Perdas de Água

Preocupação Ambiental e novas tecnologias: tudo em prol do desenvolvimento sustentável

Caroline Leal
Graziela Mertens

Felipe Gautério Leal

Sistemas de abastecimento de água adequados são de grande contribuição para a melhoria na qualidade de vida da população

Ações para economizar água e preservar os mananciais são metas mundiais. Em 1922, a ONU redigiu um texto onde manifestou a importância da preservação da água no planeta. A “Declaração Universal dos Direitos da Água”, diz que cada continente, cada povo, cada nação, cada cidade, cada cidadão, é plenamente responsável por este bem que é essencial para a vida de todos seres vivos.

Confira aqui a mensagem do Group Raindrops sobre a água.

A água, essencial ao surgimento e à manutenção da vida em nosso planeta, é indispensável para o desenvolvimento das diversas atividades criadas pelo ser humano, e apresenta, por essa razão, valores econômicos, sociais e culturais. Com o aumento da população e o desenvolvimento industrial, a utilização da água cresceu abusivamente, como se fosse um recurso abundante e infinito. Pesquisadores afirmam que em diversas partes do mundo, como Oriente Médio, África e alguns lugares da América Central e Estados Unidos já sofrem com a escassez da água. No Brasil a realidade é outra, já que cerca de 10% de toda água doce do planeta se encontra em território brasileiro, porém o país apresenta sérios problemas no que diz respeito a sua distribuição.

Os recursos hídricos são tema destaque de discussões para o alcance do desenvolvimento sustentável. O meio ambiente e a sustentabilidade nunca antes foram tão debatidos por pesquisadores e especialistas e tão divulgado pela mídia. Alterações climáticas, destruição dos mananciais, crises no fornecimento e escassez de água e a constatação de que, se nosso modo de vida não mudar, o planeta estará ameaçado. Isso todo mundo já sabe. O problema é que há outros motivos dos quais se tem pouco conhecimento e quase nenhuma divulgação. E eles são tão importantes quanto as outras questões mencionadas.

O abastecimento de água, em quantidade e qualidade adequadas, é uma das principais prioridades das sociedades. Entretanto, as elevadas perdas de água tornaram-se um dos maiores problemas das redes de distribuição. Em seu artigo “Abastecimento de Água”, o professor titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Sanitária da USP, doutor Pedro Sobrinho, registra que já em 1881, em Glasgow, na Escócia, foi realizado o primeiro estudo relativo a perdas de água. Segundo o histórico apresentado pelo autor, no Brasil, o primeiro levantamento foi feito somente em 1950, na cidade de Manaus, e mostrou índice de perdas de 70%.

Assista a reportagem do Jornal Nacional sobre as perdas de água, uma das poucas publicadas sobre o assunto.

De acordo com o levantamento realizado em 2005 pelo SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o Brasil perde, em média, 44,81% da água distribuída em relação à água captada. Isso quer dizer que quase a metade da água que é tratada é desperdiçada antes de chegar ao consumidor. Essa quantidade de água seria suficiente para abastecer, simultaneamente, países como a França, a Suíça, a Bélgica e o norte da Itália.

Dados mais recentes têm mostrado índices de perdas preocupantes que variam entre 18% e 77%. Fazendo uma comparação bem simples desses sistemas com mais de 70% de perdas, é o mesmo que uma indústria automobilística fabricar dez carros e só disponibilizar três deles para a venda. “Os melhores sistemas brasileiros, neste quesito, têm perdas de cerca de 18%, valor ainda alto para os padrões europeus, onde há índices de perdas menores que 5%”, explica o engenheiro sanitarista e professor doutor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Peter Cheung.

