em cidades como São Joaquim e Uurubici, por exemplo. Os ventos característicos do sul também são indicativos influenciadores. No verão predominam ventos que provocam uma alta nas temperaturas e fortes chuvas. No inverno, o popular vento sul, formado por massas frias vindas do Pólo Sul, causa sensação de frio mais intenso, principalmente nas cidades gaúchas. Este encontro geográfico dos ares quentes e frios ajuda a entender as distinções entre o clima dos estados sulinos, por exemplo, e nortistas, já que cada região apresenta suas especificidades e manifestações climáticas.

Apesar do esclarecimento científico, os números ainda assustam. Dados da Defesa Civil de Santa Catarina indicam que, entre 1975 e 2007, ocorreram 43 tornados no Estado. Dentro deste levantamento estão incluídas também as trombas d’água, que são os redemoinhos formados sobre superfície aquosa – no mar ou em rios. Segundo Gabriel Brito Costa, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Santa Catarina localiza-se em uma região subtropical, que tem o clima controlado por penetrações e choques de duas massas de ar – a massa de ar tropical marítima e a massa de ar polar marítima, de origens e propriedades físicas diferentes. “O choque entre estas massas causa desequilíbrio no tempo, tornando-o instável e suscetível à geração de várias intempéries”, explica. Então, o quadro climático catarinense é, de certa forma, esperado. “Relevo e altitude, quando há o predomínio de muitas serras e regiões montanhosas, por exemplo, e a distribuição de terra e água são os principais fatores de interação com sistemas atmosféricos em Santa Catarina, e muitas vezes determinantes para a ocorrência destes eventos extremos”, explica. Para o meteorologista, as forças da natureza que vem assustando catarinenses não fogem da normalidade, embora quem aqui viva sinta que, a cada ano, crescem as turbulências ambientais.

A influência dos fenômenos climáticos

Diorgenes Pandini

Móveis foram inutilizados em Itajaí após a enchente de novembro de 2008

Em novembro de 2008, o Vale do Itajaí registrou um período de quatro meses de chuva contínua. Rios transbordaram e afetaram sessenta cidades, matando 135 pessoas e causando deslizamentos de terra, danos no sistema de energia e água, destruição de casas e plantações e doenças decorrentes do contato com a água suja, como a leptospirose. No caso de Itajaí, as construções irregulares dificultaram o escoamento da água da enchente. Além disso, existe a impermeabilização do solo (que faz com que a água chegue com mais força em certos lugares). Juntando esses fatores com uma chuva intensa, os problemas vão se somando e resultando em tragédia.

Mas como explicar tanta chuva, por tanto tempo, estacionada por aqui? Na ocasião, uma série de fatores provocou a enchente: um aquecimento histórico do Oceano Atlântico Sul, a influência do La Niña e uma passagem de frente fria pelo Estado, que se transformou numa frente estacionária no sudeste. Mas é preciso tomar cuidado com as generalizações. Os populares “niños”, que tanto dão o que falar, são fenômenos que influenciam diretamente a temperatura do Oceano Pacífico, provocando aquecimento ou resfriamento das águas. Eles afetam diretamente o comportamento climático, causando conseqüentes alagamentos, deslizamentos de encostas e enchentes, mas segundo Sergey Alex de Araújo, professor e coordenador do laboratório de Climatologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), isso acontece em várias regiões do Brasil. “O El Niño poderá trazer forte estiagem na Amazônia, por exemplo, assim como La Niña trouxe fortes chuvas no ano passado e início desse ano na mesma região”.

Araújo afirma ainda que o aquecimento global nada tem a ver com os últimos acontecimentos climáticos: “A nossa situação agora está ligada ao El Niño e a La Niña. Pode ser que, lá na frente, façam uma correlação com o aquecimento global, e que tenhamos esses fenômenos mais severos, mas por enquanto não há nenhuma relação com os desastres”. Estes efeitos devem ser sentidos sim, mas na prática só daqui a alguns anos. Um exemplo disso é o estudo divulgado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, em outubro, afirmando que, em 10 anos, o Pólo Norte deve descongelar quase que completamente. A previsão é a de que ¼ da população mundial seja afetada por inundações.

É natural que, na iminência de catástrofes ambientais impactantes, um medo em comum floresça no inconsciente coletivo de quem vivencia este tipo de experiência. Afinal, como se comportará o clima em Santa Catarina daqui para frente? Os tornados, fenômenos de maior incidência, irão certamente continuar ocorrendo. Ultimamente, vêm sendo freqüentes as cidades catarinenses que decretam estado de emergência em decorrência de danos causados por eles. Já as médias e grandes enchentes dependem de fenômenos climáticos. “Qualquer passagem de sistema frontal que traga chuva em maior intensidade poderá ocorrer pela estrutura que nossas cidades apresentam hoje: grande impermeabilização do solo, problemas com drenagem, ocupação de áreas de risco”, afirma Araújo.

Na verdade, as condições que propiciam a ocorrência destes eventos extremos sempre existiram no Estado, assim como os próprios eventos. A mudança está, sim, nos prejuízos e na repercussão. “Muitas regiões onde antes não havia nada hoje são urbanizadas, e estes eventos tendem a propiciar perdas humanas e materiais nos locais afetados”, diz Gabriel Brito. É um indicativo do crescimento desordenado das cidades. Não é rara a construção de casas em beiras de rios ou em morros passíveis de deslizamento. “Muitas cidades se formaram em zonas de risco, ou seja, planície e inundações. O rio tem uma calha, as calhas vão enchendo e começam a transbordar”, alerta Araújo. A falta de fiscalização contribui para a degradação ambiental, porque ocorre a falta de destino adequado para o esgoto, ameaçando também a fauna local. Além disso, as pessoas também têm mais acesso à informação, numa velocidade maior e, por isso, ficam sabendo com mais exatidão e detalhamento do acontecido. “Quando eu morava em Chapecó, isso em 1986, um tornado atingiu a minha rua. Meu telhado foi parar cinco casas depois. Hoje em dia, sempre tem alguém com celular na mão para filmar, tirar foto… mas sempre houve tornado em Santa Catarina, isso é normal dessa região”, lembra Araújo.

Documentário: Águas de Novembro

Quem previne as catástrofes ambientais em Santa Catarina?

Quanto ao processo de previsão de fenômenos climáticos, a ciência dispõe de recursos como imagens de satélite, radares meteorológicos e modelos de previsão numérica, além de fazer o acompanhamento de variações bruscas de pressão atmosférica, temperatura e umidade relativa do ar. Dessa forma, pode-se desenvolver um prognóstico mais preciso para que, se necessário, emitam-se sinais de alerta à população. Oficialmente, esses alertas são dados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Os dados são repassados para órgãos estaduais – em Santa Catarina, o CIRAM/EPAGRI -, que centraliza as ações para evitar a interferência de informações.

Acesse o Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina (Grupo de Estudos de Desastres Naturais – UFSC)

Há também a ação de grupos focados na pesquisa e prevenção de catástrofes ambientais, como o Grupo Técnico Científico, com sede em Florianópolis. O GTC consiste numa equipe composta por membros de dezoito instituições catarinenses, como faculdades, centros de informação climática e a própria Defesa Civil, e tem o objetivo de fazer uma avaliação técnica das catástrofes ambientais ocorridas no Estado para, dessa forma, propor projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de natureza preventiva. São todas ações conjuntas, operacionalizadas num esforço para impedir que a população seja pega de surpresa.

“Nos juntamos e começamos a rezar”

No segundo semestre desse ano, uma tragédia trouxe pânico a uma pequena comunidade do extremo-oeste catarinense. Na noite de 7 de setembro, Guaraciaba, cidade de colonização alemã e italiana com pouco mais de dez mil habitantes, foi invadida por ventos de 120 a 180km/h, que chegaram a cortar árvores ao meio. Três dias depois, técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmaram a ocorrência de um tornado. Um levantamento da Prefeitura de Guaraciaba contabilizou a destruição total de cento e vinte residências e destruição parcial de outras cem construções, como ginásios e igrejas. Quatro pessoas morreram, e outras oitenta e nove ficaram feridas.

Fotos de Guaraciaba após a passagem do tornado

Ivone Maria Venhorst

Ginásio de uma escola completamente destruído após a passagem do tornado em Guaraciaba

O tornado, que também atuou em parte da Argentina, ganhou grande repercussão pelo fato de ter atingido núcleos urbanos. Seu processo se deu pela formação de tempestades severas e pela passagem de várias frentes pelo Estado. Giseli Primaz, estudante de 15 anos, mora em Guaraciaba e passou pela experiência. “Estava assistindo televisão em casa. Chovia um pouco e havia vento. De repente, começaram a cair pedras do céu”, lembra. Assim como a maioria dos habitantes, ela pensou ser uma forte chuva de granizo. Foi apenas na manhã posterior ao fenômeno que percebeu que o estrago tinha alcançado proporções maiores. “A cidade ficou arrasada: casas, clubes, igrejas, ginásios, escolas e até matas virgens foram destruídas”. Uma das variações notadas no tempo foi uma brusca mudança na temperatura, do calor para o frio. Ao anoitecer, o céu apresentou bordas amareladas e avermelhadas, casando com o aparecimento de relâmpagos que estouraram horizontalmente, como veias ramificando-se no céu. “Eu estava com a minha família na hora. Procuramos o lugar mais seguro da casa, a cozinha, para nos refugiarmos. Nos juntamos e começamos a rezar. Foi uma sensação horrível, momentos de puro terror”.

Sair de casa durante a passagem do tornado tornou-se tarefa impossível, pois o vento agia com uma força intensa na cidade. Eles tiveram duração de pouco mais de uma hora, e mesmo após a diminuição de intensidade a chuva persistiu. Giseli lembra que o vento vinha de todas as direções, pressionando a janela de sua casa como se fosse estourá-la, o que a fez segurar uma das janelas com um colchão. Cinthia Borsatto, 16 anos, auxiliar de escritório, conta que presenciou o momento em que a casa ao lado da sua foi parcialmente destruída. “Pude enxergar o telhado da vizinha levantar totalmente. Havia uma fumaça branca cobrindo nosso bairro. Logo, as telhas da minha casa também voaram”. Em meio ao tornado, ela se refugiou no banheiro de sua casa com os pais e a irmã de seis anos. Após a passagem, a sensação de assombro era comum. Houve queda de energia por um bom tempo – em alguns bairros a restituição demorou vinte dias, e a água faltou na maioria das casas. Foram três dias até que a prefeitura normalizasse o abastecimento de água. “Havia pessoas chorando, relutando em abandonar suas casas. Muitos desabrigados e muita destruição. Parecia um cenário de guerra”.

Resta esperar que, futuramente, o comportamento climático não sofra alteração causada pela conjunção de fatores como as sentidas nestes últimos anos. Certamente, contribuir hoje para um desaceleramento do aquecimento global, como coibir queimadas, optar por aparelhos que consumam menos energia e economizar água, entre outras medidas, trarão uma ponta de esperança para as gerações futuras, já que São Pedro não é lá muito acessível. O problema ao alcance de ser trabalhado mora nos danos já causados ao planeta, e em como iremos lidar com estas consequências num futuro bem mais próximo do que imaginamos.

Acompanhe abaixo como se dá a formação de um tornado

Infográfico: Joel Minusculi


Flargrante de tornado em Urupema, SC

O fenômeno foi gravado em 3 de dezembro de 2008, às 20h09min

Imagens: Wilson Prado

Setor Agropecuário é atingido pelas catástrofes

Além de todos os danos de infra-estrutura causados pelos desastres naturais em Santa Catarina, um setor da economia que foi bastante prejudicado é o agropecuário. Somente em Itajaí morreram 955 bovinos na enchente de 2008, mais do que a soma destes animais mortos em Blumenau, Ilhota, Luis Alves e Gaspar, que foi de 764. Em se tratando de suínos, os números são quase iguais: 62 no município de Itajaí e 60 nos outros quatro municípios.

Apesar do número alto de mortalidade destes animais, o médico veterinário Ivanor Baldasso, coordenador de pecuária da administração regional de Blumenau da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), acredita que o maior prejuízo foi o relacionado à piscicultura. “Não temos como quantificar os peixes mortos, mas a perda foi praticamente total”.

Foi também por causa da enchente que Ilhota perdeu em torno de 20% da plantação de arroz, que estava no início. Este número assusta, pois a planta é bastante resistente a inundações, já que precisa atravessar uma lâmina de água para atingir a maturidade.  “O maior problema foi a enxurrada. A correnteza destruiu a estrutura das plantações, principalmente nas localidades do Baú Central e Braço do Baú”, relata o técnico agropecuário da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Marco Túlio de Oliveira.

Guaraciaba, por sua vez, foi bastante prejudicada no setor leiteiro. A cidade é a segunda maior bacia leiteira do Estado, e cerca de 90% dos produtores rurais têm esta produção como principal fonte de renda. Segundo relatório da Epagri realizado na semana do tornado, após a data deixaram de ser produzidos, diariamente, cerca de 50 mil litros de leite. Este número se deve às máquinas de ordenha que foram danificadas, aproximadamente 270, e aos 200 bovinos mortos na catástrofe. No relatório parcial divulgado pela prefeitura no dia 12 de setembro de 2009, os danos da produção agrícola e pecuária no município chegaram a ultrapassar os R$18 milhões.

Já as chuvas de granizo, que ocorreram no final de setembro, prejudicaram fortemente as produções de hortaliças. No município de Antônio Carlos,  que é o maior produtor do Estado, 80% das famílias, em média, trabalham com hortifrutigranjeiros. Durante a madrugada do dia 26 cerca de 80% da plantação foi destruída. Em algumas localidades, inclusive, a perda foi de 100%. Em Ilhota, além da perda de 95% da plantação de hortaliças, o que chega a aproximadamente 85 toneladas, também houve prejuízo em torno de 890 toneladas de banana. Os danos aproximaram-se dos R$ 475mil.

Boa parte dos prejuízos causados no setor agropecuário foi recuperada. Do município de Blumenau, 264 bovinos foram indenizados pelo Fundo de Defesa Sanitária Animal (Fundesa), mas 63 foram rejeitados por falta de documentos, segundo Baldasso. Na agricultura, somente os produtores que têm a lavoura financiada recebem o seguro da instituição financeira, que é obrigatório para obter o serviço, mas a falta de documentos também é um dos motivos apontados por Oliveira para os produtores não receberem. Além disso, há o prazo de quatro dias para apresentar a comunicação da perda, que deve ser acima de 40% da produção. Entretanto, o técnico aponta que, no caso da enchente, todos os produtores foram ressarcidos.

