Pesquisa inovadora revela novo método para produzir bioetanol

Ana Paula de Sousa

Janaina Salsi

Aquecimento global, CO2, petróleo, bioetanol. Quase todos os dias é possível ouvir ou ler uma dessas expressões em meios de comunicação pelo Brasil afora. São termos presentes na realidade da população brasileira, no entanto, apenas uma pequena parcela sabe realmente qual a ligação que existe entre eles.

O Departamento Estadual de Trânsito de Santa Catarina (Dentran/SC) calcula que em setembro de 2009, 3.106.241 veículos de todos os portes trafegaram pelas estradas do Estado. Diante deste número, é impossível calcular a quantidade de CO2 emitida a partir da queima de combustível. Acesse a tabela completa aqui.

O Dióxido de Carbono ou Gás Carbônico, como é conhecido o CO2, em excesso, torna-se um vilão para a saúde humana e ambiental. O CO2 absorve radiação infravermelha e a transforma em calor. Isso provoca o aquecimento da atmosfera, que pode ainda gerar mudanças climáticas drásticas, como o aumento das tempestades e derretimento das geleiras, além de inundar diversas áreas habitadas e extinguir várias espécies animais. Para o biólogo e educador ambiental de Blumenau, José Constatino Sommer, não há a menor dúvida da ligação que existe entre a emissão de CO2 e o efeito estufa. “Basta ver que os países Europeus, que foram os primeiros signatários do tratado de Kyoto, são unânimes ao afirmar que o automóvel é a grande dificuldade para poder cumprir com as metas estabelecidas”.

Ouça a entrevista completa com José Constantino Sommer

Hoje, o combustível mais usado em todo o país é a gasolina. O líquido é inflamável e obtido a partir da destilação do petróleo e, quando queimado por combustão em veículos, libera no ar CO2. O petróleo é uma fonte de energia não renovável, de origem fóssil, que também pode gerar diversas consequências para o meio, como o derramamento de óleo em oceanos e impactos durante a extração no subsolo terrestre.

O que muita gente ainda não sabe é que vários estudos estão sendo realizados para contribuir com a diminuição dos impactos gerados pelos combustíveis fósseis. Muitos carros, em todo o Brasil, já podem utilizar o etanol, conhecido como álcool, como combustível alternativo. Esse líquido é menos inflamável e tóxico, pois libera uma quantidade menor de CO2 no ar em comparação à gasolina.

Janaina Salsi

O bioetanol é usado como aditivo de gasolina e colabora para amenizar os efeitos da queima de CO2

O etanol é uma substância orgânica e renovável obtida por meio da fermentação de amido e outros açúcares, como a sacarose encontrada na cana-de-açúcar. O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de etanol. Aqui, o combustível é produzido a partir da cana-de-açúcar. Em outros países, o etanol é feito do milho (Estados Unidos e Canadá), trigo (Canadá), mandioca (China), melaço (Índia), óleo de palma (Colômbia) e beterraba (União Européia).

Em entrevista à Revista Veja, edição n° 2052, de 19 de março de 2008, o engenheiro mecânico e doutor pela Universidade Estadual de Campinas, Luiz Augusto Horta Nogueira, afirmou que “todo gás carbônico emitido pelos veículos movidos a álcool é reabsorvido pelas plantações de cana-de-açúcar. Isso faz com que as emissões do gás sejam reduzidas. Além disso, a grande diferença em relação ao petróleo é que o etanol usa o gás carbônico retirado da atmosfera pelas plantas. O petróleo joga na atmosfera o gás carbônico armazenado no solo e não o reabsorve”.

Na mesma entrevista, concedida à Revista Veja, o engenheiro destacou que “dos 19 milhões de automóveis (que circulam pelo Brasil), cerca de 13,6 milhões são movidos a gasolina. Há 200.000 carros movidos a álcool. Outros 5,2 milhões são flex. No ano passado, 85% dos veículos novos saíram de fábrica com motor flex. A continuar assim, em 2015, quando a frota brasileira de automóveis estiver em 30 milhões de unidades, 19 milhões serão bicombustíveis”.

No Brasil, além dos estudos sobre etanol, existem ainda pesquisas recentes em torno do bioetanol, chamado também de combustível “verde”. Atualmente, este combustível é fabricado em uma segunda geração. Assim, primeiro se obtém o etanol a partir da cana-de-açúcar. Em seguida, com os resíduos que sobraram da planta, é possível ainda produzir o bioetanol. Ou seja, ele é adquirido a partir do bagaço de cana.

Bioetanol é obtido a partir de resíduos de algodão

Ana Paula de Sousa

Larissa da Silva é responsável pela pesquisa sobre a produção de bioetanol a partir de resíduos de algodão

Em Blumenau, uma nova pesquisa foi realizada para produzir bioetanol a partir da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. A cidade é conhecida como pólo têxtil no sul do país e, por isso, as empresas blumenauenses utilizam uma grande quantidade de algodão. O estudo foi feito pela graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, e propõe usar material residual com baixo valor agregado para produzir bioetanol.