Há várias causas para essas perdas nos sistemas, mas apontadas como principais: o grau de obsolescência dos equipamentos (tubulações antigas e muito susceptíveis a rompimentos e vazamentos, hidrômetros descalibrados ou com defeito, não medindo corretamente a água consumida), a ausência de hidrômetros (pagando-se um valor fixo, independentemente do consumo), as fraudes de toda natureza, ligações clandestinas, cadastro comercial falho das companhias e, ainda, aquelas destacadas pelos especialistas: “O baixíssimo uso da tecnologia para auxiliar nesta área, a carência de especialização dos profissionais das empresas de saneamento e a falta de educação generalizada da população, que continua a crer que nunca faltará água. Assim, como se vê, há muito por se fazer”, explica Manoel Carlos Solera, engenheiro de automação formado pela UFSC.

Caroline Leal

Tubulações de ferro fundido utilizadas em sistemas antigos, o desgaste excessivo pode acarretar danos graves à saúde da população

Todas as causas apontadas refletem o baixo investimento que é feito na área. A situação se agrava ainda pelo fato de que as empresas não pagam pela água que é captada dos rios e o poder público não exerce seu papel fiscalizador, mesmo com a existência de leis que regulamentam esse dever. O engenheiro sanitarista e ambiental Guilherme Girol argumenta sobre o descaso com a situação: “Penso que a água deveria ser muito mais cara do que é hoje, assim talvez começássemos a agir de outra forma. No Brasil, infelizmente, funciona assim, as atitudes só são tomadas quando algo afeta nosso bolso”.

A Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 institui a Política Nacional de Recursos Hídricos, que baseia-se em alguns fundamentos e um deles é de que “a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico”. A lei, que regulamenta diversas ações por parte do poder público e das empresas de saneamento, traz no art.22, da seção IV, da cobrança do uso dos recursos hídricos, que “os valores arrecadados com a cobrança pelo uso de recursos hídricos serão aplicados prioritariamente na bacia hidrográfica em que foram gerados”, para serem utilizados no financiamento de estudos, programas e projetos, ou seja, investimento para melhorias. O artigo 30, a respeito da ação do poder público, é claro: “outorgar os direitos de uso de recursos hídricos e regulamentar e fiscalizar os seus usos”. Mas, o que realmente é feito?

Não adianta cobrar só dos governantes. “A culpa é de todos nós. Criticamos, mas não realizamos nenhuma ação concreta para cobrar essas melhorias. Claro que em uma determinada região ou município, os governantes têm mais poder e instrumentos para mudar as coisas. Neste sentido, é necessário haver uma mudança cultural e nomear para a gestão de uma companhia de saneamento pessoas que tenham uma visão técnica e, não somente política, como ainda ocorre muito atualmente”, argumenta Solera.

No Brasil, além do descaso com a situação, há uma resistência em relação à aquisição e uso de novas tecnologias na área. É um problema na verdade cultural, a dificuldade que as pessoas têm em mudar de hábitos, mas em boa parte também por desconhecimento e receio destas novidades. Peter Cheung enfatiza: “aí, é fundamental o papel dos meios de comunicação e das empresas de tecnologia, como a Sanova, mostrarem ao setor o que estão oferecendo e, principalmente, quais os benefícios e resultados práticos que o uso disto trará para as empresas e o que será exigido delas”.

Investimento em tecnologia no combate ao desperdício

As novas tecnologias são um dos maiores aliados no combate as perdas de água, principal problema enfrentando pelas empresas de abastecimento. Essas perdas de água potável são calculadas tendo como base a diferença entre o volume consumido registrado pelo conjunto de hidrômetros e o volume produzido pelos sistemas. Para entender melhor a importância dos investimentos em tecnologia, você vai saber que perdas são essas, como elas ocorrem e qual a função dos aparatos modernos.

Existem dois tipos de perda: a real (física) e a aparente (não física). A perda real é a água perdida em vazamentos (nas tubulações, adutoras, reservatório), aquela que não chega ao consumidor. A perda aparente é a água usada pelos consumidores, mas que não é medida pela empresa de abastecimento de água, como as fraudes, erros no cadastro e de medição.