Entrevista com Leandro Puchalski – “Muitas pessoas não acompanham a previsão do tempo, e aí são ‘surpreendidas’ por temporais”

Leandro Puchalski é meteorologista formado pela Universidade Federal de Pelotas. Ele trabalha na Central RBS de Meteorologia desde 1999 e, todo dia, informa telespectadores sobre as previsões de chuva, granizo, temporais e mudanças de temperatura no Estado. Nesta entrevista, Puchalski avalia o panorama do clima catarinense e as possibilidades de eventos como o furacão Catarina atingirem o Estado novamente.

1. Para muitos, o tornado ocorrido em Guaraciaba este ano tomou proporções maiores e não esperadas. Até que ponto é possível prever a intensidade destes tornados? Este tipo de evento é mais noticiado nos dias de hoje ou vem realmente aumentando com o passar dos anos?

R. O forte temporal que ocorreu no estado no dia 7 de setembro passado foi amplamente divulgado com dias de antecedência por vários meios de meteorologia do Estado. Muitas vezes, as pessoas não acompanham a previsão do tempo, o que é perfeitamente normal, e aí sim são “surpreendidas” por temporais. Esse tipo de condição do tempo é perfeitamente previsível com a tecnologia que hoje a meteorologia no Brasil possui. Eventos como tornados já começam a ter uma outra realidade. Esses eventos extremos ocorrem de nuvens fortemente carregadas que chamamos de cumulunimbus, que têm potencial para desenvolver um tornado, mas que felizmente apenas 1% realmente desenvolve. Então para se prever o tornado, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, há necessidade de se esperar a nuvem se formar e, só depois disso, monitorá-la para ver se vai ou não produzir o tornado. A ferramenta para isso se chama radar dopler, que infelizmente não temos em operação com facilidade no Brasil. Portanto, hoje em dia nenhum meteorologista vai informar a previsão de tornado, mas vai informar a previsão de forte temporal com granizo e rajada de vento, que é uma informação que a população pode tirar grandes proveitos no intuito de evitar estragos.

2. Em novembro de 2008, a região do Vale do Itajaí enfrentou uma das piores enchentes de sua história. Este ano, a mídia vem noticiando a ocorrência constante de frentes frias atravessando o Estado, e a incidência de chuvas fortes nesta mesma região. Há uma intensificação quanto à quantidade e volume de águas que atingem Santa Catarina nestes últimos anos, ou o clima comporta-se de forma equilibrada e esperada? Pela sua geografia, o Vale do Itajaí será sempre uma região constantemente propensa a enchentes?

R. Quando se entra no assunto de clima, não de tempo, que são coisas diferentes, temos que ter muito cuidado para afirmar que uma região está tendo uma mudança para mais ou para menos dos volumes de chuva. Para se assegurar uma mudança climática em Santa Catarina, é necessário avaliar um período de pelo menos cinquenta anos para ver se realmente, ao longo desse período, a chuva aumentou ou diminuiu. Num período menor, corremos um grande risco de analisar uma exceção como regra, já que a natureza, ao longo dos anos, já apresentou períodos de muita chuva e outros de pouquíssima, voltando logo em seguida à normalidade da região. O que ocorre nesse ano em nada tem haver com mudança de clima, apenas com o El Nino, que quando atua aumenta a chuva no sul do Brasil. Portanto, podemos dizer que essa chuva acima da média nesse ano é completamente esperada, já que se tinha a previsão de um El Niño para 2009. Em relação ao Vale do Itajaí, podemos dizer sim, que essa é uma região mais propensa a enchentes devido a sua geografia. Na região, temos rios que sobem quando temos muita chuva e, além disso, a proximidade com o litoral faz com que a umidade vinda dessa região em contato com os morros facilmente forme nuvens de chuva.

3. Até que ponto fenômenos como o aquecimento global, o El Niño e La Niña influenciam negativamente o clima no Estado? Estes agentes de alteração climática podem explicar o aumento da média de chuvas e tornados nesta região?

R. Com toda certeza eventos como El Niño e La Niña alteram a chuva no Estado. O primeiro aumentando, e o segundo sendo responsável por fortes secas. No aspecto mudanças climáticas também, mas com a ressalva que há a necessidade de um estudo bem maior, com maior período histórico, para se saber o que realmente afeta. Aqui vale lembrar que esse é um assunto de discussão científica, portanto ainda no grau de hipóteses. Uns cientistas dizem que sim e outros que não. Os que falam que sim, afirmam que eventos extremos serão cada vez mais freqüentes devido a maior quantidade de energia disponível na atmosfera através do aquecimento. Os que falam que não, afirmam que a terra passa naturalmente por períodos de aquecimento e resfriamento ao longo da história.

4. Quais as previsões climáticas num futuro próximo para os catarinenses? Há possibilidade de ocorrência de um novo furacão Catarina, por exemplo, ou aquele foi um fenômeno isolado?

R. A previsão até o final do ano é da atuação do El Niño, ou seja, chuva acima da média em cada mês. Sobre o furacão Catarina, podemos dizer que foi um fato extremo que até então nunca tinha ocorrido. Fatos extremos não ocorrem regularmente, portanto, sem previsão de ocorrência a curto e médio prazo. Ao longo dos anos? Bom, se já ocorreu uma vez, estatisticamente poderá voltar a ocorrer.

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Sol: energia para o futuro

Apesar de termos sol em abundância, ocupamos pouco esta fonte de energia que reduz problemas ambientais e gera economia considerável.

Marina Kuwahara

Rosana Radke

Ao entrar no Conjunto Habitacional Pró-Morar III, no bairro Cidade Nova, em Itajaí (SC), se avista algo diferente no telhado de quase todas as casas. Sobre as telhas, placas de vidro revestidas com alumínio refletem o brilho do sol.  “São para captar o calor solar e aquecer o chuveiro das residências”, explica a moradora Gisele Ribeiro. O aparato moderno e ecológico, instalado em junho deste ano, contrasta com a pobreza do local. “Nem sei como funciona, mas desde que instalaram minha conta de luz baixou. E o melhor é que disseram que agora estou contribuindo com o meio ambiente”.

O projeto, implantado em junho deste ano, é uma parceria entre a Companhia Catarinense de Energia Elétrica (Celesc) e a Companhia de Habitação de Santa Catarina (CohabSC).

Além dos gastos, a energia hidroelétrica gera sérios problemas ambientais, que poderiam ser evitados se o país investisse em fontes de energia renováveis, como a energia solar. “A energia que vem do sol é inesgotável e não polui, mesmo assim, há poucos investimentos nesta área no Brasil. Ela poderia ser melhor aproveitada”, afirma o físico Carlos Daniel Ofugi Rodrigues.

Os coletores solares instalados no bairro Cidade Nova servem somente para aquecer a água do chuveiro. Mas o desligamento apenas deste aparelho já faz uma diferença considerável no ambiente. (Para comparar o consumo de quilowatt dos eletrodomésticos visite o site www.procel.com.br. Na visão de Ofugi, o governo se preocupa em investir na produção de energia em larga escala, como as grandes usinas, mesmo que esta não seja a alternativa mais apropriada para o desenvolvimento sustentável.

As famílias que moram na rua das casas com “espelhos no teto”, como a chamam as crianças do local, já sentem a diferença na hora de quitar a conta de luz. “Antes pagávamos em torno de R$ 90,00, depois da instalação chegamos a pagar R$ 33,00 conta Cláudia Rosani Dill, moradora do bairro. Assim como Cláudia e Gisele, outros 230 domicílios de Itajaí receberam coletores solares para diminuir o consumo de energia.

Rosana Radke

Cláudia Rosani Dill. Ao fundo, o coletor solar instalado em sua casa

Mesmo com água em quantia considerável em nosso país, é preciso se pensar em maneiras de economizar energia hidroelétrica. “A água é um recurso findável, e com as mudanças climáticas, o mercado está cada vez mais carecendo de energias alternativas”, afirma o gerente da Celesc, de Itajaí, Hélio Decacio de Souza. De acordo com Decacio, em agosto deste ano, o município de Itajaí gastou 37.117.574 KW de energia. “É um número alto. E isso significa que para abastecer a cidade, dezenas de hectares foram inundadas”.

Decacio acredita que se a instalação de coletores solar fosse ampliada a outros bairros da cidade, a redução do consumo poderia chegar a mais de 5%. “Só não se reduziria mais porque este tipo de placa serve apenas para aquecimento de água, e o maior consumo de Itajaí está nas grandes empresas. Só em agosto foi de 17.881.036, nos chamados consumidores de alta tensão. Mas em residências, a economia na conta da luz quase sempre é superior a 30%”.

De acordo com o engenheiro ambiental Sandro Rogério Urban, as placas para aquecimento de água chegam a custam R$ 600. “Se o consumidor se interessasse por instalar coletores mais avançados – para captar energia em todos eletrodomésticos e eletrônicos – o custo seria bem mais alto, porque neste caso é preciso placa de silício. Como o material é muito caro, o retorno demoraria muito a vir, mas utilizar o calor no aquecimento de água já é um ótimo começo”.

Se a maioria da população soubesse o quanto reduziria os custos com energia elétrica e o quanto ela contribui para a preservação do ambiente, é provável que aumentassem o número de adeptos aos coletores solares. Conforme afirma o economista José Gentil Schreiber, “As placas de captura trazem grande economia nas residências, e o custo de instalação é baixo”.

Abundante na natureza, o sol tem energia de sobra em quase todos os continentes. O Brasil, com predominância do clima tropical, poderia facilmente tirar proveito desta energia inesgotável. De acordo com o site www.ambiente.ambientebrasil.com.br o sol oferece anualmente 10.000 vezes a energia consumida pela população mundial no mesmo período. Além disso, para cada metro quadrado de coletor solar instalado evita-se a inundação de 56 metros quadrados de terras férteis.

Cansado de pagar valores altos pela conta de luz, o técnico em mecânica José Martinho Telles Filho, morador de Itajaí, resolveu inovar. Com a ajuda da internet e dos conhecimentos que possuía, elaborou um modelo de aquecimento para água do chuveiro. Com material caseiro e barato, construiu um aparelho de captura de calor do sol que diminuiu de forma considerável a conta. “Desde a instalação economizo em torno de 30 %”, conta Telles.

O técnico afirma que decidiu implantar o sistema porque além de reduzir os gastos da família, também estaria contribuindo com o ambiente. “Nunca tinha visto alguém construir algo assim, mas depois dos sustos com as contas de luz, tive que encontrar uma alternativa tanto para enxugar meu orçamento, como para amenizar os impactos no ambiente”.Telles construiu o modelo em 2006, e investiu R$ 300, valor que recuperou em menos de oito meses. “O mais caro foi a caixa de água, o resto dos materiais era de baixo custo, como isopor e placas de PVC”.

Aprenda passo a passo como fazer um coletor no site: http://www.sociedadedosol.org.br/arquivos/asbc-br-jul09v3-0.pdf.

Enquanto no Brasil sistemas caseiros são utilizados de forma precária, a Alemanha, mesmo com clima gelado, é o país que mais investe em energia solar. “Na Europa há um cuidado bem maior em relação ao desenvolvimento sustentável. Na Alemanha, por exemplo, o governo incentiva habitações que priorizam o cuidado com o ambiente”, explica Urban.

Confira o infográfico abaixo:

Fonte: National Geographic

E quem pensa que a energia solar é útil somente em dias de sol se engana. Ela é eficiente mesmo em dias chuvosos e nublados. “É claro que quando há menos sol o aquecimento da água é mais demorado e menos intenso, mas nada que a torne inutilizável no inverno”, ensina Ofugi. “Além disso, somente o mormaço já suficiente para aquecer a água”, complementa.

Para Ofugi, o maior vilão numa residência é o chuveiro elétrico, e um estudo realizado pelo Centro Internacional de Referência em Reuso de Água (Cirra) da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em abril deste ano, comprova isto. O relatório apresentado afirma que o aquecimento de água no setor residencial brasileiro representa 6% de todo o consumo de energia elétrica do país. “Imagina quanto deixaríamos de explorar água doce, que está cada vez mais rara, e devastar terras se tomássemos medidas simples, como a instalação de placas de captura de calor solar”, alerta Urban.

O superintendente da Fundação do Meio Ambiente de Itajaí (Famai), Nilton Dauer diz que o governo municipal estuda a possibilidade de aumentar o número de coletores solares, para trazer economia à população e preservar o ambiente. Mas os programas de sustentabilidade ainda caminham a passos lentos. Enquanto isso, a energia que o sol traz em todas as épocas do ano se esvai a cada noite.

Lixo que gera energia

Com força de vontade e determinação de sobra, o eletromecânico aposentado José Alcino Alano, de Tubarão, criou uma fonte de energia solar alternativa, que além de reduzir custos na fatura de energia elétrica, tem o diferencial de ocupar material reciclável, como garrafas pet e caixas de leite longa vida. O projeto iniciado por José e sua esposa em 2002 foi aperfeiçoado, e as 100 garrafas pet utilizadas no primeiro aquecedor solar caseiro hoje chegam a mais de 1000 em coletores solares maiores.

Sem formação acadêmica, mas com muito empenho, o aposentado conta que na época da invenção começou a ler sobre o tema e pensar em algum modo de aproveitar a energia solar. Ele e sua família costumavam guardar as embalagens plásticas e o acúmulo foi inevitável. Então, surgiu a ideia para dar outro destino ao material.

www.strallos.com.br

Jose Alcino Alano mostra o coletor solar que construiu

Com entusiasmo, Alano comenta que além de aquecer a água do chuveiro, o coletor solar também é utilizado na pecuária – para a limpeza de galpões e para a higienização dos instrumentos utilizados na ordenha. Outra aplicação é no aquecimento de piscinas.

Ao falar sobre seu projeto, o aposentado ressalta a necessidade de todos ajudarem a cuidar do meio ambiente. “Lamento que as grandes invenções humanas tenham sido feitas em períodos de guerra, sob pressão. Tenho certeza que temos capacidade de desenvolver várias alternativas como esta, mas infelizmente a tecnologia ainda não está sendo aproveitada como deveria e a maioria das pessoas sabe da situação ambiental, mas faz  pouco para mudar”.

