Medos e superações

O que Blumenau aprendeu com a tragédia de 2008

Vista área do Parque Vila Germânica, afetado pela tragédia de 2008

Felipe Adam

Desde que o blumenauense nasce, aprende a conviver com o rio. É só chover um pouco mais forte que o cidadão espia se ele já encheu. Desde 1850, ano da fundação da cidade, o Itajaí-Açu se mostrou como o primeiro meio de comunicação: “Pelo relevo ser acentuado no Vale do Itajaí, a única forma de ligação com o planalto era o rio Itajaí-Açu”, conta Beate Frank, Doutora em Engenharia de Produção e integrante do Comitê da Bacia do Rio Itajaí, onde gerencia os recursos hídricos. Mais tarde, a importância econômica se tornou evidente devido à geração de energia e às futuras instalações de indústrias.

Em 161 anos, Blumenau sofreu com 70 enchentes, média de uma a cada dois anos e meio. A última, de setembro de 2011, reforçou o que se percebe a cada vez que o Vale é assolado por uma cheia: o poder da natureza. Desta vez, foram doze metros e oitenta centímetros, a maior enchente dos últimos 25 anos. As cotas do rio foram ultrapassadas e ruas, como a 1º de Janeiro, a primeira via inundada na cidade, recebeu a força das águas com 7,50m na parte mais baixa, quando o estipulado eram oito metros. O rio Itajaí-Açu mais uma vez mostrou a sua força e despertou o medo da população.

Galeria pluvial danificada na entrada da cidade em 2008

A história da família de Luiz Carlos Guimarães pode resumir esse transtorno. Como reside a 720 metros do início da rua, pegou as enchentes quando o rio alcançava a cota de 10,50m. Desta vez, foi surpreendido aos 10m. Guimarães, de 49 anos, dependia da oficina informal de máquina de lavar roupa que possui na frente de casa para se sustentar: “Levantei os móveis. Mas, mesmo assim não deu. Foram 2,80m dentro de casa, até o forro”. Luiz mora com a esposa e os três filhos: um de 14, outro de 11 e mais um de seis. Também conta que possuía 15 máquinas pra vender que acabou não recuperando “Foram todas pra sucata. As minhas também. Não convinha recuperar”.

Sobre uma possível mudança de local, Guimarães acredita que se deve analisar outros fatores: “A cada dois anos se tem enchente. É apenas um período, depois logo está bom”. O morador estuda algo diferente “A ideia é fazer um segundo piso. Amenizaria o sofrimento. Mas, enquanto não se tem dinheiro, é preciso esperar”.

Para se ter uma resposta rápida, é necessário ter experiência na ocasião. E Blumenau demonstrou rapidez na forma como conduziu a recuperação, tanto na administração da cidade como na força de seu povo.

Em uma semana, tudo estava limpo. Assim como a casa de Luiz. A casa ficou dois dias embaixo d’água e logo que foi baixando, aproveitou para lavar a casa. Mas, em alguns pontos, a prefeitura pecou. A falta de um monitoramento moderno e uma medição automática foram os principais problemas apontados. A administração se defende e diz que elaborou, em 2009, um projeto que compreende 30 estações pluviométricas, um radar e uma estação meteorológica automática, já encaminhado ao Ministério das Cidades e chamado de “Sistema AlertaBlu”. Porém, não obteve retorno do Governo Federal.

Luiz é um entre tantos exemplos de famílias que foram atingidas pela enchente. As perdas foram grandes e o prazo determinado para recuperação é de um ano. Apesar das incertezas da população, Blumenau conseguiu aprender com os erros e tirou certas lições da tragédia de 2008.

Vídeo: William Bonner apresenta o Jornal Nacional direto de Blumenau, no dia 27/11/2008

Estudos geológicos orientam ocupação segura

Setembro de 2008. O Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR) ficou pronto após um estudo detalhado de dois anos. Entretanto, não chega a ser posto em prática: “O evento de novembro reforçou e apresentou uma realidade muito maior”, afirma Maurício Pozzobon, gerente de estudos geológicos da Prefeitura Municipal de Blumenau. Após a tragédia, Blumenau foi pioneira em nível nacional e criou o departamento de Geologia “O primeiro passo é aqui. A única forma de reduzir riscos é planejando”. Com uma equipe de nove pessoas, o departamento de Geologia controla o uso e ocupação dos solos, orientado pelo artigo 3º do decreto nº 9151, de 12 de abril de 2010, em que identifica as Áreas de Risco Geológico “O grande problema é a ocupação inadequada e intensiva nas encostas”, explica Pozzobon.