“Atualmente, a grande maioria das empresas de abastecimento de água tem problemas com perdas físicas e de faturamento (veja infográfico) que comprometem a sua saúde financeira e a qualidade da prestação do serviço”, explica Bruno Comunello, engenheiro sanitarista e um dos sócios da empresa Sanova.

As perdas de faturamento em números no país.

SNIS 2007

Representação espacial do índice de perdas de faturamento para o conjunto de prestadores participantes do SNIS em 2007 (indicador IN013), distribuído por faixas percentuais segundo os estados brasileiros.

Quando perguntado sobre quais os primeiros investimentos em tecnologia que as empresas de saneamento devem fazer para começar a melhorar o quadro atual, Peter Cheung é claro: “Há um conceito básico em engenharia que diz que só se pode controlar aquilo que se mede. Assim, creio que a melhor forma é começar a medir as principais variáveis de interesse (volume, vazão e pressão de água, quantidade de rompimentos e manutenções, consumo energético, etc), e trabalhar constantemente com estes dados a fim de melhorar os índices”. Para isso, podem ser utilizados medidores, que são instalados em diversos pontos da rede de distribuição e geram dados a serem coletados e armazenados para controle. Quanto maior o número de medidores instalados, maior a precisão que se pode ter do sistema.

Quando se tem um cenário aproximado da realidade pode se avaliar as alternativas e tecnologias mais adequadas para cada caso. “Em relação às perdas, as primeiras medidas, em geral, são trabalhos de pitometria, uso de válvulas para redução da pressão na rede de distribuição, troca de hidrômetros por modelos mais robustos e eficazes e a utilização de simuladores hidráulicos computacionais”, explica Guilherme Girol.

Esses simuladores, mais conhecidos como modelagem hidráulica dos sistemas, são ferramentas eficientes, mas que precisam de uma mínima base de dados confiável. Um exemplo é o software Epanet, que, numa linguagem simplificada, consiste em oferecer ao programa a maior quantidade possível de dados, para que possa ser criada uma “cópia virtual” do sistema de abastecimento e, ali, sejam feitos diversos tipos de testes e simulações para se chegar a melhor opção a ser executada no sistema real. O Epanet é o simulador hidráulico mais utilizado no mundo, devido a sua facilidade de uso, eficiência e por possuir o código fonte aberto. No Brasil, seu uso é incentivado pelo governo federal.

Paralelo a isto, as medidas corretivas e emergenciais são inevitáveis. Manoel Solera ressalta que “a automatização dos processos e a centralização dos dados operacionais também trazem benefícios quase imediatos para as empresas desta área”. A automação consiste na aplicação da tecnologia dos processos de saneamento e da tecnologia da informação, contemplando os avanços nas técnicas de captação, tratamento e distribuição de água e possibilitando a realização da supervisão e controle desses processos de maneira a mantê-los operando com a melhor relação custo-benefício.

Os especialistas são unânimes de que, por haver uma enorme gama de situações e alternativas, seria inviável detalhar cada caso. Da mesma forma, em relação ao custo, os valores variam muito. “Porém, é preciso ter em mente não apenas se uma solução é cara ou barata, mas, principalmente qual é o seu custo-benefício. Um exemplo prático são as automatizações de estações de tratamento de água (ETA)”, acrescenta Manoel.

O engenheiro exemplifica as vantagens desse tipo de investimento: “No final do ano passado, a Controlle (empresa de automação da qual Manoel é sócio) automatizou os processos de dosagem de produtos químicos da ETA da cidade de Blumenau. Passados alguns meses, notou-se que a água produzida na estação tinha um melhor padrão de qualidade e, o que é melhor, com menos produto químico presente nela. Do ponto de vista financeiro, o valor economizado com produtos químicos deve cobrir o que foi gasto em todo o projeto de automação em cerca de 11 meses apenas”.

Caroline Leal

Fonte: SNIS 2007.