Confira a enquete:

Em 2004, o projeto de Alano ganhou reconhecimento público – a invenção recebeu o “Prêmio Superecologia”, da revista Superinteressante. Depois do sucesso do sistema, o projeto passou a contar com o apoio do governo. Em 2009, a Companhia Catarinense de Energia Elétrica (Celesc) fez um convênio de cooperação técnica para difundir os aquecedores solares produzidos com materiais descartáveis. Intitulado como “Energia do Futuro”, a iniciativa possibilita a reciclagem direta, sem qualquer processo industrial e pretende beneficiar comunidades carentes.

Fonte: www.sosriosdobrasil.blogspot.com

Coletor solar construído com garrafas pet

O idealizador do aquecedor ecológico conta que até agora, o sistema já favoreceu mais de seis mil famílias somente no Paraná. “Foram produzidos e instalados aquecedores em 254 dos 399 municípios paranaenses, retirando do meio ambiente mais de 2 milhões e 400 mil garrafas pet e caixas de leite”.

Alano comenta que em Santa Catarina, em torno de sete mil aquecedores foram instalados, e existem trinta e três projetos patrocinados pela Tractebel Energia SA., através do Comitê de Sustentabilidade, com a colaboração do Rotary Clube e da comunidade em geral.

De acordo com o engenheiro ambiental Sandro Urban, o aparato pode diminuir em mais de 30% o consumo de energia. “Enquanto essas garrafas vão para a terra e demoram 1000 anos para se decompor, fazendo parte do aquecedor solar elas deixam de agredir a natureza”. A única observação feita pelo engenheiro é o clima chuvoso, que pode diminuir a potência do coletor.

E, para quem ficou interessado em confeccionar seu próprio coletor caseiro, Alano indica as instruções no manual “Água quente para todos”. Com a “popularização” do projeto, a rotina do aposentado mudou. Hoje, ele e sua esposa passam a maior parte do tempo em viagens por todo o Brasil. O casal voluntário apresenta o aquecedor solar e mostra que com força de vontade é possível transformar até mesmo lixo em fonte de energia.

Esforço conjunto para salvar o rio Camboriú

Ariella Torres

Gabriella Czarnobay

Liana Coelho

O céu está nublado. A temperatura se aproxima dos 25º. O silêncio às vezes é quebrado pelo balanço das árvores de eucalipto ou pelo barulho dos tratores. A oito quilômetros podemos ver uma grande quantidade de prédios, mas ali, as estradas de terra são pouco movimentadas e as casas estão fechadas. Não passa das 16 horas de uma terça-feira de primavera e é bem provável que as famílias do município estejam trabalhando nas plantações.

Com os pés descalços, vestindo apenas bermuda, camiseta e boné, seu Idésio Vicente, nome conhecido na vizinhança, é um dos agricultores mais antigos da região. Simpático e comunicativo, ele conta que trabalha na lavoura desde a infância e sua plantação existe há pelo menos, cinquenta anos, pois antes pertenceu a seu pai. Casado, pai de dois filhos, seu Idésio é proprietário de nove hectares de terra às margens do rio, onde produz aproximadamente 1.365 sacas de arroz por safra, com 50 kg cada. Ele afirma que o casal de filhos, ambos formados, não tem interesse em continuar com a rizicultura, após sua aposentadoria.

Idésio Vicente e a vala que irriga sua plantação de arroz às margens do rio Camboriú

Idésio Vicente e a vala que irriga sua plantação de arroz às margens do rio Camboriú

Essa é a realidade de muitos moradores que vivem às margens do Rio Camboriú, na cidade que deu nome ao rio. Conforme dados do IBGE de 2007, o município tem 57.000 habitantes e sua economia é baseada na produção agrícola. Bem diferente da cidade vizinha, Balneário Camboriú, conhecida nacionalmente como a capital catarinense do turismo. Pesquisas do mesmo ano mostram que a cidade tem uma população de 94.000 habitantes e recebe cerca de 700.000 turistas na alta temporada de verão.

As comunidades que vivem próximas à Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú apresentam diversos problemas sociais, econômicos e ambientais. Ao seguir o seu percurso, o rio passa por cenários contrastantes: ambientes naturais, agrícolas e urbanos, até chegar ao mar da cidade vizinha, Balneário Camboriú.

O rio Camboriú tem 40 km de extensão e 199.80 km² de área, sendo que a montante da captação atual é de 137,84 km². Formado pelas sub-bacias do rio do Braço, dos Macacos e do rio Pequeno, é o responsável pelo abastecimento da água nos dois municípios. Sua capacidade hídrica está seriamente comprometida devido às ações degradativas do homem. O problema no desequilíbrio da bacia é evidenciado, principalmente, em períodos mais quentes, quando necessário maior  abastecimento urbano.

Confira slide show com fotos do Rio Camboriú

Impactos ambientais

Além do consumo humano, a cidade de Camboriú usa parte da água do rio para irrigar as plantações. A produção agrícola do município abrange as atividades de pecuária, olericultura (cultura de hortaliças), monocultura de espécies florestais – eucalipto e pinus, e rizicultura, sendo essa a mais expressiva. O desmatamento da mata ciliar também é agravado com as atividades de carvoaria. A extração da camada protetora das margens do rio compromete o ecossistema ali presente e contribui para a erosão do solo.

Plantações irrigadas com a água do rio

Plantações irrigadas com a água do rio

A rizicultura tem grande importância econômica para a região, sendo uma atividade de subsistência de muitos moradores rurais no entorno do rio e seus afluentes. De acordo com o Estudo do Manancial, realizado em 2007 pela EMASA – Empresa Municipal de água e esgoto de Balneário Camboriú, a área total cultivada com arroz irrigado utiliza cerca de 6.000.000 m³ durante os 70 dias de pico do uso para irrigação, entre os meses de agosto e setembro.

Próxima a região das sub-bacias do rio do Meio e dos Macacos, a área que antes era tomada pela Mata Atlântica, hoje é ocupada pelos arrozais. No plantio dos grãos, é feito o uso indiscriminado da água com a represa indevida do recurso hídrico, além da contaminação através do depósito de grande quantidade de agrotóxicos no rio, tendo como consequência o comprometimento da quantidade e da qualidade da água. Por isso, é fundamental que os produtores rurais se comprometam a preservar, pois a produção agrícola  depende da água gerada na bacia.

Outro problema que causa riscos ambientais ao rio é o fato do município de Camboriú não ter uma empresa responsável pelo saneamento básico. O esgoto de toda a cidade é despejado diretamente no rio, sem nenhum tratamento ou acompanhamento, ocasionando assim, a degradação do meio ambiente e da mata ciliar que contorna o rio.

Organizações não governamentais, sindicatos, associações e empresas públicas e privadas que têm conhecimento da situação atual do rio e de sua importância, através de pesquisas e estudos, identificaram a necessidade urgente de promover um amplo programa de recuperação da mata ciliar e adequar as propriedades rurais ao Código Florestal, buscando assegurar o desenvolvimento sustentável da bacia.

Mata ciliar degradada e plantações às margens do rio

Mata ciliar degradada e plantações às margens do rio

O diretor geral da EMASA, Ney Emílo Clivati, reforça que medidas devem ser tomadas, pois com o restabelecimento dos índices de cobertura vegetal será possível interceptar, reter e filtrar as águas da chuvas, aumentando a capacidade de armazenamento de água no rio. Por isso, a autarquia busca apoio dos órgãos já envolvidos na causa, para uma ação maior e mais efetiva.

PRODUTOR DE ÁGUA

Projeto garante aumento na produção de água

Semelhante à iniciativa implantada na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos,  a cidade de Balneário Camboriú propõe alternativas para salvar o único rio que abastece os dois municípios.

O projeto “Produtor de água” é uma iniciativa da EMASA e da Secretaria do Meio Ambiente de Balneário Camboriú. Ele prevê a recuperação das áreas de preservação permanente às margens do Rio Camboriú com o benefício a agricultores e, consequentemente, o aumento da produção de água para os dois municípios.

O projeto pretende recuperar cerca de 10 mil/m² da mata ciliar e conta com a parceria da ONG IDEIA, Sindicato dos Agricultores Rurais, Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Camboriú e demais órgãos e instituições relacionadas, como a EPAGRI, empresa de pesquisa agropecuária e extensão rural de Santa Catarina e a ANA – Agência Nacional de Águas.

Baseada na Lei Municipal n°2498 de 31 de outubro de 2005, a EMASA irá destinar recursos para a recuperação ambiental, através de incentivos financeiros aos proprietários rurais que aderirem à proposta. De acordo com o projeto, cada produtor será visto como um agente ambiental e receberá cerca de 15 UFM (unidade fiscal do município) por hectare, um valor equivalente a cerca de R$ 2.200,00, anualmente.

“Os produtores serão recompensados de acordo com a área preservada, que não foi utilizada para fins agrícolas”, explica Kelli Dacol, coordenadora do projeto. “Assim, a ação poderá ser concretizada de forma sustentável e elevar o nível de cobertura vegetal, contribuindo para a regularização hídrica da bacia, sem causar prejuízos sociais e econômicos aos produtores rurais”.

A comunidade rural do município de Camboriú é o público alvo da ação. As áreas de preservação permanente deveriam ser conservadas por lei, mas após as autoridades e órgãos competentes identificarem a problemática, não há outra forma de amenizar o problema. Conforme é apontado no projeto, essa será uma maneira de solucionar os conflitos entre a agricultura e a obrigatoriedade jurídica de adequação ao Código Florestal, discutidos inclusive, na Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina.

De acordo com a Lei Federal n° 4771 de 15 de setembro de 1965, do Código Florestal Brasileiro, são consideradas “Área de Preservação Permanente” as florestas e demais vegetações naturais situadas ao longo dos rios ou curso d’água em nascentes ou encostas de morros. O código prevê larguras mínimas para estas áreas de preservação, que variam de 30 até 500 metros de extensão.

Opiniões divergentes


Segundo o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Balneário Camboriú, Sílvio Matias, a aceitação por parte dos agricultores foi positiva. “De um modo geral, eles estão concordando com a proposta, mas ainda não a conhecem totalmente. À medida que alguns forem aderindo, outros produtores também participarão”. Sílvio comenta ainda que o projeto foi divulgado através de reuniões mensais do sindicato e que sua função é esclarecer dúvidas dos agricultores.

O trabalhador rural de Camboriú, Jacir Rebelo, dono de uma pequena propriedade com cinco hectares de terra às margens do rio, afirma que vai aderir ao projeto. “O Produtor de Água pagará o equivalente ao que produzo às margens do rio. É uma boa opção, além de ser ecologicamente correto”. Ele conta que em novembro de 2008, teve sua propriedade atingida pela enchente e saiu prejudicado. “Acho que o projeto contribuirá bastante para o desenvolvimento da região e todos sairão beneficiados”, conclui.

Já o engenheiro ambiental e civil Luís Vinícius de Souza, de Itajaí, não acha que o projeto seja a melhor alternativa. “Eles estão em área irregular, é errado dar esse dinheiro. Só que existem várias leis que defendem as minorias, como os agricultores, para que sejam protegidos, e é o que está acontecendo. Acabam apelando para o lado social”.

Como forma de solucionar o problema, ele acredita que áreas de alagamento são boas para a produção agrícola. “Na China, por exemplo, eles não têm o hábito de irrigar as plantações de arroz. Eles esperam as inundações normais do tempo para que se tenha germinação”. Escute outro aspecto ambiental envolvendo os agricultores citado pelo engenheiro.

Câmara de Vereadores ainda não se manifestou sobre o projeto

Vereadores discutem a implementação do projeto

A preservação dos recursos hídricos e do solo são práticas indispensáveis para manter o equilíbrio ecológico da fauna e flora, além de garantir a biodiversidade. A implantação do projeto aguarda agora a aprovação da Câmara de Vereadores de Balneário Camboriú. Ele entrou em pauta no dia 06 de outubro, mas teve pedido de vista na primeira votação pelo Presidente do Legislativo, Vereador Moacir Schmidt.

O vereador explicou que no dia 13 do mesmo mês, protocolou três emendas ao projeto inicial. A primeira alteração sugerida se refere ao parágrafo único do artigo 5°, que prevê que as áreas próximas à nascente teriam um valor de indenização diferenciado, a ser arbitrado pelo grupo gestor do projeto. Na emenda, o vereador sugere que seja estipulado um valor máximo a ser pago de 50% a mais do que nas outras áreas, ou seja, 23 UFM, cerca de R$ 3.400,00.

Outra emenda protocolada foi a solicitação do envio mensal de um relatório à Câmara de Vereadores, feito pela EMASA, com a relação dos proprietários que aderirem ao Projeto, assim como as respectivas metragens, valores e cronograma de execução do trabalho para realizarem a fiscalização. E a terceira e última emenda afirma que as despesas com o projeto deverá obedecer aos limites estabelecidos nas dotações orçamentárias.

Para outro vereador do município, Roberto Souza Júnior, o projeto deve ser votado logo. “É uma pena que a Câmara de Vereadores tenha feito pedido de vista de um projeto que só trará benefícios a Balneário e também Camboriú. Espero que tudo seja revisto e o projeto aprovado”. Quem concorda é a vereadora Christina Barichello, líder da bancada do governo, que lamentou o pedido de vista. “Esse projeto é vital para o município, não podemos esperar muito tempo. Faço esse apelo como mãe, moradora e cidadã de Balneário Camboriú”. Ouça as declarações dos vereadores Dão Koeddermann e José Carlos Hannibal.

Entidades responsáveis pelo projeto aguardam aprovação

Para obterem um resultado positivo em relação ao projeto e garantir a sobrevivência do Rio Camboriú, será preciso o engajamento das pessoas envolvidas nesse processo. A começar pelos rizicultores, instituições e órgãos envolvidos até chegar a toda a comunidade que deve fazer uso da água de maneira racional.

O Presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica, Ênio Faquetti, apoiador da iniciativa, afirma que algumas propriedades já se colocaram à disposição e se mostram dispostas a participar do projeto. “O acordo com os agricultores acontece de forma voluntária, não é nada obrigatório. Através destes produtores, vamos procurar estabelecer contatos com os outros que ainda não aderiram. À medida que eles vão aderindo, vão recebendo o pagamento pelo serviço ambiental”. Faquetti se mostra confiante na aprovação do projeto.

