Combinação desastrosa

 

Alto volume de chuvas, desgaste do solo e ocupação irregular de áreas de risco são os responsáveis pela maior tragédia ambiental da história brasileira

Júlio Schumacher

Pedro Machado


A angústia tomava conta do jovem empresário Anderson Wehmuth, de 28 anos, na manhã chuvosa de domingo, 23 de novembro de 2008. Parte da Rua Amazonas, no bairro Garcia, já havia sido inundada. Alguns condomínios estavam ilhados. A Defesa Civil de Blumenau recomendava às famílias que estivessem fora das áreas de risco de enchentes e deslizamentos de terra que não deixassem suas casas. Anderson estava seguro, longe dali, mas aflito. Não conseguia parar de pensar nos estragos que a chuva poderia ter causado no escritório da sua empresa.

A água baixou e deu lugar à lama e à sujeira. Nas ruas da cidade, um cenário de guerra: casas destelhadas, árvores tombadas, postes derrubados, fiação elétrica exposta.

Buraco engole veículo

O escritório de Anderson, como ele já imaginara, não passou impune. Tudo que estava dentro dele foi comprometido. O prejuízo com as perdas e a danificação de equipamentos e computadores, calcula, chegou a R$ 15 mil. “A chuva só não levou o nosso know-how”, conta o empresário, que só conseguiu reabrir o negócio dois meses depois, em outro endereço – na Avenida Martin Luther, próximo da prefeitura.

Assim como Anderson, outras 103 mil pessoas – pouco mais de um terço da população de Blumenau – foram atingidas direta ou indiretamente pela maior tragédia geoambiental da história brasileira. Foram quatro meses de chuvas ininterruptas, que se intensificaram entre os dias 21 e 24 de novembro, e causaram alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra em praticamente todas as regiões da cidade. De acordo com informações da Prefeitura Municipal, cinco mil famílias, totalizando cerca de 25 mil pessoas, ficaram desabrigadas. Vinte e quatro morreram. Os prejuízos na infraestrutura urbana, com a destruição de pontes e edificações e a obstrução de ruas, foram estimados em R$ 700 milhões.

Asfalto rachado

Entre especialistas, há um consenso de que o grande volume de água que caiu durante o período foi o principal responsável pelos estragos causados. “Santa Catarina e a região Sul do país, em geral, já são áreas bem vulneráveis. Mas o que aconteceu foi algo totalmente anômalo. A precipitação ultrapassou os mil milímetros, quando o normal para o mês inteiro era de 200”, explica Gustavo Escobar, doutor em Meteorologia e coordenador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para se ter uma ideia, entre os dias 21 e 24 de novembro, época mais crítica do mês, choveu 500 milímetros, mais do que o dobro registrado na enchente que castigou a cidade em 1984.

Essa grande intensidade das chuvas foi resultado de um fenômeno natural, afirma o geógrafo e coordenador do laboratório de climatologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Sergey Alex de Araújo. Segundo o especialista, houve uma frente fria estacionária na região Sudeste, que acabou criando um bloqueio atmosférico no oceano Atlântico.Veja aqui mais detalhes sobre a Enchente de novembro de 2008 Esse bloqueio foi associado a um anticiclone, região onde o ar aquece e fica estável, anulando a formação de nuvens e precipitação. Por outro lado, ele também esteve ligado a um vórtice ciclônico – sistema de baixa pressão –, que provoca chuvas e ventos fortes. No caso, essa ação se manifestou na costa Leste do Paraná e de Santa Catarina. “Soma-se a isso a ocorrência do El Niño, que aquece a temperatura dos oceanos e acelera o processo de evaporação. Com os ventos fortes, toda essa umidade foi empurrada para a região do Vale do Itajaí”, esclarece o climatologista.

Solo já estava podre, diz especialista

 

A sequência de frentes frias e de fenômenos climáticos foi responsável por quase quatro meses de chuvas ininterruptas em Blumenau e na região do Vale do Itajaí. Ao contrário das enchentes que inundaram a cidade em 1983 e 1984, o grande problema desta vez não foi o alagamento das ruas. Como a água não deu trégua, o solo nos morros e nas encostas, já totalmente encharcado, não teve tempo suficiente para secar. Essa situação favoreceu a ocorrência dos deslizamentos de terra, que atingiram principalmente os bairros Garcia, Progresso, Velha e Valparaíso.