Todas essas novas tecnologias na área, para medição, automatização e softwares só funcionarão se as empresas de saneamento tiverem dados suficientes ou conhecimento básico sobre sua rede de distribuição de água. Exemplo disso é a base de dados SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), criada para armazenar o maior número de informações sobre saneamento do país. O fornecimento de dados para o SNIS acontece de forma voluntária, mas para o programa funcionar adequadamente os estados, municípios e prestadoras de serviços de saneamento precisam enviar as informações.

Segundo o site oficial do SNIS (www.snis.gov.br), “o Ministério das Cidades estabeleceu nos Manuais dos Programas de investimentos de sua responsabilidade, duas condições de acesso que se relacionam ao SNIS: em alguns deles a obrigatoriedade do fornecimento de dados ao SNIS como condição prévia para acesso aos recursos; e, em outros, a pontuação maior para efeito de hierarquização de projetos, dos prestadores de serviços que comprovarem ter enviado seus dados ao SNIS. Assim, a partir do ano de 2006, com dados do ano-base de 2005, tais condições serão exigidas dos prestadores de serviços, dos Estados e dos Municípios que se candidatem a acessar recursos nestes Programas”.

Pesquisa realizada em 2008 pela ABES – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental aponta que a situação do saneamento básico na Região Sul e, especialmente, em Santa Catarina é tão precária quanto no resto do país. O estado, que tem um dos melhores índices de qualidade de vida do país, vem se destacando negativamente no que diz respeito ao abastecimento de água, principalmente, na falta de investimentos em tecnologias no setor.

Leia o relatório completo da pesquisa da ABES aqui.

Aplicações e resultados dos investimentos em tecnologias para saneamento em Santa Catarina.

Apesar dos graves problemas já mencionados, a qualidade de ensino no estado, principalmente nas áreas de engenharia sanitária, ambiental e de automação, bem como a preocupação com o turismo, tem despertado iniciativas para a melhoria deste setor.

Felipe Gautério Leal

Construção do novo reservatório para aumento da capacidade de abastecimento de Capinzal e região

Capinzal, no oeste de Santa Catarina, é referência nacional em abastecimento de água, motivo que levou a cidade a ganhar recursos da FUNASA – Fundação Nacional de Saúde. A verba foi utilizada no projeto “Uso associado de técnicas computacionais e de experimentação voltado ao gerenciamento de perdas em sistemas de abastecimento de água”.

Segundo Ademar de Giametti, diretor técnico da autarquia intermunicipal SIMAEServiço Intermunicipal de Água e Esgoto Capinzal/Ouro, “o objetivo geral do projeto é desenvolver um protocolo de ações para a avaliação das perdas (reais e aparentes) nos sistemas de abastecimento de água e otimização dos sistemas de abastecimento de água e otimização dos sistemas elevatórios para a redução dos custos com energia elétrica, apoiado em tecnologias computacionais de baixo custo (software livre) e de experimentação em campo (equipamentos nacionais)”.

Caroline Leal

Curso de Epanet ministrado pela empresa Sanova no SIMAE

Outro município destaque em saneamento é Joaçaba. O Serviço Intermunicipal de Água e Esgoto – SIMAE – Joaçaba, Herval do Oeste e Luzerna ganhou, no último dia 24, o Prêmio Nacional da Qualidade em Saneamento (PNQS). É o primeiro serviço municipal de água e esgoto a conquistar o prêmio em Santa Catarina e, um dos primeiros do sul do Brasil. Para a diretora do SIMAE, Elisabet Maria Sartori, “a conquista do PNQS vem em reconhecimento a uma série de ações planejadas e executadas pela nossa equipe de servidores e representa a conquista do primeiro passo rumo a nossa visão, de sermos reconhecidos como referência nacional de serviço público municipal em saneamento básico”.

