O real peso do minério

A implantação de uma fosfateira gera dúvidas entre os moradores de Anitápolis/SC

Neuseli Bastos
Luís Costa

Anitápolis é uma bela e acolhedora cidade, colonizada por alemães, sendo que a maioria da população trabalha no campo. A agricultura é o principal setor da economia. O município está localizado na Grande Florianópolis, distante 101 quilômetros, pela BR 282, acesso após Santo Amaro da Imperatriz, próximo a Rancho Queimado. Tem uma rica vegetação e várias nascentes de perder o fôlego, formando rios que proporcionam a prática de canoagem e pescaria.

Veja fotos da cidade:

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Raquel Back, Dona Marina Heinz Hoinaski e Débora Brand Fortkamp, são moradoras da cidade. Elas têm em comum o amor por Anitápolis, mas não necessariamente as mesmas opiniões sobre possíveis investimentos no município.

Um assunto que tem influenciado as emoções da comunidade é a possível implantação de uma fosfateira na área rural da cidade. Se este fato, para alguns, é considerado bom por gerar empregos e renda, para outros causa dor de cabeça pelos possíveis danos ao ambiente.

O processo para extração do fosfato, lembra um pouco o método utilizado para retirada do carvão mineral. As jazidas de fosfato são denominadas “fosfateiras”. O fosfato é um minério utilizado para diversas finalidades, como na agricultura, abastecendo o mercado de fertilizantes.

Embora com opiniões diferentes, as moradoras, além da preocupação com a cidade sob prismas diferentes, têm em comum outro aspecto: escolher um determinado caminho diante da possibilidade de implantação da fosfateira. Essas situações costumam, mesmo que inconscientemente, ocasionar reflexos emocionais nas pessoas.

Para Raquel Back, integrante de uma família de agricultores que há várias gerações está no município, a ideia de instalar a jazida prejudica o meio ambiente em vários aspectos, como por exemplo, na qualidade do ar, desmatamento e abertura de cratera na área de exploração; poluição das águas, perda da qualidade de vida pela corrente migratória desproporcional a infra-estrutura da cidade.

Poluição das águas é uma das preocupações dos moradores com a instalação da fosfateira

Pensamento semelhante tem a estudante Débora Brand Fortkamp. “Quais os verdadeiros reflexos que a fosfateira pode ocasionar? Qual a segurança para as famílias que residem perto e para a cidade? Como será a construção da barragem?”. Estas duas perguntas são amostras das dúvidas e medos compartilhados por boa parte da população.

Já Dona Marina Heinz Hoinaski, comerciante, pensa de maneira diferente. Acredita que o empreendimento pode gerar emprego e renda para o município. Como a maioria das regiões do Brasil e do mundo, a cidade precisa diversificar os setores da economia, mas grandes mudanças podem gerar medo e insegurança.

Independente do posicionamento, o fator comum para a grande maioria dos moradores de Anitápolis é a preocupação com o futuro da cidade. Alguns temem por um município com fraca economia, outros por uma cidade com poluição e áreas degradadas.

O podcast com o Professor Luís Vinícius M. Porto de Souza sobre o assunto apresenta importantes dados técnicos. O professor é Mestre em Engenharia Ambiental, possuindo registro no Conselho Regional de Química e Conselho regional de Engenharia de Santa Catarina, além de outros importantes títulos e experiências.

Qual o real peso do minério? Cada pessoa ou entidade naturalmente se posiciona conforme sua trajetória histórica e interesses. Os pesos que interferem nas opiniões são diversos. Alguns exemplos são: peso ambiental, econômico, emocional ou psicológico, social, cultural ou de filosofia de vida e político. Pela importância, o fato recebeu destaque na imprensa estadual. Leia a Reportagem.

 

O que mexe com o emocional dos habitantes?

Seja em Anitápolis ou em quaisquer outros lugares, as dúvidas e dilemas da vida interferem emocionalmente na maioria das pessoas. Em entrevista a Acadêmica de jornalismo Neuseli Bastos, o psicólogo e professor Gustavo Pessoa, que é também psicoterapeuta e mestrando em psicologia pela Universidade de São Paulo, esclarece algumas questões relativas ao  envolvimento das pessoas e seus sentimentos. Confira na íntegra o ping pong:

 Neuseli: Como surgem as dúvidas ou dilemas em geral?
Gustavo: A dúvida surge, em geral, numa situação psíquica em que existe uma tensão entre opostos. Uma situação só se torna muito importante para você quando muitas dimensões da sua personalidade, de ordem emocional, racional, ligadas à sua história de vida, entre outros fatores, se conjugam. Muitas vezes, esses elementos são contraditórios: pensamos de um jeito, sentimos de outro jeito, o que as pessoas esperam de nós é ainda uma outra coisa, etc. Essa disparidade causa uma tensão interna e nos provoca, nos convoca a uma escolha. Somos postos em dúvida e precisamos escolher. A escolha sempre se caracteriza por mais de uma alternativa relevante, por isso existe o conflito. Ou seja, optar entre algo que gostamos e algo que não gostamos não é efetivamente uma escolha do mesmo nível que escolher pelo sacrifício de um filho ou de outro, como na Escolha de Sofia. Escolher, de forma autêntica, significa assumir a responsabilidade por uma coisa e perder a outra coisa que estava sendo oferecida. Esta é a dificuldade fundamental de termos que escolher: ganhamos, mas também perdemos.