O geólogo Juarês José Aumond, mestre em Geografia e professor da Universidade Regional de Blumenau (Furb), credita esse tipo de ocorrência a uma combinação desastrosa entre a morfologia da paisagem e a ocupação irregular nos morros e em áreas mais íngremes. De acordo com o especialista, a formação geológica da região é composta por rochas sedimentares antigas. Veja aqui mais detalhes Em profundo estado de alteração, esse tipo de solo acaba se comportando como uma esponja, absorvendo a água das chuvas. Em excesso, a água destrói as propriedades que garantem a sua resistência. Como não houve sol e calor suficiente durante o período para evaporar todo esse líquido, a terra ficou pesada e movediça, o que levou os morros a se desmancharem.

Casa no bairro Progresso

Apesar de confirmar que as condições naturais do solo, já bastante desgastado, não eram boas, Aumond atribui à ocupação desordenada do homem no meio ambiente a maior parcela de culpa da tragédia. “Pode-se dizer que 80% de tudo o que aconteceu é de responsabilidade da atividade humana. Os deslizamentos iriam ocorrer de qualquer maneira, porque se trata de um fenômeno natural. As consequências poderiam ter sido mínimas, mas as ações inconsequentes do homem contribuíram para agravar a situação. O solo dos morros já estava podre. A tragédia estava anunciada há tempo e a chuva só deu o empurrão final”, explica.

Entre as principais ações realizadas pelo homem que favorecem a ocorrência de deslizamentos estão os aterros mal adensados, os cortes em encostas muito inclinadas e os cortes abruptos. O vazamento da rede de abastecimento de água, a fossa sanitária e a remoção indiscriminada da vegetação e de cultivos impróprios também contribuem para acelerar o processo. Preservar a cobertura natural das encostas e dos morros protege o solo da erosão provocada pelas chuvas, o que impede inundações rápidas. Isso é importante porque, no Vale do Itajaí, o manto de intemperismo – capeamento natural das rochas – é profundo, pouco resistente e com vários planos de possíveis rupturas.

Aumond ressalta que as ações preventivas e corretivas para deslizamentos e estabilização de encostas incluem evitar cortes na base de escorregamentos, retaludamento – técnica de combate à erosão que retarda o deslizamento ou movimento de terra – do topo para a base, drenagem e respeito ao Código Ambiental. Tudo, no entanto, inicia pela correta ocupação urbana e industrial. Neste caso, ele sugere que o Plano Diretor de Blumenau seja revisto. O prefeito João Paulo Kleinübing já apresentou à Câmara de Vereadores propostas para reformular o documento. Entre as mudanças, destaque para a restrição de construção ou ocupação em áreas abaixo das cotas de enchente de 12 metros, para uso residencial, e de dez metros para outras ocupações.

Ocupação em morros é herança histórica

 

Não é de hoje que a população de Blumenau levanta suas casas em áreas consideradas de risco. Essa “tradição” é histórica e acontece desde a fundação do município. Os primeiros a migrarem para os morros foram os colonizadores. Atingidos por grandes enchentes, eles precisavam procurar por lugares mais altos para se protegerem de novos desastres. Na época, a urgência nas mudanças não levava em consideração um planejamento organizado. O desmatamento, entretanto, ocorria em proporções bem menores do que atualmente.

Com o passar do tempo, a concentração urbana foi crescendo e o fator econômico também começou a pesar. Sem condições de viver no centro da cidade, a população de baixa renda, com poucas alternativas, foi se instalar em áreas mais altas, ocupando regiões de floresta e áreas de preservação. As enchentes de 1983 e 1984 também incentivaram o processo, já que, embora estivessem em áreas planas de várzea, de fundos de vale – considerados mais apropriados para a ocupação –, várias edificações não estavam livres das inundações.

A criação de loteamentos clandestinos e os desmembramentos irregulares de terra nos morros e encostas criaram condições propícias para a ocorrência de desastres. O lixo acumulado nesses locais, por exemplo, fica saturado de água. Isso aumenta o seu peso e provoca seu escorregamento, o que pode comprometer a superfície de terrenos planos. Além disso, a remoção da cobertura vegetal natural, feita para dar espaço às moradias, faz com que o impacto da água da chuva cause deslocamentos superficiais no solo, facilitando deslizamentos de terra.

Confira aqui o slideshow com síntese da tragédia de 2008.

Saiba mais sobre a cobertura da enchente aqui e aqui

Confira o vídeo sobre as enchentes:

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