Além do prêmio de excelência em distribuição de água, O SIMAE de Joaçaba, Herval do Oeste e Luzerna e a Companhia Águas de Joinville, estão entre as seis empresas selecionadas de 2009 para receber o 5º Prêmio Catarinense de Excelência (PCE), promovido pelo Movimento Catarinense para Excelência (MCE). O empresário André Gaidzinski, presidente do MCE, afirma que “a busca pela excelência é a principal determinante para o sucesso das organizações no novo mundo em que vivemos cada vez mais competitivo e globalizado”. Ambas as empresas de saneamento que concorrem ao prêmio já utilizam diversos tipos de tecnologia em seus sistemas de abastecimento.

A Companhia Águas de Joinville, trabalha com o gerenciamento de perdas, além de promover diversas campanhas contra o desperdício e as perdas de água. Todos os projetos e ações realizadas pela empresa podem ser acompanhados no site: www.águasdejoinville.com.br. Outra empresa de saneamento que mantém os dados de seus investimentos atualizados e disponíveis em seu site é a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento – CASAN. Presente em 205 municípios catarinenses e um paranaense, a empresa publica no endereço: http://www.casan.com.br/index.php?sys=10, a descrição das obras e tecnologias implantadas e seus custos, realizadas nos municípios de sua abrangência.

Neste ano, a Semasa, empresa responsável por abastecer os municípios de Itajaí e Navegantes, iniciou as obras de ampliação, readequação e modernização da ETA São Roque. O investimento é de aproximadamente R$ 6 milhões e vai permitir o aumento da capacidade de captação, tratamento e reserva de água. Em outros pontos da cidade estão sendo executadas obras de instalação de novas adutoras para ampliar a capacidade de abastecimento e também de medidores para controlar os índices de perdas. “A ampliação do sistema de tratamento de água, além de modernizar o processo, vai garantir o abastecimento da cidade por mais 30 anos”, garante o engenheiro Sérgio Juk, diretor de saneamento da Semasa.

Felipe Gautério

Instalação de macromedidores eletromagnéticos de vazão de água no sistema de abastecimento do Semasa

Estes pequenos passos são importantes no sentindo de servir de exemplo para serem seguidos não somente pelos municípios do estado, mas também, por todo país. Para que de uma forma mais rápida se alcance padrões de primeiro mundo, onde os sistemas de saneamento e distribuição de água são muito mais desenvolvidos que no Brasil. Estes países têm maior preocupação ambiental e, consequentemente, um melhor desenvolvimento sustentável.

O controle de perdas de água é fundamental para uma empresa de abastecimento, para o poder público e para a população, tanto do ponto de vista ecológico como econômico e de segurança. É compreensível o quão preocupante é a situação das perdas de água nos sistemas de abastecimento de água em nosso país e como é fundamental potenciar os investimentos em métodos de detecção e controle dessas perdas.

Os especialistas são enfáticos em dizer que o investimento nos sistemas de abastecimento não supera, a longo e até médio prazo, as perdas econômicas que produzem. E, ainda, que as empresas com menor porcentagem de perdas são também as que levam a cabo a maior quantidade de investimentos e uso de tecnologias em seus sistemas.

Descubra aqui qual é a palavra chave para o sucesso das empresas de saneamento na visão de profissionais da área.

A água não deve ser poluída e nem desperdiçada. A sua utilização, que deve ser realizada de maneira consciente, também implica respeito à lei. Ações para a proteção e preservação da água constituem uma obrigação jurídica para os homens ou grupo social que a utiliza. Esta questão não deve ser ignorada nem pelo homem nem pelo Estado.

Não deixe a água acabar! Evite o desperdício.

Para que não falte água em sua casa, é importante que você colabore com a preservação dos mananciais e compreenda que a água (apta a ser consumida) é um bem finito e que já está escassa em vários pontos do nosso planeta; ter atitudes em prol disto, consumindo o recurso hídrico, mas não o desperdiçando. Seja um exemplo, assim você influenciará positivamente as pessoas do seu convívio e ainda vai beneficiar sua família, seu bolso e sua cidade.