“Hoje as indústrias de Blumenau têm grandes problemas em relação ao armazenamento desses resíduos. O material é utilizado como ração de gado ou ainda, para queima em caldeiras. A ideia é fazer com que os restos tenham um fim mais sustentável e lucrativo”.

Confira mais sobre a entrevista com Larissa da Silva

Para quem não sabe, estes resíduos de algodão são a parte bruta da matéria-prima, que sobra do processo de beneficiamento têxtil. “Quando a fibra de algodão chega à indústria, ela sofre um processo de limpeza e fiação. Depois, passa por dutos que as filtram. No final, sobram as fibras muito curtas, que não são adequadas para a fabricação de tecido de primeira qualidade, além de possíveis impurezas e cascas provenientes da coleta do algodão. Este material é o resíduo que usamos na produção de bioetanol”.

A hidrólise é uma reação química, estimulada por uma enzima, e significa a quebra de uma molécula em duas ou mais moléculas. Assim, no caso da pesquisa, foi realizada a hidrólise da cadeia celulósica em unidades individuais de glicose, que são encontradas nos resíduos de algodão da indústria têxtil. “Ou seja, o objetivo do trabalho é produzir açúcar, que será fermentado para que seja fabricado o bioetanol”.

Larissa da Silva

Durante o processo de hidrólise, onde há a transformação dos resíduos de algodão em açúcar

Larissa ainda explica que por ser uma energia renovável, o bioetanol não polui tanto o ambiente quanto a gasolina. Com a produção deste combustível, fecha-se o ciclo e o CO2 é reabsorvido pelas plantações de algodão ou mesmo de cana-de-açúcar. O bioetanol pode ser usado como aditivo de gasolina, pois não é possível utilizá-lo como único combustível. “Isso porque não há plantação suficiente para suprir essa necessidade. Então, usar o bioetanol como aditivo contribui para diminuir a dependência de combustíveis fósseis”.  Tenha mais informações acessando o artigo Bioetanol de cana-de-açúcar – Energia para o desenvolvimento sustentável.

Há, certamente, muito estudo a fazer e desafios a superar em torno do assunto. Mas, do ponto de vista ambiental, não há o que questionar. Para o biólogo Sommer a pesquisa é favorável. “Essa alternativa é de fato interessante, já que Blumenau é uma cidade com vocação têxtil. Aproveitar o resíduo para a produção de açúcar seria uma solução vantajosa, porque daria uma destinação mais adequada e, principalmente, acabaria participando do fechamento do ciclo”. Confira o infográfico:

Infográfico - Ciclo Bioetanol

Bioetanol é novidade e as vantagens ainda são pouco conhecidas

Arquivo pessoal

Alessandro Salvador costuma abastecer com biocombustível

Alessandro Salvador, 31 anos, é mais um entre os catarinenses que utilizam o carro para qualquer atividade que realiza. Ele é coordenador de projetos industriais e vai e volta todos os dias do trabalho, além de ir ao supermercado, encontrar com os amigos e visitar diariamente a namorada, que mora em Timbó, cidade localizada a 30 km de Blumenau, onde Salvador reside. Nesses trechos, ele costuma abastecer o carro com álcool. Quando viaja, opta pela gasolina, que, em sua opinião, aumenta o rendimento do carro. Calcule aqui a quantidade de CO2 que você gera ao abastecer seu carro com biocombustível.

O profissional simplifica o conceito de bioetanol: “é álcool feito de vegetais”, e não faz ideia do que há por trás do simples ato de abastecer.  Hoje, no Brasil, o bioetanol é produzido a partir do bagaço da cana-de-açúcar, porém, em Blumenau, a graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, já realizou pesquisas para a fabricação de bioetanol por meio da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. “Entendo pouco sobre o assunto, mas sei que o uso do carro contribui bastante para o aumento do efeito estufa”, confessa Salvador.

Janaina Salsi

O uso do carro, em excesso, contribui para o aumento do efeito estufa

O professor do curso de Biologia da Furb e membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente, Lauro Bacca, tem uma visão enfática sobre o assunto. “Sem dúvida, a queima de combustíveis fósseis pelos automóveis é o principal agravante do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global”. O biólogo desconhece as pesquisas realizadas sobre o bioetanol em Blumenau. “Todo tipo de pesquisa que envolve a tentativa de conter a poluição ao ambiente representa um passo a mais na caminhada. A pesquisa é muito positiva se considerarmos que moramos em um pólo têxtil e fechar o ciclo do CO2 é o grande atenuante”.

Bacca ainda alerta que quando se fala em sustentabilidade, é importante pensar nos três Rs: reduzir, reaproveitar e reciclar. Cada uma dessas ações representa a tentativa de diminuir os agravantes ao meio. “Mesmo que muito esteja sendo feito para reaproveitar e reciclar, o principal, que é reduzir, está sendo deixado de lado. É preciso conscientizar os cidadãos para a redução e uso equilibrado dos recursos que temos em nossas mãos”.

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