Pozzobon (azul) conversa com equipe de Geologia

A mesma ideia é defendida pelo geólogo Juarês José Aumond. Mestre em Geografia e Doutor em Engenharia Civil, Aumond afirma que 82% das mortes na tragédia de 2008 foi resultado da má ocupação: “Era uma tragédia contada com antecedência. A cada ano se torna mais frequente e mais intenso”. Para o geólogo, a prefeitura de Blumenau recebeu pouco dinheiro do Governo Federal e afirma que os grandes responsáveis pelas obras inadequadas são o Dnit e Deinfra: “Ocorreram duas tragédias. A primeira em 2008; a segunda, com as obras mal feitas”.

O prefeito de Blumenau, João Paulo Kleinübing, diz que o Governo Federal prometeu certa quantia ao estado e que SC é quem deveria repassar o valor aos municípios atingidos: “Nem acho que viria tanto. Creio e defendo que seja sempre o município o gestor do dinheiro, e não o estado. Só a prefeitura gastou 60 milhões de reais e na época, possuía uma boa situação financeira”. Juarês ainda explica que a prefeitura de Blumenau “está na frente”, por fazer as obras mais adequadas e impedir novas áreas de risco “A gente acha que pode mexer no rio. Não é ele que está errado, e sim a gente que ocupa indevidamente. Devemos adaptar a engenharia e a arquitetura ao modelado do terreno”. Kleinübing reforça a ideia do geólogo Aumond: “Aprendi com esta tragédia, de que se deva respeitar a natureza, pois um dia ela cobra a conta”.

Devido à aplicação correta do dinheiro, a cidade também virou referência nacional. “É impressionante a distância que Blumenau tem em relação a outras cidades do país”, destaca Beate Frank. Nos dias 21, 22 e 23 de setembro de 2011, Blumenau foi convidada a participar do VIII Fórum Nacional de Defesa Civil, realizado em Maceió (AL). No início deste ano, o Sistema Nacional de Defesa Civil criou um conselho e escolheu três cidades do país para trazer informações e criar mecanismos de defesa em âmbito nacional: Palmas (TO) foi encarregada pelos incêndios florestais; Lagoa Seca (PB) seria analisada pelas eventuais secas e Blumenau (SC) por ensinar sobre inundações e deslizamentos. A cidade catarinense também poderá servir como base para um simulado de alerta no mês de novembro deste ano. Em maio, o Sistema Nacional de Defesa Civil fez, em Salvador (BA), uma espécie de dispositivo para treinar a população contra possíveis transtornos climáticos. Blumenau já fez esse teste em três oportunidades: 2004, 2005 e 2006, sempre na Semana Municipal de Defesa Civil, realizado no mês de julho. O secretário José Egídio de Borba explica: “É um exercício interessante que visa treinar a população para enfrentar situações contraditórias”.

Áudio: Prefeito João Paulo Kleinübing afirma que experiências anteriores ajudaram no crescimento em 2008

Fiscalização é intensa nas áreas consideradas de risco

Há 4,7 km do Centro de Blumenau, encontra-se a rua Caiena. Localizada na região conhecida como “Toca da Onça”, essa via abriga, aos fundos, um morro constituído por aproximadamente 380 degraus e mais 30 improvisados. É ali, há seis anos, que o tecelão Flavio Damaratto reside, juntamente com a esposa, grávida de oito meses. É no mesmo local também, que a Diretoria de Fiscalização da Defesa Civil atuará.

Vídeo: Local onde a família de Flávio Damaratto residia

Uma equipe formada pelo gerente de fiscalização José Lázaro da Silva Junior e mais dois fiscais, Jean dos Santos e Julio Jaeger, partem em direção ao local, juntamente com o apoio de uma viatura da Polícia Militar. Como esse caso, a maioria das ações é realizada a partir de denúncias, como conta o diretor do departamento, Major Jorge Luiz Heckert: “É muita denúncia. Temos 21 fiscais divididos em duas gerências, uma pra cada lado do rio”. O Major também cita que foi a partir da tragédia em 2008 que a Defesa Civil recebeu importância: “Antes, este departamento era ligado à Secretaria do Planejamento. Aliás, antigamente a Defesa Civil era apenas uma diretoria, sendo alçada, em 2009, como uma secretaria”.