Como você pode colaborar:

  • Utilize equipamentos eficientes (torneiras, chuveiros, sanitários, etc);
  • Não permaneça por muito tempo com o chuveiro aberto e não esqueça torneiras abertas ou pingando;
  • Evite regar jardins em demasia e lavar as calçadas com água tratada. Uma dica para isso é a utilização da água da chuva;
  • Veja se não há vazamentos em suas instalações (eles geralmente ocorrem nas caixas de descarga, na bóia da caixa d’água, no ramal direto da rede e nas torneiras);
  • Consulte a companhia de saneamento local ou o SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento para saber qual a situação do abastecimento de água e quais investimentos estão sendo realizados;
Graziela Mertens/ Felipe Gautério

Vazamentos expostos como estes muitas vezes permanecem desperdiçando água por meses sem sofrer reparos

  • Avise a empresa de saneamento sobre vazamentos nas ruas o mais rápido possível, denuncie fraudes e qualquer outro problema constatado, e cobre medidas rápidas;

Para saber mais…

  • Dicas de sites para você que quer aprofundar o assunto:
http://www.snis.gov.br – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento
http://www.sanova.com.br – Empresa de Engenharia – tecnologia em Modelagem Hidráulica
http://www.controlle.ind.br– Empresa de Engenharia de Automação
http://www.abes-dn.org.br – Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental
http://www.saneamentobasico.com.br – Tudo sobre Saneamento Básico

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Pesquisa inovadora revela novo método para produzir bioetanol

Ana Paula de Sousa

Janaina Salsi

Aquecimento global, CO2, petróleo, bioetanol. Quase todos os dias é possível ouvir ou ler uma dessas expressões em meios de comunicação pelo Brasil afora. São termos presentes na realidade da população brasileira, no entanto, apenas uma pequena parcela sabe realmente qual a ligação que existe entre eles.

O Departamento Estadual de Trânsito de Santa Catarina (Dentran/SC) calcula que em setembro de 2009, 3.106.241 veículos de todos os portes trafegaram pelas estradas do Estado. Diante deste número, é impossível calcular a quantidade de CO2 emitida a partir da queima de combustível. Acesse a tabela completa aqui.

O Dióxido de Carbono ou Gás Carbônico, como é conhecido o CO2, em excesso, torna-se um vilão para a saúde humana e ambiental. O CO2 absorve radiação infravermelha e a transforma em calor. Isso provoca o aquecimento da atmosfera, que pode ainda gerar mudanças climáticas drásticas, como o aumento das tempestades e derretimento das geleiras, além de inundar diversas áreas habitadas e extinguir várias espécies animais. Para o biólogo e educador ambiental de Blumenau, José Constatino Sommer, não há a menor dúvida da ligação que existe entre a emissão de CO2 e o efeito estufa. “Basta ver que os países Europeus, que foram os primeiros signatários do tratado de Kyoto, são unânimes ao afirmar que o automóvel é a grande dificuldade para poder cumprir com as metas estabelecidas”.

Ouça a entrevista completa com José Constantino Sommer

Hoje, o combustível mais usado em todo o país é a gasolina. O líquido é inflamável e obtido a partir da destilação do petróleo e, quando queimado por combustão em veículos, libera no ar CO2. O petróleo é uma fonte de energia não renovável, de origem fóssil, que também pode gerar diversas consequências para o meio, como o derramamento de óleo em oceanos e impactos durante a extração no subsolo terrestre.

O que muita gente ainda não sabe é que vários estudos estão sendo realizados para contribuir com a diminuição dos impactos gerados pelos combustíveis fósseis. Muitos carros, em todo o Brasil, já podem utilizar o etanol, conhecido como álcool, como combustível alternativo. Esse líquido é menos inflamável e tóxico, pois libera uma quantidade menor de CO2 no ar em comparação à gasolina.