Ariella Torres

Agricultores vão deixar de plantar às margens do rio em troca de recompensa

Mas, para isso acontecer, além da informação “boca a boca”, será preciso investir em ações que divulguem e informem sobre a importância da adesão e contribuição do público alvo. As ações que serão feitas estão listadas no projeto, sujeitas a alterações. Elas incluem a elaboração de material informativo, plano de ação com detalhamento das atividades e responsabilidades de cada parceiro, além da elaboração do cronograma físico e financeiro.

Como a ação será estendida à comunidade dos dois municípios que utilizam os recursos hídricos, serão desenvolvidas campanhas em escolas públicas e privadas. Além do incentivo ao uso racional da água, principalmente na cidade de Balneário Camboriú, que aumenta significativamente o consumo no verão, devido ao grande número de turistas na alta temporada.

Outra parceira no projeto, a Organização não governamental IDEIA, única ONG voltada à recuperação da Bacia Hidrográfica de Camboriú, se propõe a dar apoio incondicional ao serviço ambiental. Carla Cravo, bióloga e fundadora da ONG, explica que a organização irá trabalhar na parte prática, ou seja, na realização do plantio, recuperação e manutenção das mudas próximas às margens dos rios.

Perdas de Água

Preocupação Ambiental e novas tecnologias: tudo em prol do desenvolvimento sustentável

Caroline Leal
Graziela Mertens

Felipe Gautério Leal

Sistemas de abastecimento de água adequados são de grande contribuição para a melhoria na qualidade de vida da população

Ações para economizar água e preservar os mananciais são metas mundiais. Em 1922, a ONU redigiu um texto onde manifestou a importância da preservação da água no planeta. A “Declaração Universal dos Direitos da Água”, diz que cada continente, cada povo, cada nação, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável por este bem que é essencial para a vida de todos seres vivos.

Confira aqui a mensagem do Group Raindrops sobre a água.

A água, essencial ao surgimento e à manutenção da vida em nosso planeta, é indispensável para o desenvolvimento das diversas atividades criadas pelo ser humano, e apresenta, por essa razão, valores econômicos, sociais e culturais. Com o aumento da população e o desenvolvimento industrial, a utilização da água cresceu abusivamente, como se fosse um recurso abundante e infinito. Pesquisadores afirmam que em diversas partes do mundo, como Oriente Médio, África e alguns lugares da América Central e Estados Unidos já sofrem com a escassez da água. No Brasil a realidade é outra, já que cerca de 10% de toda água doce do planeta se encontra em território brasileiro, porém o país apresenta sérios problemas no que diz respeito a sua distribuição.

Os recursos hídricos são tema destaque de discussões para o alcance do desenvolvimento sustentável. O meio ambiente e a sustentabilidade nunca antes foram tão debatidos por pesquisadores e especialistas e tão divulgado pela mídia. Alterações climáticas, destruição dos mananciais, crises no fornecimento e escassez de água e a constatação de que, se nosso modo de vida não mudar, o planeta estará ameaçado. Isso todo mundo já sabe. O problema é que há outros motivos dos quais se tem pouco conhecimento e quase nenhuma divulgação. E eles são tão importantes quanto as outras questões mencionadas.

O abastecimento de água, em quantidade e qualidade adequadas, é uma das principais prioridades das sociedades. Entretanto, as elevadas perdas de água tornaram-se um dos maiores problemas das redes de distribuição. Em seu artigo “Abastecimento de Água”, o professor titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da USP, doutor Pedro Sobrinho, registra que já em 1881, em Glasgow, na Escócia, foi realizado o primeiro estudo relativo a perdas de água. Segundo o histórico apresentado pelo autor, no Brasil, o primeiro levantamento foi feito somente em 1950, na cidade de Manaus, e mostrou índice de perdas de 70%.

Assista a reportagem do Jornal Nacional sobre as perdas de água, uma das poucas publicadas sobre o assunto.

De acordo com o levantamento realizado em 2005 pelo SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o Brasil perde, em média, 44,81% da água distribuída em relação à água captada. Isso quer dizer que quase a metade da água que é tratada é desperdiçada antes de chegar ao consumidor. Essa quantidade de água seria suficiente para abastecer, simultaneamente, países como a França, a Suíça, a Bélgica e o norte da Itália.

Dados mais recentes têm mostrado índices de perdas preocupantes que variam entre 18% e 77%. Fazendo uma comparação bem simples desses sistemas com mais de 70% de perdas, é o mesmo que uma indústria automobilística fabricar dez carros e só disponibilizar três deles para a venda. “Os melhores sistemas brasileiros, neste quesito, têm perdas de cerca de 18%, valor ainda alto para os padrões europeus, onde há índices de perdas menores que 5%”, explica o engenheiro sanitarista e professor doutor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Peter Cheung.

Há várias causas para essas perdas nos sistemas, mas apontadas como principais: o grau de obsolescência dos equipamentos (tubulações antigas e muito susceptíveis a rompimentos e vazamentos, hidrômetros descalibrados ou com defeito, não medindo corretamente a água consumida), a ausência de hidrômetros (pagando-se um valor fixo, independentemente do consumo), as fraudes de toda natureza, ligações clandestinas, cadastro comercial falho das companhias e, ainda, aquelas destacadas pelos especialistas: “O baixíssimo uso da tecnologia para auxiliar nesta área, a carência de especialização dos profissionais das empresas de saneamento e a falta de educação generalizada da população, que continua a crer que nunca faltará água. Assim, como se vê, há muito por se fazer”, explica Manoel Carlos Solera, engenheiro de automação formado pela UFSC.

Caroline Leal

Tubulações de ferro fundido utilizadas em sistemas antigos, o desgaste excessivo pode acarretar danos graves à saúde da população

Todas as causas apontadas refletem o baixo investimento que é feito na área. A situação se agrava ainda pelo fato de que as empresas não pagam pela água que é captada dos rios e o poder público não exerce seu papel fiscalizador, mesmo com a existência de leis que regulamentam esse dever. O engenheiro sanitarista e ambiental Guilherme Girol argumenta sobre o descaso com a situação: “Penso que a água deveria ser muito mais cara do que é hoje, assim talvez começássemos a agir de outra forma. No Brasil, infelizmente, funciona assim, as atitudes só são tomadas quando algo afeta nosso bolso”.

A Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, que baseia-se em alguns fundamentos e um deles é de que “a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico”. A lei, que regulamenta diversas ações por parte do poder público e das empresas de saneamento, traz no art.22, da seção IV, da cobrança do uso dos recursos hídricos, que “os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados”, para serem utilizados no financiamento de estudos, programas e projetos, ou seja, investimento para melhorias. O artigo 30, a respeito da ação do poder público, é claro: “outorgar os direitos de uso de recursos hídricos e regulamentar e fiscalizar os seus usos”. Mas, o que realmente é feito?

Não adianta cobrar só dos governantes. “A culpa é de todos nós. Criticamos, mas não realizamos nenhuma ação concreta para cobrar essas melhorias. Claro que em uma determinada região ou município, os governantes têm mais poder e instrumentos para mudar as coisas. Neste sentido, é necessário haver uma mudança cultural e nomear para a gestão de uma companhia de saneamento pessoas que tenham uma visão técnica e, não somente política, como ainda ocorre muito atualmente”, argumenta Solera.

No Brasil, além do descaso com a situação, há uma resistência em relação à aquisição e uso de novas tecnologias na área. É um problema na verdade cultural, a dificuldade que as pessoas têm em mudar de hábitos, mas em boa parte também por desconhecimento e receio destas novidades. Peter Cheung enfatiza: “aí, é fundamental o papel dos meios de comunicação e das empresas de tecnologia, como a Sanova, mostrarem ao setor o que estão oferecendo e, principalmente, quais os benefícios e resultados práticos que o uso disto trará para as empresas e o que será exigido delas”.

Investimento em tecnologia no combate ao desperdício

As novas tecnologias são um dos maiores aliados no combate as perdas de água, principal problema enfrentando pelas empresas de abastecimento. Essas perdas de água potável são calculadas tendo como base a diferença entre o volume consumido registrado pelo conjunto de hidrômetros e o volume produzido pelos sistemas. Para entender melhor a importância dos investimentos em tecnologia, você vai saber que perdas são essas, como elas ocorrem e qual a função dos aparatos modernos.

Existem dois tipos de perda: a real (física) e a aparente (não física). A perda real é a água perdida em vazamentos (nas tubulações, adutoras, reservatório), aquela que não chega ao consumidor. A perda aparente é a água usada pelos consumidores, mas que não é medida pela empresa de abastecimento de água, como as fraudes, erros no cadastro e de medição.

“Atualmente, a grande maioria das empresas de abastecimento de água tem problemas com perdas físicas e de faturamento (veja infográfico) que comprometem a sua saúde financeira e a qualidade da prestação do serviço”, explica Bruno Comunello, engenheiro sanitarista e um dos sócios da empresa Sanova.

As perdas de faturamento em números no país.

SNIS 2007

Representação espacial do índice de perdas de faturamento para o conjunto de prestadores participantes do SNIS em 2007 (indicador IN013), distribuído por faixas percentuais segundo os estados brasileiros.

Quando perguntado sobre quais os primeiros investimentos em tecnologia que as empresas de saneamento devem fazer para começar a melhorar o quadro atual, Peter Cheung é claro: “Há um conceito básico em engenharia que diz que só se pode controlar aquilo que se mede. Assim, creio que a melhor forma é começar a medir as principais variáveis de interesse (volume, vazão e pressão de água, quantidade de rompimentos e manutenções, consumo energético, etc), e trabalhar constantemente com estes dados a fim de melhorar os índices”. Para isso, podem ser utilizados medidores, que são instalados em diversos pontos da rede de distribuição e geram dados a serem coletados e armazenados para controle. Quanto maior o número de medidores instalados, maior a precisão que se pode ter do sistema.

Quando se tem um cenário aproximado da realidade pode se avaliar as alternativas e tecnologias mais adequadas para cada caso. “Em relação às perdas, as primeiras medidas, em geral, são trabalhos de pitometria, uso de válvulas para redução da pressão na rede de distribuição, troca de hidrômetros por modelos mais robustos e eficazes e a utilização de simuladores hidráulicos computacionais”, explica Guilherme Girol.

Esses simuladores, mais conhecidos como modelagem hidráulica dos sistemas, são ferramentas eficientes, mas que precisam de uma mínima base de dados confiável. Um exemplo é o software Epanet, que, numa linguagem simplificada, consiste em oferecer ao programa a maior quantidade possível de dados, para que possa ser criada uma “cópia virtual” do sistema de abastecimento e, ali, sejam feitos diversos tipos de testes e simulações para se chegar a melhor opção a ser executada no sistema real. O Epanet é o simulador hidráulico mais utilizado no mundo, devido a sua facilidade de uso, eficiência e por possuir o código fonte aberto. No Brasil, seu uso é incentivado pelo governo federal.

Paralelo a isto, as medidas corretivas e emergenciais são inevitáveis. Manoel Solera ressalta que “a automatização dos processos e a centralização dos dados operacionais também trazem benefícios quase imediatos para as empresas desta área”. A automação consiste na aplicação da tecnologia dos processos de saneamento e da tecnologia da informação, contemplando os avanços nas técnicas de captação, tratamento e distribuição de água e possibilitando a realização da supervisão e controle desses processos de maneira a mantê-los operando com a melhor relação custo-benefício.

Os especialistas são unânimes de que, por haver uma enorme gama de situações e alternativas, seria inviável detalhar cada caso. Da mesma forma, em relação ao custo, os valores variam muito. “Porém, é preciso ter em mente não apenas se uma solução é cara ou barata, mas, principalmente qual é o seu custo-benefício. Um exemplo prático são as automatizações de estações de tratamento de água (ETA)”, acrescenta Manoel.

O engenheiro exemplifica as vantagens desse tipo de investimento: “No final do ano passado, a Controlle (empresa de automação da qual Manoel é sócio) automatizou os processos de dosagem de produtos químicos da ETA da cidade de Blumenau. Passados alguns meses, notou-se que a água produzida na estação tinha um melhor padrão de qualidade e, o que é melhor, com menos produto químico presente nela. Do ponto de vista financeiro, o valor economizado com produtos químicos deve cobrir o que foi gasto em todo o projeto de automação em cerca de 11 meses apenas”.

Caroline Leal

Fonte: SNIS 2007.

Todas essas novas tecnologias na área, para medição, automatização e softwares só funcionarão se as empresas de saneamento tiverem dados suficientes ou conhecimento básico sobre sua rede de distribuição de água. Exemplo disso é a base de dados SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), criada para armazenar o maior número de informações sobre saneamento do país. O fornecimento de dados para o SNIS acontece de forma voluntária, mas para o programa funcionar adequadamente os estados, municípios e prestadoras de serviços de saneamento precisam enviar as informações.

Segundo o site oficial do SNIS (www.snis.gov.br), “o Ministério das Cidades estabeleceu nos Manuais dos Programas de investimentos de sua responsabilidade, duas condições de acesso que se relacionam ao SNIS: em alguns deles a obrigatoriedade do fornecimento de dados ao SNIS como condição prévia para acesso aos recursos; e, em outros, a pontuação maior para efeito de hierarquização de projetos, dos prestadores de serviços que comprovarem ter enviado seus dados ao SNIS. Assim, a partir do ano de 2006, com dados do ano-base de 2005, tais condições serão exigidas dos prestadores de serviços, dos Estados e dos Municípios que se candidatem a acessar recursos nestes Programas”.

Pesquisa realizada em 2008 pela ABES – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental aponta que a situação do saneamento básico na Região Sul e, especialmente, em Santa Catarina é tão precária quanto no resto do país. O estado, que tem um dos melhores índices de qualidade de vida do país, vem se destacando negativamente no que diz respeito ao abastecimento de água, principalmente, na falta de investimentos em tecnologias no setor.

Leia o relatório completo da pesquisa da ABES aqui.

Aplicações e resultados dos investimentos em tecnologias para saneamento em Santa Catarina.

Apesar dos graves problemas já mencionados, a qualidade de ensino no estado, principalmente nas áreas de engenharia sanitária, ambiental e de automação, bem como a preocupação com o turismo, tem despertado iniciativas para a melhoria deste setor.