Neuseli: Como resolver ou fazer uma escolha sem arrependimento?
Gustavo: Não resolvemos. No âmbito da afetividade, o que é importante é termos consciência do que sentimos em relação a todas as opções. Uma vez que isto estiver claro, é também interessante que comemoremos aquilo que escolhemos e possamos fazer o luto daquilo que perdemos. Por exemplo: se você opta por comprar um apartamento e tem que vender seu carro pra isso, é importante que você saiba porque queria um apartamento, o que ter uma casa própria significa pra você, e outras coisas. Ao mesmo tempo, também é necessário que fique claro que isso vai acarretar em não ter o carro, ter sua mobilidade afetada, perder um símbolo de status, e outras coisas. É um processo que sempre trará alegria, por um lado, e alguma tristeza, por outro.

 Neuseli: Qual o rumo tomar quando o nosso dilema influenciar na vida de outras pessoas ou do meio ambiente?
Gustavo: O caminho mais adequado é poder elaborar os prós e os contras e quais sentimentos estão em jogo. Quando estamos muito envolvidos com alguma coisa, é comum confundirmos a raiva com justiça, o amor e a paixão, a tristeza e a depressão. Na dúvida, o importante é ter uma postura suficientemente madura que permita admitirmos o fato de que não é possível ter tudo: vamos ter que perder algo para ter outra coisa. A partir daí, conhecer a tristeza que advém da perda e a força que deriva daquilo que escolhemos. Na questão ambiental, o que se estabelece é: ou abrimos mão do excesso de conforto que o progresso humano traz, ou abrimos mão do respeito à natureza e dos benefícios de mantermos reservas naturais no planeta. Não há caminho fácil: vamos perder algo. E é preciso primeiro refletir o que vale à pena para nós e o que cada um considera correto. É muito difícil para nós admitirmos que não é possível ter todo o prazer que o progresso traz, mas também é complicado encarar o desrespeito patente que demonstramos em relação à natureza. Teremos que escolher por um deles, porque não é mais viável nos mantermos na onipotência de pensar que podemos ter tudo.

Neuseli: E se escolhermos o caminho errado?
Gustavo: A escolha refletida nunca será mal feita. O ser humano é essencialmente mudança, portanto, não é vergonha mudar de posição. O que poderíamos classificar como inadequado é a falta de reflexão sobre nós mesmos e o mundo que nos cerca. Precisamos assumir uma postura mais ética, olhando para o nosso lado mais sombrio e nossos desejos indizíveis, mensurar o quanto eles valem quando pesamos as coisas para tomarmos nossas decisões. Até aqui, o homem tem escolhido a premissa de que o planeta é nosso e de mais ninguém, portanto podemos ocupar 100% de seu espaço doa a quem doer. Agora, surge o dilema: ocupar todo o espaço ameaça a nossa própria existência. Esse ainda é um dilema egoísta, porque só trata da nossa própria sobrevivência. Mais interessante seria o questionamento: será que tudo o que é vivo na Terra não tem o mesmo direito à vida que nós temos? Se tem, não podemos ocupar indiscriminadamente todo o espaço. Precisamos respeitar o espaço dos outros, dos animais, das plantas, dos mares. Mas isso é difícil na prática porque teremos que abrir mão de uma boa parcela de nosso conforto, nosso consumo desenfreado, nosso desejo compulsivo de ter tudo e todos na hora que queremos. Se não fizermos esse luto com maturidade de quem já está há um bom tempo abusando dos recursos do planeta, e assumirmos uma postura ética de alteridade, não será possível mudar essa escolha. Em outras palavras, já estamos tendo prejuízo com nossa escolha de privilegiar o progresso, mas mudar e privilegiar o direito à vida de todos e o espaço de todos os seres vivos, também acarretará no prejuízo do nosso conforto. Não podendo ter tudo, somos convocados à ética. Através dela, descobrimos que existem coisas pelas quais vale à pena.

Informações Judiciais:
Para o advogado Eduardo Bastos Moreira Lima, especialista em Direito Ambiental, PolíticasPúblicas e Ciência Ambientais, que entrou com ação judicial a “questão fosfateira se desenrolaem duas fases: questionamentos Administrativos e Judiciais. Administrativos são junto aosórgãos ambientais. Os judiciais tramitam principalmente no Tribunal Regional Federal”.
E não para por ai, pois a causa tem grau de dificuldade e vícios no processo licitatórioambiental, omissões o estudo prévio de impacto ambiental e ausência da participação dacomunidade. Ainda há riscos de erosão, poluição hídrica, chuva ácida, enfim, um projeto dessanatureza, terá reflexos por toda região. Uma solução deve demorar.

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