Janaina Salsi

O bioetanol é usado como aditivo de gasolina e colabora para amenizar os efeitos da queima de CO2

O etanol é uma substância orgânica e renovável obtida por meio da fermentação de amido e outros açúcares, como a sacarose encontrada na cana-de-açúcar. O Brasil está entre os maiores produtores mundiais de etanol. Aqui, o combustível é produzido a partir da cana-de-açúcar. Em outros países, o etanol é feito do milho (Estados Unidos e Canadá), trigo (Canadá), mandioca (China), melaço (Índia), óleo de palma (Colômbia) e beterraba (União Européia).

Em entrevista à Revista Veja, edição n° 2052, de 19 de março de 2008, o engenheiro mecânico e doutor pela Universidade Estadual de Campinas, Luiz Augusto Horta Nogueira, afirmou que “todo gás carbônico emitido pelos veículos movidos a álcool é reabsorvido pelas plantações de cana-de-açúcar. Isso faz com que as emissões do gás sejam reduzidas. Além disso, a grande diferença em relação ao petróleo é que o etanol usa o gás carbônico retirado da atmosfera pelas plantas. O petróleo joga na atmosfera o gás carbônico armazenado no solo e não o reabsorve”.

Na mesma entrevista, concedida à Revista Veja, o engenheiro destacou que “dos 19 milhões de automóveis (que circulam pelo Brasil), cerca de 13,6 milhões são movidos a gasolina. Há 200.000 carros movidos a álcool. Outros 5,2 milhões são flex. No ano passado, 85% dos veículos novos saíram de fábrica com motor flex. A continuar assim, em 2015, quando a frota brasileira de automóveis estiver em 30 milhões de unidades, 19 milhões serão bicombustíveis”.

No Brasil, além dos estudos sobre etanol, existem ainda pesquisas recentes em torno do bioetanol, chamado também de combustível “verde”. Atualmente, este combustível é fabricado em uma segunda geração. Assim, primeiro se obtém o etanol a partir da cana-de-açúcar. Em seguida, com os resíduos que sobraram da planta, é possível ainda produzir o bioetanol. Ou seja, ele é adquirido a partir do bagaço de cana.

Bioetanol é obtido a partir de resíduos de algodão

Ana Paula de Sousa

Larissa da Silva é responsável pela pesquisa sobre a produção de bioetanol a partir de resíduos de algodão

Em Blumenau, uma nova pesquisa foi realizada para produzir bioetanol a partir da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. A cidade é conhecida como pólo têxtil no sul do país e, por isso, as empresas blumenauenses utilizam uma grande quantidade de algodão. O estudo foi feito pela graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, e propõe usar material residual com baixo valor agregado para produzir bioetanol.

“Hoje as indústrias de Blumenau têm grandes problemas em relação ao armazenamento desses resíduos. O material é utilizado como ração de gado ou ainda, para queima em caldeiras. A ideia é fazer com que os restos tenham um fim mais sustentável e lucrativo”.

Confira mais sobre a entrevista com Larissa da Silva

Para quem não sabe, estes resíduos de algodão são a parte bruta da matéria-prima, que sobra do processo de beneficiamento têxtil. “Quando a fibra de algodão chega à indústria, ela sofre um processo de limpeza e fiação. Depois, passa por dutos que as filtram. No final, sobram as fibras muito curtas, que não são adequadas para a fabricação de tecido de primeira qualidade, além de possíveis impurezas e cascas provenientes da coleta do algodão. Este material é o resíduo que usamos na produção de bioetanol”.

A hidrólise é uma reação química, estimulada por uma enzima, e significa a quebra de uma molécula em duas ou mais moléculas. Assim, no caso da pesquisa, foi realizada a hidrólise da cadeia celulósica em unidades individuais de glicose, que são encontradas nos resíduos de algodão da indústria têxtil. “Ou seja, o objetivo do trabalho é produzir açúcar, que será fermentado para que seja fabricado o bioetanol”.