Felipe Gautério Leal

Construção do novo reservatório para aumento da capacidade de abastecimento de Capinzal e região

Capinzal, no oeste de Santa Catarina, é referência nacional em abastecimento de água, motivo que levou a cidade a ganhar recursos da FUNASA – Fundação Nacional de Saúde. A verba foi utilizada no projeto “Uso associado de técnicas computacionais e de experimentação voltado ao gerenciamento de perdas em sistemas de abastecimento de água”.

Segundo Ademar de Giametti, diretor técnico da autarquia intermunicipal SIMAEServiço Intermunicipal de Água e Esgoto Capinzal/Ouro, “o objetivo geral do projeto é desenvolver um protocolo de ações para a avaliação das perdas (reais e aparentes) nos sistemas de abastecimento de água e otimização dos sistemas de abastecimento de água e otimização dos sistemas elevatórios para a redução dos custos com energia elétrica, apoiado em tecnologias computacionais de baixo custo (software livre) e de experimentação em campo (equipamentos nacionais)”.

Caroline Leal

Curso de Epanet ministrado pela empresa Sanova no SIMAE

Outro município destaque em saneamento é Joaçaba. O Serviço Intermunicipal de Água e Esgoto – SIMAE – Joaçaba, Herval do Oeste e Luzerna ganhou, no último dia 24, o Prêmio Nacional da Qualidade em Saneamento (PNQS). É o primeiro serviço municipal de água e esgoto a conquistar o prêmio em Santa Catarina e, um dos primeiros do sul do Brasil. Para a diretora do SIMAE, Elisabet Maria Sartori, “a conquista do PNQS vem em reconhecimento a uma série de ações planejadas e executadas pela nossa equipe de servidores e representa a conquista do primeiro passo rumo a nossa visão, de sermos reconhecidos como referência nacional de serviço público municipal em saneamento básico”.

Além do prêmio de excelência em distribuição de água, O SIMAE de Joaçaba, Herval do Oeste e Luzerna e a Companhia Águas de Joinville, estão entre as seis empresas selecionadas de 2009 para receber o 5º Prêmio Catarinense de Excelência (PCE), promovido pelo Movimento Catarinense para Excelência (MCE). O empresário André Gaidzinski, presidente do MCE, afirma que “a busca pela excelência é a principal determinante para o sucesso das organizações no novo mundo em que vivemos cada vez mais competitivo e globalizado”. Ambas as empresas de saneamento que concorrem ao prêmio já utilizam diversos tipos de tecnologia em seus sistemas de abastecimento.

A Companhia Águas de Joinville, trabalha com o gerenciamento de perdas, além de promover diversas campanhas contra o desperdício e as perdas de água. Todos os projetos e ações realizadas pela empresa podem ser acompanhados no site: www.águasdejoinville.com.br. Outra empresa de saneamento que mantém os dados de seus investimentos atualizados e disponíveis em seu site é a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento – CASAN. Presente em 205 municípios catarinenses e um paranaense, a empresa publica no endereço: http://www.casan.com.br/index.php?sys=10, a descrição das obras e tecnologias implantadas e seus custos, realizadas nos municípios de sua abrangência.

Neste ano, a Semasa, empresa responsável por abastecer os municípios de Itajaí e Navegantes, iniciou as obras de ampliação, readequação e modernização da ETA São Roque. O investimento é de aproximadamente R$ 6 milhões e vai permitir o aumento da capacidade de captação, tratamento e reserva de água. Em outros pontos da cidade estão sendo executadas obras de instalação de novas adutoras para ampliar a capacidade de abastecimento e também de medidores para controlar os índices de perdas. “A ampliação do sistema de tratamento de água, além de modernizar o processo, vai garantir o abastecimento da cidade por mais 30 anos”, garante o engenheiro Sérgio Juk, diretor de saneamento da Semasa.

Felipe Gautério

Instalação de macromedidores eletromagnéticos de vazão de água no sistema de abastecimento do Semasa

Estes pequenos passos são importantes no sentindo de servir de exemplo para serem seguidos não somente pelos municípios do estado, mas também, por todo país. Para que de uma forma mais rápida se alcance padrões de primeiro mundo, onde os sistemas de saneamento e distribuição de água são muito mais desenvolvidos que no Brasil. Estes países têm maior preocupação ambiental e, consequentemente, um melhor desenvolvimento sustentável.

O controle de perdas de água é fundamental para uma empresa de abastecimento, para o poder público e para a população, tanto do ponto de vista ecológico como econômico e de segurança. É compreensível o quão preocupante é a situação das perdas de água nos sistemas de abastecimento de água em nosso país e como é fundamental potenciar os investimentos em métodos de detecção e controle dessas perdas.

Os especialistas são enfáticos em dizer que o investimento nos sistemas de abastecimento não supera, a longo e até médio prazo, as perdas econômicas que produzem. E, ainda, que as empresas com menor porcentagem de perdas são também as que levam a cabo a maior quantidade de investimentos e uso de tecnologias em seus sistemas.

Descubra aqui qual é a palavra chave para o sucesso das empresas de saneamento na visão de profissionais da área.

A água não deve ser poluída e nem desperdiçada. A sua utilização, que deve ser realizada de maneira consciente, também implica respeito à lei. Ações para a proteção e preservação da água constituem uma obrigação jurídica para os homens ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Não deixe a água acabar! Evite o desperdício.

Para que não falte água em sua casa, é importante que você colabore com a preservação dos mananciais e compreenda que a água (apta a ser consumida) é um bem finito e que já está escassa em vários pontos do nosso planeta; ter atitudes em prol disto, consumindo o recurso hídrico, mas não o desperdiçando. Seja um exemplo, assim você influenciará positivamente as pessoas do seu convívio e ainda vai beneficiar sua família, seu bolso e sua cidade.

Como você pode colaborar:

  • Utilize equipamentos eficientes (torneiras, chuveiros, sanitários, etc);
  • Não permaneça por muito tempo com o chuveiro aberto e não esqueça torneiras abertas ou pingando;
  • Evite regar jardins em demasia e lavar as calçadas com água tratada. Uma dica para isso é a utilização da água da chuva;
  • Veja se não há vazamentos em suas instalações (eles geralmente ocorrem nas caixas de descarga, na bóia da caixa d’água, no ramal direto da rede e nas torneiras);
  • Consulte a companhia de saneamento local ou o SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento para saber qual a situação do abastecimento de água e quais investimentos estão sendo realizados;
Graziela Mertens/ Felipe Gautério

Vazamentos expostos como estes muitas vezes permanecem desperdiçando água por meses sem sofrer reparos

  • Avise a empresa de saneamento sobre vazamentos nas ruas o mais rápido possível, denuncie fraudes e qualquer outro problema constatado, e cobre medidas rápidas;

Para saber mais…

  • Dicas de sites para você que quer aprofundar o assunto:
http://www.snis.gov.br – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
http://www.sanova.com.br – Empresa de Engenharia – tecnologia em Modelagem Hidráulica
http://www.controlle.ind.br– Empresa de Engenharia de Automação
http://www.abes-dn.org.br – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental
http://www.saneamentobasico.com.br – Tudo sobre Saneamento Básico

Ilhota quer sustentabilidade

Especialistas apontam alternativas sustentáveis para a região dos Baús

Carina Carboni

Luana Lemke

Defesa Civil de Ilhota/divulgaçao

Em novembro, tudo resumiu-se em barro, desespero e prejuízo no complexo do Baú.

“Naquela noite a casa estremeceu e a gente ouviu aquele estouro. Quando saí à rua, logo vi aquele clarão do outro lado do morro. Até pensei que fosse um posto de gasolina que tinha explodido”, lembra Antônio Laurindo que após esse episódio e, principalmente os que o sucederam, passou a tomar remédios para o coração.

Essa fala é comum pelos arredores do Morro do Baú, no município de Ilhota/SC, onde muitos moradores tiveram suas casas e familiares soterrados pela lama dos desmoronamentos trazidos pelas chuvas de novembro de 2008. Desde então, o rio que percorre as proximidades do Alto Baú, Alto Braço do Baú, Braço do Baú, Baú Central, Baú Seco e Baú Baixo mudou o seu trajeto. Alguns lugares, onde antes havia plantações de arroz, hoje dão lugar a grandes lagoas. As bananeiras já não oferecem o mesmo número de cachos e onde antes havia casas, o vermelho do barro ainda impera.

Veja mais sobre isso aqui

Alguns sobreviventes alimentam a crença de que a explosão da tubulação do Gasoduto Bolívia-Brasil na noite daquele domingo, dia 22, teria afetado a estrutura do solo local e provocado os deslizamentos, que foram inéditos para os habitantes dali. “Eu penso que a explosão tenha piorado o caso porque até aquele momento, nunca tinha sido visto nada igual. Deve ter alguma relação, pois logo depois teve o primeiro deslizamento”, conta outra moradora que prefere não se identificar. Saiba mais sobre o gasoduto no Jornal do Sicepot/SC

Mas os milhares de anos do topo daquela montanha tornam a área naturalmente instável para a geóloga Karel Jockyman. Ela diz que a explosão, ocorrida na região do município vizinho de Gaspar, não teria como provocar os deslizamentos do Baú. “É difícil entender que existem tempos geológicos que levam a uma erosão natural do solo, quando se nasceu e cresceu num lugar e nunca se tenha ouvido dizer nada a respeito de grandes desmoronamentos”.

Para a pesquisadora, que há seis meses estuda o local, não é possível responsabilizar a explosão do Gasoduto pela tragédia ocorrida em 2008. Ela acredita que o solo pode voltar a ceder, com ou sem nenhuma explosão, pois há água armazenada sob ele. “Um forte indício são os pequenos orifícios na base do morro, de onde escorre água. Olhando debaixo da montanha já dá pra ver que está perigoso”.

Não é preciso ser especialista no assunto para perceber que algumas áreas do Baú estão mesmo comprometidas. A observação da geóloga, na ocasião contratada pelo Centro Universitário de Pesquisas e Desastres (CPED), pode ser confirmada em várias regiões. Inclusive nas encostas das estradas e de muitas casas que foram reconstruídas em locais bem próximos aos deslizamentos do ano anterior. Veja mais aqui

A engenheira civil Sílvia Helena de Carvalho Ribeiro, também contratada pelo CPED, lembra que há registros de desmoronamentos no complexo do Baú que datam de milhões de anos. Ela reforça a opinião da geóloga Karel ao afirmar que não será possível convencer as famílias a deixarem suas casas. “Muitos acreditam que a tragédia não voltará a se repetir”.

É importante considerar que mesmo conscientes do risco que estão correndo, a maioria dos moradores destas localidades não tem outra opção de moradia. Neste caso, projetos de sustentabilidade tornam-se uma alternativa para o município, que contabiliza 727 famílias nas seis localidades do Baú. O desafio é encontrar soluções que amenizem os danos trazidos pela erosão, para que as pessoas possam conviver com o risco, mas conscientes do permanente estado de alerta em caso de chuvas.

Karel chama a atenção para a falta de interesse da sociedade em relação a projetos sustentáveis. “Na verdade, a maior fraqueza é a falta de equipe técnica disposta a atender o Baú”. A especialista garante que podem ser desenvolvidos meios de conviver com este fenômeno natural, assim como os japoneses e outras milhares de pessoas no mundo tem convivido com os abalos sísmicos. “Acho engraçado que todo mundo me pergunta se o problema é sério, mas ninguém nunca perguntou se o caso tem solução”.

Já foram liberados 2,7 milhões de reais pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, para serem destinados à drenagem da água e, consequentemente, colaborar com uma melhora na qualidade de vida dos agricultores. A geóloga Eliane dos Santos explica que para realizar este processo é necessário manter a área vegetada com espécies de porte arbustivo e arbóreo, para aumentar a infiltração e, com isso, diminuir o escoamento.

“É preciso amortecer a inclinação das encostas que sofreram intervenção antrópica (humana). Nos riachos e córregos que existem na área, a velocidade do fluxo superficial também precisa ser reduzida. O ideal seria criar pequenas barragens para amortecer a velocidade e quebrar o desnível do leito”. Para as encostas dos morros que não possuem vegetação e que tenham sofrido alguma intervenção humana, como abertura de estradas, retirada de aterro e construção de casas, a alternativa é a construção de taludes.

Estas plataformas, que se assemelham a escadarias, já estão sendo construídas as margens da BR 470. A edificação serve para diminuir a velocidade da água, sendo indicada para locais onde a superfície de repouso possui ângulo superior a 45 graus. “Além disso, todas as águas pluviais devem ser retiradas da frente do talude, através de calhas construídas no local”, reforça Eliane.

Como medida de prevenção, os moradores também aguardam a construção de um abrigo que possa servir como rota de fuga. “Nós também temos a necessidade de um rádio para o caso de ficarmos isolados. Aqui não pega celular e a maioria dos nossos telefones, que são por satélite, deixam de funcionar com o mau tempo”, alega Tatiana Reichert, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús.


Ainda são vistos, através da janela da casa de Tatiana, os vestígios da grande destruição trazida pelos deslizamentos. A moradora conta que perdeu 14 parentes de até terceiro grau, entre eles mãe e irmã. Do quintal de sua residência aponta o local, pertinho dali, onde havia sete casas. Dez meses depois, existe apenas um terreno vazio e a espera das famílias pela reconstrução de seus lares.

Veja aqui galeria de fotos

É preciso replantar

A drenagem da água não é suficiente para prevenir os desmoronamentos do Baú. Este solo é constituído principalmente por cascalho, de natureza altamente permeável. O excesso de água da chuva leva a sua erosão e o seu deslocamento pela encosta, de forma lenta e gradual. É por isso que a vegetação também precisa ser repensada. Para algumas regiões, como as das encostas próximas às estradas, a plantação de gramíneas é indicada como um meio de firmar o solo, já que esse vegetal tem raiz longa e não apresenta sobrepeso.

As espécies exóticas de pinus e eucaliptus devem ser evitadas. A bióloga Rosemere Marenzi lembra que é preciso optar por espécies arbóreas que sejam adaptáveis à condição de solo local. Entre tantas espécies vegetais ela cita plantas como a guabiroba, a aroeira, a embaúba e o jacatirão. Para solos úmidos como o encontrado na região dos Baús também são indicadas plantas como Ingá, Tucaneiro e Guarapuvú. De acordo com a pesquisadora, essas espécies têm grande valor ecológico, embora o valor econômico ainda seja pouco difundido.