Ao saber do embargo e da posterior derrubada, Fabio não reage e aceita a ação. Natural de Xanxerê, o rapaz de 31 anos tentou a sorte quando veio a Blumenau em 2000 trabalhar como tecelão. Fabio foi morar de aluguel em uma casa no bairro Fortaleza. Pagava 500 reais, enquanto recebia de salário cerca de 900 reais. Após quatro anos, se mudou para o local atual, que segundo ele, “era mais barato”. O fiscal Jean admite: “As pessoas não entendem. Mas se cai e leva 30 pessoas, a prefeitura é a culpada”. Enquanto ouve o som das madeiras sendo desmontadas da futura casa que estava em construção, Fabio, desconsolado, afirma: “Deu um desânimo agora. Dá até vontade de voltar ao oeste. Poxa, paguei dez mil no terreno”. Lazaro o aconselha a procurar a Assistência Social e se cadastrar em algum programa.

Entretanto, a Secretaria da Assistência Social, da Criança e do Adolescente (Semascri) já está com todos os cadastros do “Programa Minha Casa, Minha Vida” fechados. A secretaria realizou a visita domiciliar ao local juntamente com a equipe da Defesa Civil. Alessandra Bonelli, diretora de Proteção Básica, diz que o parecer foi favorável para o auxílio-aluguel, uma ajuda de 300 reais por três meses até que as famílias consigam se manter. Chegando ao fim do prazo, se ainda não conseguiu se manter, pode renovar o auxílio: “Realizamos as orientações sobre o risco existente e estamos encaminhando relatório para o Conselho Tutelar, em razão do risco das crianças”.

 Áudio: Diretor de fiscalização, Major Jorge Luiz Heckert, conta sobre as características das famílias que residem em área de risco.

Problemas no pós tragédia foram constantes  

Para as famílias que foram atingidas diretamente pela tragédia de 2008, 1568 já foram contempladas com os apartamentos do “Minha Casa, Minha Vida”, programa habitacional do Governo Federal em parceria com a Caixa Econômica Federal. Mas, para chegar até aqui, o percurso foi difícil.

Uma das maiores dificuldades foi a questão dos abrigos, por diversos motivos. Entre eles, a vivência em coletividade, que causou um choque de hábitos e os problemas familiares, como usuários de drogas e violências domésticas: “Em todos os abrigos estabelecemos regras. Nós não podíamos nos omitir diante dos diversos casos. Tanto neles, quanto nas moradias provisórias, haviam reuniões constantes”, destaca o secretário municipal da Assistência Social, Mario Hildebrandt.

Outra questão que dificultou o trabalho foi o caso das famílias que se cadastraram para adquirir os residenciais e acabaram pondo à venda ou alugando as casas para outras pessoas. O gerente de fiscalização José Lázaro da Silva Júnior explica que as famílias, logo quando o terreno é embargado, são aconselhadas a irem até a Semascri. Lá, elas assinam um termo e se comprometem em não utilizar o antigo terreno para fins comerciais. Porém, alguns agem de má fé. “À medida que as casas são embargadas, elas são postas numa lista. As que possuem mais perigo são logo derrubadas. Portanto, as mais suscetíveis ao problema são justamente as casas que estão ao final da lista”.

Para Neusa Pasta Felizetti, consultora técnica de políticas governamentais, falta cumplicidade e integração das políticas públicas: “É um impasse que ninguém assume”. Neusa afirma que, dos 96 terrenos das famílias do Residencial Parque da Lagoa (primeiro residencial, entregue em 12 de novembro de 2010), 24 foram vendidos: “Se não houver política pública, se não houver conscientização da comunidade, as pessoas não entenderão a sua missão”. O prefeito de Blumenau garante que se deva investir mais nos núcleos de fiscalização: “Para mim, a Defesa Civil é uma secretaria estratégica. Eles possuem um trabalho fundamental. O que falta é trabalhar na percepção da comunidade. Se eles não tiverem isso, o retorno não vem”.

Dona Eloir recebe as chaves da presidenta Dilma

Dois empreendimentos habitacionais foram entregues no segundo semestre de 2011. Em agosto, o Residencial “Nova Casa” contemplou 96 famílias; no mês de setembro; o Residencial “Nascentes I” e “Nascentes II”, foi inaugurado com capacidade para 540 famílias. A última unidade será entregueem novembro. O Residencial“Novo Lar” terá capacidade para 256 famílias. Enquanto isso, Seu João Luiz e Dona Sônia curtem a nova casa. Moradores do residencial Nascentes I, o eletricista que conserta fogões afirma que o novo empreendimento foi um ótimo negócio, principalmente pela segurança de sua família: ”Eu nem dormia mais onde morávamos por medo. Quando chovia forte não sabíamos até quando a casa ficariaem pé. Agora posso dormir tranquilo, mais ainda por saber que a minha esposa e filhos estão seguros”.

Áudio: Secretário da Assistência Social, Mario Hildebrandt, explica como foi feito o cadastro das famílias nos residenciais

Ciclones, tornados e enchentes: Santa Catarina em alerta?