Larissa da Silva

Durante o processo de hidrólise, onde há a transformação dos resíduos de algodão em açúcar

Larissa ainda explica que por ser uma energia renovável, o bioetanol não polui tanto o ambiente quanto a gasolina. Com a produção deste combustível, fecha-se o ciclo e o CO2 é reabsorvido pelas plantações de algodão ou mesmo de cana-de-açúcar. O bioetanol pode ser usado como aditivo de gasolina, pois não é possível utilizá-lo como único combustível. “Isso porque não há plantação suficiente para suprir essa necessidade. Então, usar o bioetanol como aditivo contribui para diminuir a dependência de combustíveis fósseis”.  Tenha mais informações acessando o artigo Bioetanol de cana-de-açúcar – Energia para o desenvolvimento sustentável.

Há, certamente, muito estudo a fazer e desafios a superar em torno do assunto. Mas, do ponto de vista ambiental, não há o que questionar. Para o biólogo Sommer a pesquisa é favorável. “Essa alternativa é de fato interessante, já que Blumenau é uma cidade com vocação têxtil. Aproveitar o resíduo para a produção de açúcar seria uma solução vantajosa, porque daria uma destinação mais adequada e, principalmente, acabaria participando do fechamento do ciclo”. Confira o infográfico:

Infográfico - Ciclo Bioetanol

Bioetanol é novidade e as vantagens ainda são pouco conhecidas

Arquivo pessoal

Alessandro Salvador costuma abastecer com biocombustível

Alessandro Salvador, 31 anos, é mais um entre os catarinenses que utilizam o carro para qualquer atividade que realiza. Ele é coordenador de projetos industriais e vai e volta todos os dias do trabalho, além de ir ao supermercado, encontrar com os amigos e visitar diariamente a namorada, que mora em Timbó, cidade localizada a 30 km de Blumenau, onde Salvador reside. Nesses trechos, ele costuma abastecer o carro com álcool. Quando viaja, opta pela gasolina, que, em sua opinião, aumenta o rendimento do carro. Calcule aqui a quantidade de CO2 que você gera ao abastecer seu carro com biocombustível.

O profissional simplifica o conceito de bioetanol: “é álcool feito de vegetais”, e não faz ideia do que há por trás do simples ato de abastecer.  Hoje, no Brasil, o bioetanol é produzido a partir do bagaço da cana-de-açúcar, porém, em Blumenau, a graduanda em Química pela Universidade Regional de Blumenau (Furb), Larissa da Silva, já realizou pesquisas para a fabricação de bioetanol por meio da hidrólise enzimática de resíduos de algodão da indústria têxtil. “Entendo pouco sobre o assunto, mas sei que o uso do carro contribui bastante para o aumento do efeito estufa”, confessa Salvador.

Janaina Salsi

O uso do carro, em excesso, contribui para o aumento do efeito estufa

O professor do curso de Biologia da Furb e membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente, Lauro Bacca, tem uma visão enfática sobre o assunto. “Sem dúvida, a queima de combustíveis fósseis pelos automóveis é o principal agravante do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global”. O biólogo desconhece as pesquisas realizadas sobre o bioetanol em Blumenau. “Todo tipo de pesquisa que envolve a tentativa de conter a poluição ao ambiente representa um passo a mais na caminhada. A pesquisa é muito positiva se considerarmos que moramos em um pólo têxtil e fechar o ciclo do CO2 é o grande atenuante”.

Bacca ainda alerta que quando se fala em sustentabilidade, é importante pensar nos três Rs: reduzir, reaproveitar e reciclar. Cada uma dessas ações representa a tentativa de diminuir os agravantes ao meio. “Mesmo que muito esteja sendo feito para reaproveitar e reciclar, o principal, que é reduzir, está sendo deixado de lado. É preciso conscientizar os cidadãos para a redução e uso equilibrado dos recursos que temos em nossas mãos”.