A madeira resistente da guabiroba (Campomanesia xanthocarpa) pode ser aproveitada no tabuado em geral, desde lenha e carvão até a confecção de cabos de ferramentas e instrumentos musicais. Conforme Lorenzi, em sua obra “Árvores Brasileiras”, publicada em 2002, os frutos dessa árvore possuem alto valor vitamínico e podem ser consumidos in natura ou ainda aproveitados na preparação de sucos e licores. No caso da embaúba (Cecropia pachystachya), a madeira leve pode ser utilizada tanto na confecção de lápis, brinquedos e saltos de sapatos, como para o aproveitamento da polpa celulósica usada na fabricação do papel. A estrutura de peso e altura dessa planta a torna excelente para o reflorestamento de áreas degradadas.

A economia do complexo do Baú é, sobretudo, baseada na produção agrícola (bananicultura, horticultura e rizicultura) e extração de madeira. De acordo com a prefeitura de Ilhota, a agricultura representava 22% da arrecadação do município. Após a tragédia, a soma dos prejuízos chegou a 32 milhões de reais. As 124 famílias de rizicultores tiveram perda total de suas lavouras, sendo que as 54 famílias que tiravam o sustento da plantação de banana tiveram 80% de suas plantações devastadas. Hoje, muitas dessas famílias dependem da ajuda de parentes e voluntários que visitam as áreas.

Especialistas procuram apoio para desenvolver projeto de prevenção de riscos para a população do Complexo do Baú:

Combinação desastrosa

 

Alto volume de chuvas, desgaste do solo e ocupação irregular de áreas de risco são os responsáveis pela maior tragédia ambiental da história brasileira

Júlio Schumacher

Pedro Machado


A angústia tomava conta do jovem empresário Anderson Wehmuth, de 28 anos, na manhã chuvosa de domingo, 23 de novembro de 2008. Parte da Rua Amazonas, no bairro Garcia, já havia sido inundada. Alguns condomínios estavam ilhados. A Defesa Civil de Blumenau recomendava às famílias que estivessem fora das áreas de risco de enchentes e deslizamentos de terra que não deixassem suas casas. Anderson estava seguro, longe dali, mas aflito. Não conseguia parar de pensar nos estragos que a chuva poderia ter causado no escritório da sua empresa.

A água baixou e deu lugar à lama e à sujeira. Nas ruas da cidade, um cenário de guerra: casas destelhadas, árvores tombadas, postes derrubados, fiação elétrica exposta.

Buraco engole veículo

O escritório de Anderson, como ele já imaginara, não passou impune. Tudo que estava dentro dele foi comprometido. O prejuízo com as perdas e a danificação de equipamentos e computadores, calcula, chegou a R$ 15 mil. “A chuva só não levou o nosso know-how”, conta o empresário, que só conseguiu reabrir o negócio dois meses depois, em outro endereço – na Avenida Martin Luther, próximo da prefeitura.

Assim como Anderson, outras 103 mil pessoas – pouco mais de um terço da população de Blumenau – foram atingidas direta ou indiretamente pela maior tragédia geoambiental da história brasileira. Foram quatro meses de chuvas ininterruptas, que se intensificaram entre os dias 21 e 24 de novembro, e causaram alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra em praticamente todas as regiões da cidade. De acordo com informações da Prefeitura Municipal, cinco mil famílias, totalizando cerca de 25 mil pessoas, ficaram desabrigadas. Vinte e quatro morreram. Os prejuízos na infraestrutura urbana, com a destruição de pontes e edificações e a obstrução de ruas, foram estimados em R$ 700 milhões.

Asfalto rachado

Entre especialistas, há um consenso de que o grande volume de água que caiu durante o período foi o principal responsável pelos estragos causados. “Santa Catarina e a região Sul do país, em geral, já são áreas bem vulneráveis. Mas o que aconteceu foi algo totalmente anômalo. A precipitação ultrapassou os mil milímetros, quando o normal para o mês inteiro era de 200”, explica Gustavo Escobar, doutor em Meteorologia e coordenador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para se ter uma ideia, entre os dias 21 e 24 de novembro, época mais crítica do mês, choveu 500 milímetros, mais do que o dobro registrado na enchente que castigou a cidade em 1984.

Essa grande intensidade das chuvas foi resultado de um fenômeno natural, afirma o geógrafo e coordenador do laboratório de climatologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Sergey Alex de Araújo. Segundo o especialista, houve uma frente fria estacionária na região Sudeste, que acabou criando um bloqueio atmosférico no oceano Atlântico.Veja aqui mais detalhes sobre a Enchente de novembro de 2008 Esse bloqueio foi associado a um anticiclone, região onde o ar aquece e fica estável, anulando a formação de nuvens e precipitação. Por outro lado, ele também esteve ligado a um vórtice ciclônico – sistema de baixa pressão –, que provoca chuvas e ventos fortes. No caso, essa ação se manifestou na costa Leste do Paraná e de Santa Catarina. “Soma-se a isso a ocorrência do El Niño, que aquece a temperatura dos oceanos e acelera o processo de evaporação. Com os ventos fortes, toda essa umidade foi empurrada para a região do Vale do Itajaí”, esclarece o climatologista.

Solo já estava podre, diz especialista

 

A sequência de frentes frias e de fenômenos climáticos foi responsável por quase quatro meses de chuvas ininterruptas em Blumenau e na região do Vale do Itajaí. Ao contrário das enchentes que inundaram a cidade em 1983 e 1984, o grande problema desta vez não foi o alagamento das ruas. Como a água não deu trégua, o solo nos morros e nas encostas, já totalmente encharcado, não teve tempo suficiente para secar. Essa situação favoreceu a ocorrência dos deslizamentos de terra, que atingiram principalmente os bairros Garcia, Progresso, Velha e Valparaíso.

O geólogo Juarês José Aumond, mestre em Geografia e professor da Universidade Regional de Blumenau (Furb), credita esse tipo de ocorrência a uma combinação desastrosa entre a morfologia da paisagem e a ocupação irregular nos morros e em áreas mais íngremes. De acordo com o especialista, a formação geológica da região é composta por rochas sedimentares antigas. Veja aqui mais detalhes Em profundo estado de alteração, esse tipo de solo acaba se comportando como uma esponja, absorvendo a água das chuvas. Em excesso, a água destrói as propriedades que garantem a sua resistência. Como não houve sol e calor suficiente durante o período para evaporar todo esse líquido, a terra ficou pesada e movediça, o que levou os morros a se desmancharem.

Casa no bairro Progresso

Apesar de confirmar que as condições naturais do solo, já bastante desgastado, não eram boas, Aumond atribui à ocupação desordenada do homem no meio ambiente a maior parcela de culpa da tragédia. “Pode-se dizer que 80% de tudo o que aconteceu é de responsabilidade da atividade humana. Os deslizamentos iriam ocorrer de qualquer maneira, porque se trata de um fenômeno natural. As consequências poderiam ter sido mínimas, mas as ações inconsequentes do homem contribuíram para agravar a situação. O solo dos morros já estava podre. A tragédia estava anunciada há tempo e a chuva só deu o empurrão final”, explica.

Entre as principais ações realizadas pelo homem que favorecem a ocorrência de deslizamentos estão os aterros mal adensados, os cortes em encostas muito inclinadas e os cortes abruptos. O vazamento da rede de abastecimento de água, a fossa sanitária e a remoção indiscriminada da vegetação e de cultivos impróprios também contribuem para acelerar o processo. Preservar a cobertura natural das encostas e dos morros protege o solo da erosão provocada pelas chuvas, o que impede inundações rápidas. Isso é importante porque, no Vale do Itajaí, o manto de intemperismo – capeamento natural das rochas – é profundo, pouco resistente e com vários planos de possíveis rupturas.

Aumond ressalta que as ações preventivas e corretivas para deslizamentos e estabilização de encostas incluem evitar cortes na base de escorregamentos, retaludamento – técnica de combate à erosão que retarda o deslizamento ou movimento de terra – do topo para a base, drenagem e respeito ao Código Ambiental. Tudo, no entanto, inicia pela correta ocupação urbana e industrial. Neste caso, ele sugere que o Plano Diretor de Blumenau seja revisto. O prefeito João Paulo Kleinübing já apresentou à Câmara de Vereadores propostas para reformular o documento. Entre as mudanças, destaque para a restrição de construção ou ocupação em áreas abaixo das cotas de enchente de 12 metros, para uso residencial, e de dez metros para outras ocupações.

Ocupação em morros é herança histórica

 

Não é de hoje que a população de Blumenau levanta suas casas em áreas consideradas de risco. Essa “tradição” é histórica e acontece desde a fundação do município. Os primeiros a migrarem para os morros foram os colonizadores. Atingidos por grandes enchentes, eles precisavam procurar por lugares mais altos para se protegerem de novos desastres. Na época, a urgência nas mudanças não levava em consideração um planejamento organizado. O desmatamento, entretanto, ocorria em proporções bem menores do que atualmente.

Com o passar do tempo, a concentração urbana foi crescendo e o fator econômico também começou a pesar. Sem condições de viver no centro da cidade, a população de baixa renda, com poucas alternativas, foi se instalar em áreas mais altas, ocupando regiões de floresta e áreas de preservação. As enchentes de 1983 e 1984 também incentivaram o processo, já que, embora estivessem em áreas planas de várzea, de fundos de vale – considerados mais apropriados para a ocupação –, várias edificações não estavam livres das inundações.

A criação de loteamentos clandestinos e os desmembramentos irregulares de terra nos morros e encostas criaram condições propícias para a ocorrência de desastres. O lixo acumulado nesses locais, por exemplo, fica saturado de água. Isso aumenta o seu peso e provoca seu escorregamento, o que pode comprometer a superfície de terrenos planos. Além disso, a remoção da cobertura vegetal natural, feita para dar espaço às moradias, faz com que o impacto da água da chuva cause deslocamentos superficiais no solo, facilitando deslizamentos de terra.

Confira aqui o slideshow com síntese da tragédia de 2008.

Saiba mais sobre a cobertura da enchente aqui e aqui

Confira o vídeo sobre as enchentes:

Construções sustentáveis: comprometimento com o futuro

Larissa Luise Tietjen

Larissa Guerra

Ruana Souza

Torre de Capra

A palavra anda na moda, mas raros são os que têm efetivamente usado como deve: sustentabilidade. Longe de ser apenas uma preocupação ideológica, a sustentabilidade envolve toda uma mudança de hábitos do homem. O setor de construção, que gera mais impacto no meio ambiente que qualquer outra forma de consumo humano, começa a abrir os olhos para essa realidade. E quer que ela venha para ficar.

Cerca de 40 a 75% do que é usado em uma obra, por exemplo, provém de recursos naturais. Encontrar alternativas que aliem viabilidade financeira, garantam o conforto necessário ao homem e não agridam o meio ambiente é o desafio que arquitetos e engenheiros têm encarado desde o começo da década, quando surgiram, nos Estados Unidos e na Europa os primeiros Green Building, ou Edifícios Verdes. Em uma edificação que segue as ideias dos Green Building (veja vídeo abaixo), são aplicadas medidas que procuram aumentar a eficiência dos recursos a fim de promover a redução de impacto ambiental, e devem abranger toda a vida útil do prédio, que dura cerca de 50 anos.

O primeiro edifício que segue a ideia de Green Building em Santa Catarina começou a ser construído no início deste ano na cidade de Balneário Camboriú. A construtora responsável pelo projeto quer inovar o mercado da cidade, mostrando que é possível construir prédios de alto padrão com alternativas sustentáveis.

Para o engenheiro proprietário da construtora, Mário Luiz Rambo, a sustentabilidade começa na planta da obra. “Fazer modificações em uma construção já existente é muito difícil. O ideal é que o planejamento seja elaborado a partir da cultura da sustentabilidade.” Os cuidados começam com pequenas mudanças, como lavar os pneus dos caminhãos que colhem resíduos da construção até a diminuição da poluição sonora que é produzida enquanto os andares do prédio estão sendo erguidos.

Para uma obra ser sustentável, é preciso que o planejamento esteja voltado para atender três principais frentes: a ambiental, a social e a econômica. Para Lisiane Ilha Bertolotto, engenheira civil doutora em Engenharia de Produção e professora dos cursos de Design Industrial e Arquitetura da Univali, “os profissionais que atuam em projetos devem estar conscientes da necessidade e do caráter multidisciplinar da sustentabilidade”.

O IDHEA – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica – cita que para uma construção ser sustentável, ela precisa atender a nove requisitos básicos. Entre os nove, estão itens que vão desde estudos com o impacto ambiental do local onde a obra será feita, à gestão de recursos hídricos e energéticos e até mesmo com a poluição sonora que é produzida durante a obra.

A sustentabilidade é uma cultura ainda recente para a sociedade. “Ser sustentável é ter comprometimento com o futuro. Algo que é muito complicado de se fazer na nossa sociedade”, salienta Mário.  Lisiane acredita que ainda mais difícil é implantar práticas sustentáveis em locais turísticos, como Balneário Camboriú, “a construção civil possui um caráter fortemente especulativo, que entrava os avanços na área. Acredito que neste caso, a mudança ocorra de forma mais lenta”.

Lisiane reconhece que a sustentabilidade ainda está relegada a um segundo plano entre engenheiros e arquitetos. “por simples desconhecimento ou resistência cultural.” Nas universidades, a sustentabilidade é ainda um tema pouco abordado. Para a professora, “deve-se considerar não só sua inserção direta na forma de uma disciplina, por exemplo, mas como o conteúdo que permeia as matérias tradicionais de projeto, estruturas, materiais e tecnologia”.

Alternativas sustentáveis: caro no começo, barato no final

O edifício que a construtora de Rambo está fazendo é ainda voltado a um pequeno grupo, restrito a quem está disposto a desembolsar entre R$500 mil e R$ 600 mil. Parece caro, mas este é o valor de mercado de apartamentos do padrão do “Pioneiros do Atlântico” custam em Balneário Camboriú.

Longe de pensar apenas na qualidade de vida dos moradores dos seus prédios, Rambo demonstra vontade de conscientizar outros engenheiros, arquitetos, moradores e até mesmo junto à prefeitura. “Sustentabilidade é uma união de esforços”.

O “Pioneiros do Atlântico” possuirá um telhado verde, que atua na redução do desempenho térmico da construção. “Quando você olha um prédio de cima, você pode ver que é tudo escuro. A absorção de calor acaba sendo muito maior, e em longo prazo, põe em risco a própria estrutura do lugar. O telhado verde equilibra a temperatura da construção e ainda serve de pouso para animais”.

Mário utiliza também nos prédios sistemas de reaproveitamento de água pluvial e de separação do que é utilizada nas pias dos apartamentos. Um litro de óleo jogado na pia polui 100 mil litros de água. A estudante de Administração Paula Essig de Arruda, que conclui um TCC sobre o tema, diz que a construção civil está mais aberta para o reaproveitamento da água. “já existem projetos que reaproveitam a água utilizada na máquina de lavar roupas para a descarga do banheiro, por exemplo.”

Enquanto a aceitação desta alternativa é crescente (porém tímida) entre engenheiros e arquitetos, empresários da região evitam a implantação de projetos nessa área. Paula diz que o custo alto do tratamento da água é o maior problema. “Mesmo que for usar a água da chuva para a descarga ela deve ser tratada.” A professora Lisiane acrescenta ainda que “as tecnologias devem ser economicamente viáveis, sem desconsiderar seus efeitos para o usuário a curto e longo prazo. Nisto devem estar incluídas a manutenção, o desempenho na vida útil, o custo total (inicial da construção e ao longo da vida útil) o domínio da tecnologia, entre outros.”

Sustentabilidade: O que você pode fazer?

Quando o assunto em pauta é sustentabilidade, três apontamentos que sobressaem na fala dos especialistas são: a necessidade de redução dos gastos de energia, o melhor uso da iluminação dos ambientes e utilização racional da água. As recomendações podem facilmente fazer parte da rotina das casas e escritórios em qualquer cidade, já que para isso basta que o indivíduo adote atitudes para o melhor aproveitamento dos recursos da arquitetura e da natureza local.

O termo ‘arquitetura sustentável’ muitas vezes dá a impressão de que se trata de um projeto anterior à construção dos imóveis, e que obrigatoriamente é assinado por arquitetos ou engenheiros. Contudo, a maior porcentagem das construções — desde as vilas até grandes metrópoles — são conhecidas como parte da ‘arquitetura vernacular’: aquela entendida como comum, anônima, construída sem interferência destes profissionais. Estas construções constituem a fisionomia das cidades, refletem a época e ambiente onde foram formadas. Por isso, uma cidade nunca é igual à outra.

É também por este hibridismo entre sociedade e arquitetura que se destaca a importância da população enxergar seu papel como agente responsável pela preservação do ambiente. Hoje se dispõe de material à venda nas lojas para adaptação das construções aos moldes da sustentabilidade, que não implicam grandes gastos ou mudanças bruscas de hábito e resultam em economia no orçamento final de qualquer família. Entre pequenas ações e grandes reformas, aos poucos o cenário arquitetônico ganha ares de tecnologia e preocupação com o planeta.

A arquiteta catarinense Samara Zukoski dá uma opção: para aqueles que possuem casa com telhas sem a estrutura do assoalho, é possível usar telhas transparentes, que aproveitam a luz natural do dia e da noite. “As telhas transparentes de vidros ou as translúcidas são opções de investimento um pouco maior, para um tipo específico de casa, mas diminui o uso de energia elétrica consideravelmente”, garante.

Um exemplo bastante simples é a troca das lâmpadas amarelas pelas fluorescentes, que consomem em média 80% menos energia, duram mais e iluminam melhor os locais. E para isso, o consumidor não precisa mais do que ir até uma loja de utensílios para a casa adquirir as lâmpadas para os cômodos onde se costuma ficar mais tempo com a luz acesa.

Ainda há um longo caminho a percorrer antes que a sustentabilidade torne-se algo que faça parte do cotidiano do homem. A necessidade de salvar o ambiente é urgente, como enfatiza a professora Lisiane: “É uma questão de sobrevivência. Tem de ser. Ponto Final”.

Leia mais sobre isso:

http://sustentabilidade.bancoreal.com.br/sustentabilidadenobancoreal/produtoseservicos/Documents/guia_const_civil.pdf

http://www.unb.br/fau/disciplinas/SC1/SC1-Textos/012 Arquiteturaesustentabilidade.pdf

Veja aqui a planta do Edifício Pioneiros

Para onde vai tudo isso?

Roberson Pinheiro da Silva

Kunimund Kronke Junior


Resíduos de construção

A capital do turismo catarinense abriga os mais modernos e valiosos empreendimentos imobiliários do Estado. Estima-se que existem mais de 1035 edifícios em Balneário Camboriú conforme dados do Portal Camboriú – Edifícios. É certo que esses investimentos contribuem para a redução do desemprego, valorizam a mão de obra no município e movimentam a economia local, porém gera um problema poucas vezes observado: o resíduo.

O resíduo da construção civil é produzido em larga escala enquanto se constrói um edifício. Segundo a engenheira ambiental Rafaela Picoletto, 25 anos, cada cinco prédios construídos gera resíduos que equivalem ao material de uma nova construção, tamanho é o desperdício e/ou não reutilização de alguns produtos.

Em torno disso, surgem perguntas do tipo: para onde vai todo esse lixo? Existe controle desse material? Como diminuir a quantidade de resíduos? Em resposta a alguns desses dilemas, a prefeitura de Balneário Camboriú implantou o plano de gerenciamento de resíduos, (confira aqui na íntegra) sendo a segunda cidade no Estado a ter um sistema com o objetivo de disciplinar o transporte e o destino dos rejeitos conforme orientação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA).

Porém, esse decreto, por si só, não assegura o devido cuidado com o lixo das construções. A partir dele é necessária a criação de um projeto que vai descrever como será feito a seleção dos materiais, o processo de trituração e onde serão reutilizadas as sobras. Nessas situações é que as consultorias em sustentabilidade ambiental trabalham. Mas, elas ainda não são muitas no Estado. “As empresas não se conscientizaram da importância do gerenciamento dos resíduos e o quanto elas poderiam economizar em materiais”, justifica Picoletto.

A economia a partir do gerenciamento sustentável acontece quando dentro da obra são reutilizados os materiais fracionados, principalmente os de classe A (tijolos, cerâmica, concreto e argamassa), dispensando a aquisição de novos. Para isso, os resíduos são triturados, através de uma máquina especifica, e reutilizados junto com cimento pra assentar tijolos, fazer aterramentos, entre outros. As restrições no uso desses materiais recondicionados é em acabamentos ou como bases estruturais, pois são de qualidade inferior.

Na contramão desse processo sustentável estão as construtoras que apresentam empecilhos na implementação desse tipo de projeto. “Só uma máquina de trituração custa na faixa de 90 mil reais, o que não é atrativo para uma construtora de pequeno ou médio porte adquirir”, argumenta o engenheiro civil, Estacio Pereira. E não só isso, geralmente os municípios não possuem infra-estrutura adequada para armazenar os rejeitos, encarecendo os procedimentos de cuidado com o lixo.

Sem local apropriado para a separação e depósito dos rejeitos, a poluição do meio ambiente é certa. Além disso, tem o lixo orgânico que geralmente é colocado junto com as sobras da construção civil. Deste modo, o chorume, líquido que sai do lixo, pode contaminar o lençol freático e outros cursos d’água. A tinta e o gesso também podem afetar o solo, já que são compostos de substâncias altamente tóxicas.

Existem dois aterros industriais em Itajaí (SC), cidade próxima a Balneário Camboriú, para onde estes resíduos podem ser levados, mas a solução mais viável seria a instalação de uma usina especializada no tratamento destes e que propiciaria a reciclagem. Camboriú, outra cidade da região, chegou até a iniciar a obra de uma indústria especializada, porém a obra foi embargada pela Polícia Ambiental em 2008, por estar sendo construída em área de preservação permanente.

Enquanto não se tem medidas mais eficazes, vale a lei do bom senso e da conscientização, ou seja, as empresas que estiverem dispostas a implementar projetos de sustentabilidade tendem a contribuir para a preservação do meio-ambiente e ainda, de sobra, ganham status com o marketing verde.

Adaptar-se ainda é caro

Alguns hotéis de Balneário Camboriú ainda resistem à adoção de medidas sustentáveis. Segundo a analista ambiental Laiza Possebon, os proprietários julgam que os investimentos na instalação de sensores de segurança e de torneiras automáticas – usados para economizar energia elétrica e água, respectivamente, “não valem a pena”. Sensores automáticos custam em média R$ 25,00 cada um, enquanto o valor de um modelo simples de torneira automática fica em R$ 100,00 por unidade. Para a analista, “ações simples, como a colocação de cartazes e informativos para conscientizar os hóspedes podem ser bastante eficazes”.

Clique aqui para saber mais sobre torneiras automáticas

Já a instalação de sistemas para reciclar a água usada no banheiro e na pia da cozinha, por exemplo, envolvem custos ainda maiores, sendo indicados apenas em escala industrial. De acordo com o engenheiro civil Celso Zimmermann, a instalação de uma mini-estação de tratamento com tanque, filtro e bomba, totalizando um investimento de aproximadamente R$ 20 mil. “Acontece bastante de as empresas aproveitarem a estrutura de tratamento de resíduos químicos do processo industrial e incluir os biológicos”, completa o engenheiro. Segundo Rafaela Picoletto, mesmo separada do resíduo industrial, a água que sai desse sistema e da coleta de água da chuva através de cisternas não é potável.

Apesar dos pontos negativos, a adoção de medidas sustentáveis pode ser também uma estratégia de marketing. Os hotéis são submetidos a uma avaliação e depois recebem um certificado de qualidade, semelhante ao padrão ISO. Alguns órgãos públicos geralmente costumam usar este tipo de certificado para impulsionar o turismo de determinadas regiões.

Outras informações

Dicas para desenvolvimento sustentável

Galeria de imagens dos prédios mais altos de Balneário Camboriú

Lixo tecnológico: quem é o dono?

Ana Maria Leal da Veiga

Luiza Helena da Veiga Bueno Barauna

Celulares, computadores, notebooks, ipods…A evolução tecnológica faz com que sejam produzidos aparelhos cada vez mais modernos e atrativos. Se há um tempo seus pais não precisavam de um celular para nada, hoje em dia você não vive sem um. O celular tornou-se algo indispensável: bate fotos, filma, tem GPS, envia mensagens de texto, e, é claro, também faz ligação.

Se há 20 anos ele era dispensável, depois que tornou-se equipamento obrigatório na vida dos brasileiros, expandiu-se de forma muita rápida entre a população. Segundo a Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações, em junho de 2009 havia 159,6 milhões de celulares no Brasil, ou seja, a cada grupo de 10 pessoas, oito tem um telefone móvel. Bom, não é? Não se pensarmos pelo lado ecológico.

Desde a popularização do celular, muitos aparelhos já foram descartados. Com a mesma velocidade em que cresce o número de adeptos à telefonia móvel também aumenta o número de modelos. Com isso, os celulares vão ganhando um design mais arrojado e novas funções. Como a procura e a concorrência são muito grandes, eles chegam ao mercado com um preço acessível. Isso faz com que muitas pessoas aposentem seus celulares “obsoletos” e troquem por um novo, contribuindo assim, para a formação do chamado lixo tecnológico.

Segundo a Nokia, apenas 2% dos brasileiros destinam seus celulares velhos para a reciclagem.

“Eu sempre fico de olho nas novidades. Amo tecnologia e quando vejo um celular que me agrada e que posso comprar, não penso duas vezes”, declara Marcelo Ribeiro, 26 anos, que ainda afirma que desde a época dos “tijolões” já teve 10 celulares.

O grande problema disso tudo é o destino final dado aos aparelhos que não tem mais serventia, que muitas vezes acabam no lixo comum. “Olha, eu nem sei onde ‘tão’ todos esses celulares, uns ‘tão’ na gaveta do meu quarto, outros joguei fora. Ah, e teve um que eu vendi”, lembra o estudante de Sistema da Informação.

Assim como Marcelo, muitas pessoas não lembram ou jogaram no lixo comum os equipamentos velhos. Essa atitude é extremamente prejudicial ao meio ambiente. Os celulares e as baterias são feitos com componentes eletrônicos altamente poluentes e que se entrarem em contato com a natureza causam um grande dano ambiental, conforme explica o professor de Ciência da Computação da Univali – Universidade do Vale do Itajaí, Luís Martins:

“Normalmente nesses equipamentos eletro-eletrônicos existem metais pesados, como o chumbo, mercúrio, lítio, cádmio. Esses produtos em contato com o solo infiltram e contaminam o lençol freático. O que traz um grande prejuízo ambiental”.

Mas não são só os celulares que contribuem para a formação do lixo tecnológico. Os computadores e todos os outros eletro-eletrônicos, pilhas e baterias também são poluentes e responsáveis por esse problema ambiental.

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Confira dicas da melhor maneira de descartar seus aparelhos seu uso:

Confira aqui ideias criativas para reaproveitar os equipamentos.

 

Os perigos do lixo tecnológico

Quando jogados no lixo comum, há grandes possibilidades de que os componentes tóxicos do lixo tecnológico penetrem no solo e entrem em contato com os lençóis freáticos. Substâncias como mercúrio, cádmio, chumbo e outros elementos tóxicos, que são encontrados nos componentes destes aparelhos, contaminam plantas e animais por meio da água, sendo possível que a ingestão dos alimentos contaminados intoxique também os humanos. “Essas substâncias podem provocar dores de cabeça, vômito e até serem as causadoras de câncer e problemas no sistema nervoso”, garante o clínico geral, Rubens Caetano Cherobim.

Se todos jogarem fora estes lixos sem cuidado algum e no lixo doméstico, danos irreversíveis à natureza e consequentemente ao seres humanos. O prejuízo ambiental causado pelo lixo eletrônico é imenso. É preciso um controle dessa contaminação para diminuir os impactos ambientais no futuro.

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Como a evolução tecnológica é muito rápida, a sucata eletrônica se forma em períodos cada vez mais curtos, e cada vez em maior quantidade.

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Não é só o meio ambiente, nós também sofremos com o lixo tecnológico.

Quando descartado de maneira incorreta, o lixo tecnológico libera substâncias químicas, que ao entrar em contato com os seres humanos causa diversos problemas à saúde.

● Um computador tem cerca de dois quilos de chumbo e se entrar em contado com o ser humano, pode causar danos ao sistema nervoso e sangüíneo. Além disso, os PCs têm mercúrio, que pode afetar o cérebro e o cádmio que pode causar envenenamento.

● O celular traz além do chumbo, o arsênico, uma substância que pode afetar o sistema digestivo e causar doenças nos pulmões, coração e fígado.

● Já a televisão tem mercúrio e mais quantidade de chumbo: quase oito quilos.

A transformação de lixo em solução

 

As máquinas caça-níqueis viram computadores para escolas públicas

 

 Mas, o que é um problema, pode se tornar uma solução. Há alguns projetos que transformam o lixo tecnológico em beneficio para a sociedade. Um exemplo disso é o Projeto Lótus, dos cursos de Ciência da Computação e Sistemas para Internet da Univali – Universidade do Vale do Itajaí. O projeto transforma máquinas caça-níqueis em computadores para escolas públicas.

Os cursos mantêm uma parceria com o Ministério Público e a Polícia Militar de Balneário Camboriú e quando são apreendidas esse tipo de máquina a polícia encaminha para Univali. Na Universidade as máquinas são reaproveitadas e, o que antes era usado de forma ilícita, ganha uma função bem mais nobre: servir de instrumento de ensino para crianças de escolas públicas. “As máquinas chegam da mesma forma como foram apreendidas. Aqui nós formatamos, tiramos o software do jogo e instalamos 80 programas de atividades educativas”, explica o coordenador do projeto Fabrício Bortoluzzi.

Depois de prontas, os computadores são encaminhados à Secretaria de Educação de Balneário Camboriú, que escolhe quais escolas vão receber o material. Em agosto desse ano, o Ciep – Centro Integrado de Educação Pública Rodesindo Pavan, foi a instituição beneficiada. “Antes nós tínhamos um laboratório sucateado que nem permitia o acesso dos alunos, agora nossa sala é toda equipada com os aparelhos que recebemos da Univali”, lembra a diretora da escola Ana Lúcia Fagundes Ternes.

O Ciep fica em Balneário Camboriú e recebeu 20 computadores transformados pelo Projeto Lótus. Agora, esses equipamentos permitem que os alunos tenham acesso à tecnologia e possam aprimorar os conhecidos aprendidos em sala de aula. “Nós também aproveitamos os computadores para auxiliar no ensino das crianças. Elas ficam entretidas com a internet e prestam mais atenção no professor”, destaca a diretora.

Pedro Henrique Mázera é um dos 298 alunos do Ciep. O primeiro contato que ele teve com um computador foi na escola. O garoto de 10 anos diz que o seu sonho é trabalhar com informática e fica eufórico na hora da aula de computação. “Eu acho muito legal brincar no computador. É bom quando a aula é aqui no laboratório, eu aproveito muito, por que na minha casa não tem computador”.

Além de beneficiar crianças como Pedro, a atitude do projeto Lótus vai bem mais além. Evita que quilos e quilos de lixo tecnológico sejam descartadas no meio ambiente. E o melhor de tudo: de uma forma econômica e viável. De acordo com o professor Fabiano Bortoluzzi, o custo para fazer isso não é muito alto, varia de 80 a 100 reais. Fabiano diz ainda que essa é “uma solução muito inteligente. Afinal, os caça-níqueis apreendidos pela polícia, antes ficavam no pátio da delegacia, ocupando lugar e poluindo o meio ambiente, agora serve como ferramenta de ensino.”

Segundo o Major da PM de Balneário Camboriú, Elder Martins, é crescente o número de apreensão de jogos de azar na região e a polícia não tem lugar onde armazenar tanto equipamento. “Esse projeto também acaba sendo interessante para nós, até enviarmos para Univali, as máquinas ficam no pátio da Delegacia, no lugar destinado aos carros apreendidos”.

Enquanto esperam ser liberadas para a Univali, as máquinas ficam no pátio da Delegacia, expostas ao tempo e muitas acabam estragando. Além disso, elas liberam substâncias altamente poluentes, que contaminam o lençol freático. Para Fabrício o Lótus tem condições de reaproveitar cada vez mais máquinas, só depende da liberação do Ministério Público. O material que não dá pra ser reaproveitado, a Univali doa para uma empresa de Florianópolis, que dá um destino adequado. Em troca desse serviço a universidade ganha um certificado de conformidade ambiental.

Veja outras maneiras de reaproveitar o lixo tecnológico:

 

 

Criança chinesa brincando no meio de toneladas de lixo tecnológico

Pesquisa inovadora revela novo método para produzir bioetanol

Ana Paula de Sousa

Janaina Salsi

Aquecimento global, CO2, petróleo, bioetanol. Quase todos os dias é possível ouvir ou ler uma dessas expressões em meios de comunicação pelo Brasil afora. São termos presentes na realidade da população brasileira, no entanto, apenas uma pequena parcela sabe realmente qual a ligação que existe entre eles.

O Departamento Estadual de Trânsito de Santa Catarina (Dentran/SC) calcula que em setembro de 2009, 3.106.241 veículos de todos os portes trafegaram pelas estradas do Estado. Diante deste número, é impossível calcular a quantidade de CO2 emitida a partir da queima de combustível. Acesse a tabela completa aqui.

O Dióxido de Carbono ou Gás Carbônico, como é conhecido o CO2, em excesso, torna-se um vilão para a saúde humana e ambiental. O CO2 absorve radiação infravermelha e a transforma em calor. Isso provoca o aquecimento da atmosfera, que pode ainda gerar mudanças climáticas drásticas, como o aumento das tempestades e derretimento das geleiras, além de inundar diversas áreas habitadas e extinguir várias espécies animais. Para o biólogo e educador ambiental de Blumenau, José Constatino Sommer, não há a menor dúvida da ligação que existe entre a emissão de CO2 e o efeito estufa. “Basta ver que os países Europeus, que foram os primeiros signatários do tratado de Kyoto, são unânimes ao afirmar que o automóvel é a grande dificuldade para poder cumprir com as metas estabelecidas”.

Ouça a entrevista completa com José Constantino Sommer

Hoje, o combustível mais usado em todo o país é a gasolina. O líquido é inflamável e obtido a partir da destilação do petróleo e, quando queimado por combustão em veículos, libera no ar CO2. O petróleo é uma fonte de energia não renovável, de origem fóssil, que também pode gerar diversas consequências para o meio, como o derramamento de óleo em oceanos e impactos durante a extração no subsolo terrestre.

O que muita gente ainda não sabe é que vários estudos estão sendo realizados para contribuir com a diminuição dos impactos gerados pelos combustíveis fósseis. Muitos carros, em todo o Brasil, já podem utilizar o etanol, conhecido como álcool, como combustível alternativo. Esse líquido é menos inflamável e tóxico, pois libera uma quantidade menor de CO2 no ar em comparação à gasolina.

Janaina Salsi

O bioetanol é usado como aditivo de gasolina e colabora para amenizar os efeitos da queima de CO2

O etanol é uma substância orgânica e renovável obtida por meio da fermentação de amido e outros açúcares, como a sacarose encontrada na cana-de-açúcar. O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de etanol. Aqui, o combustível é produzido a partir da cana-de-açúcar. Em outros países, o etanol é feito do milho (Estados Unidos e Canadá), trigo (Canadá), mandioca (China), melaço (Índia), óleo de palma (Colômbia) e beterraba (União Européia).

Em entrevista à Revista Veja, edição n° 2052, de 19 de março de 2008, o engenheiro mecânico e doutor pela Universidade Estadual de Campinas, Luiz Augusto Horta Nogueira, afirmou que “todo gás carbônico emitido pelos veículos movidos a álcool é reabsorvido pelas plantações de cana-de-açúcar. Isso faz com que as emissões do gás sejam reduzidas. Além disso, a grande diferença em relação ao petróleo é que o etanol usa o gás carbônico retirado da atmosfera pelas plantas. O petróleo joga na atmosfera o gás carbônico armazenado no solo e não o reabsorve”.

Na mesma entrevista, concedida à Revista Veja, o engenheiro destacou que “dos 19 milhões de automóveis (que circulam pelo Brasil), cerca de 13,6 milhões são movidos a gasolina. Há 200.000 carros movidos a álcool. Outros 5,2 milhões são flex. No ano passado, 85% dos veículos novos saíram de fábrica com motor flex. A continuar assim, em 2015, quando a frota brasileira de automóveis estiver em 30 milhões de unidades, 19 milhões serão bicombustíveis”.

No Brasil, além dos estudos sobre etanol, existem ainda pesquisas recentes em torno do bioetanol, chamado também de combustível “verde”. Atualmente, este combustível é fabricado em uma segunda geração. Assim, primeiro se obtém o etanol a partir da cana-de-açúcar. Em seguida, com os resíduos que sobraram da planta, é possível ainda produzir o bioetanol. Ou seja, ele é adquirido a partir do bagaço de cana.

Bioetanol é obtido a partir de resíduos de algodão

Ana Paula de Sousa

Larissa da Silva é responsável pela pesquisa sobre a produção de bioetanol a partir de resíduos de algodão

Em Blumenau, uma nova pesquisa foi realizada para produzir bioetanol a partir da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. A cidade é conhecida como pólo têxtil no sul do país e, por isso, as empresas blumenauenses utilizam uma grande quantidade de algodão. O estudo foi feito pela graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, e propõe usar material residual com baixo valor agregado para produzir bioetanol.

“Hoje as indústrias de Blumenau têm grandes problemas em relação ao armazenamento desses resíduos. O material é utilizado como ração de gado ou ainda, para queima em caldeiras. A ideia é fazer com que os restos tenham um fim mais sustentável e lucrativo”.

Confira mais sobre a entrevista com Larissa da Silva

Para quem não sabe, estes resíduos de algodão são a parte bruta da matéria-prima, que sobra do processo de beneficiamento têxtil. “Quando a fibra de algodão chega à indústria, ela sofre um processo de limpeza e fiação. Depois, passa por dutos que as filtram. No final, sobram as fibras muito curtas, que não são adequadas para a fabricação de tecido de primeira qualidade, além de possíveis impurezas e cascas provenientes da coleta do algodão. Este material é o resíduo que usamos na produção de bioetanol”.

A hidrólise é uma reação química, estimulada por uma enzima, e significa a quebra de uma molécula em duas ou mais moléculas. Assim, no caso da pesquisa, foi realizada a hidrólise da cadeia celulósica em unidades individuais de glicose, que são encontradas nos resíduos de algodão da indústria têxtil. “Ou seja, o objetivo do trabalho é produzir açúcar, que será fermentado para que seja fabricado o bioetanol”.

Larissa da Silva

Durante o processo de hidrólise, onde há a transformação dos resíduos de algodão em açúcar

Larissa ainda explica que por ser uma energia renovável, o bioetanol não polui tanto o ambiente quanto a gasolina. Com a produção deste combustível, fecha-se o ciclo e o CO2 é reabsorvido pelas plantações de algodão ou mesmo de cana-de-açúcar. O bioetanol pode ser usado como aditivo de gasolina, pois não é possível utilizá-lo como único combustível. “Isso porque não há plantação suficiente para suprir essa necessidade. Então, usar o bioetanol como aditivo contribui para diminuir a dependência de combustíveis fósseis”.  Tenha mais informações acessando o artigo Bioetanol de cana-de-açúcar – Energia para o desenvolvimento sustentável.

Há, certamente, muito estudo a fazer e desafios a superar em torno do assunto. Mas, do ponto de vista ambiental, não há o que questionar. Para o biólogo Sommer a pesquisa é favorável. “Essa alternativa é de fato interessante, já que Blumenau é uma cidade com vocação têxtil. Aproveitar o resíduo para a produção de açúcar seria uma solução vantajosa, porque daria uma destinação mais adequada e, principalmente, acabaria participando do fechamento do ciclo”. Confira o infográfico:

Infográfico - Ciclo Bioetanol

Bioetanol é novidade e as vantagens ainda são pouco conhecidas

Arquivo pessoal

Alessandro Salvador costuma abastecer com biocombustível

Alessandro Salvador, 31 anos, é mais um entre os catarinenses que utilizam o carro para qualquer atividade que realiza. Ele é coordenador de projetos industriais e vai e volta todos os dias do trabalho, além de ir ao supermercado, encontrar com os amigos e visitar diariamente a namorada, que mora em Timbó, cidade localizada a 30 km de Blumenau, onde Salvador reside. Nesses trechos, ele costuma abastecer o carro com álcool. Quando viaja, opta pela gasolina, que, em sua opinião, aumenta o rendimento do carro. Calcule aqui a quantidade de CO2 que você gera ao abastecer seu carro com biocombustível.

O profissional simplifica o conceito de bioetanol: “é álcool feito de vegetais”, e não faz ideia do que há por trás do simples ato de abastecer.  Hoje, no Brasil, o bioetanol é produzido a partir do bagaço da cana-de-açúcar, porém, em Blumenau, a graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, já realizou pesquisas para a fabricação de bioetanol por meio da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. “Entendo pouco sobre o assunto, mas sei que o uso do carro contribui bastante para o aumento do efeito estufa”, confessa Salvador.

Janaina Salsi

O uso do carro, em excesso, contribui para o aumento do efeito estufa

O professor do curso de Biologia da Furb e membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente, Lauro Bacca, tem uma visão enfática sobre o assunto. “Sem dúvida, a queima de combustíveis fósseis pelos automóveis é o principal agravante do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global”. O biólogo desconhece as pesquisas realizadas sobre o bioetanol em Blumenau. “Todo tipo de pesquisa que envolve a tentativa de conter a poluição ao ambiente representa um passo a mais na caminhada. A pesquisa é muito positiva se considerarmos que moramos em um pólo têxtil e fechar o ciclo do CO2 é o grande atenuante”.

Bacca ainda alerta que quando se fala em sustentabilidade, é importante pensar nos três Rs: reduzir, reaproveitar e reciclar. Cada uma dessas ações representa a tentativa de diminuir os agravantes ao meio. “Mesmo que muito esteja sendo feito para reaproveitar e reciclar, o principal, que é reduzir, está sendo deixado de lado. É preciso conscientizar os cidadãos para a redução e uso equilibrado dos recursos que temos em nossas mãos”.

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