Porque este Estado é um dos mais vulneráveis às manifestações climáticas e o que a meteorologia prevê para a região nos próximos anos

Ana Paula Laux

Felipe da Costa

Renara Almeida

Robson Souza dos Santos

Rua de Itajaí alagada durante a enchente de 2008

Março de 2004. Onze mortos, 35 mil desabrigados, 40 municípios em estado de emergência. Saldo do furacão Catarina, que passou pelo Estado naquele ano, devastando a região. Novembro de 2008. Enchentes afetaram 1,5 milhão de pessoas, vitimaram mais de 100 catarinenses e desalojaram 50 mil, principalmente na região do Vale do Itajaí. Setembro de 2009. Ventos de até 180km/h, da natureza de um tornado, destruíram a cidade de Guaraciaba, no extremo oeste do Estado, afetando mais de 70 mil pessoas num raio que envolveu quarenta e cinco cidades. Como explicar a alta incidência de tornados, granizo, enchentes, e até a ocorrência de um furacão em Santa Catarina? Por que este é um dos Estados mais afetados por fenômenos climáticos no Brasil?

A região Sul é a única do país marcada exclusivamente pelo clima subtropical, que é uma mistura de clima tropical, vigente nas demais regiões do país, e temperado, sob o qual a Argentina sofre maior influência. Isto explica as temperaturas mais baixas em Santa Catarina, que levam à ocorrência de geada e neve em cidades como São Joaquim e Uurubici, por exemplo. Os ventos característicos do sul também são indicativos influenciadores. No verão predominam ventos que provocam uma alta nas temperaturas e fortes chuvas. No inverno, o popular vento sul, formado por massas frias vindas do Pólo Sul, causa sensação de frio mais intenso, principalmente nas cidades gaúchas. Este encontro geográfico dos ares quentes e frios ajuda a entender as distinções entre o clima dos estados sulinos, por exemplo, e nortistas, já que cada região apresenta suas especificidades e manifestações climáticas.

Apesar do esclarecimento científico, os números ainda assustam. Dados da Defesa Civil de Santa Catarina indicam que, entre 1975 e 2007, ocorreram 43 tornados no Estado. Dentro deste levantamento estão incluídas também as trombas d’água, que são os redemoinhos formados sobre superfície aquosa – no mar ou em rios. Segundo Gabriel Brito Costa, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Santa Catarina localiza-se em uma região subtropical, que tem o clima controlado por penetrações e choques de duas massas de ar – a massa de ar tropical marítima e a massa de ar polar marítima, de origens e propriedades físicas diferentes. “O choque entre estas massas causa desequilíbrio no tempo, tornando-o instável e suscetível à geração de várias intempéries”, explica. Então, o quadro climático catarinense é, de certa forma, esperado. “Relevo e altitude, quando há o predomínio de muitas serras e regiões montanhosas, por exemplo, e a distribuição de terra e água são os principais fatores de interação com sistemas atmosféricos em Santa Catarina, e muitas vezes determinantes para a ocorrência destes eventos extremos”, explica. Para o meteorologista, as forças da natureza que vem assustando catarinenses não fogem da normalidade, embora quem aqui viva sinta que, a cada ano, crescem as turbulências ambientais.

A influência dos fenômenos climáticos

Diorgenes Pandini

Móveis foram inutilizados em Itajaí após a enchente de novembro de 2008

Em novembro de 2008, o Vale do Itajaí registrou um período de quatro meses de chuva contínua. Rios transbordaram e afetaram sessenta cidades, matando 135 pessoas e causando deslizamentos de terra, danos no sistema de energia e água, destruição de casas e plantações e doenças decorrentes do contato com a água suja, como a leptospirose. No caso de Itajaí, as construções irregulares dificultaram o escoamento da água da enchente. Além disso, existe a impermeabilização do solo (que faz com que a água chegue com mais força em certos lugares). Juntando esses fatores com uma chuva intensa, os problemas vão se somando e resultando em tragédia.

Mas como explicar tanta chuva, por tanto tempo, estacionada por aqui? Na ocasião, uma série de fatores provocou a enchente: um aquecimento histórico do Oceano Atlântico Sul, a influência do La Niña e uma passagem de frente fria pelo Estado, que se transformou numa frente estacionária no sudeste. Mas é preciso tomar cuidado com as generalizações. Os populares “niños”, que tanto dão o que falar, são fenômenos que influenciam diretamente a temperatura do Oceano Pacífico, provocando aquecimento ou resfriamento das águas. Eles afetam diretamente o comportamento climático, causando conseqüentes alagamentos, deslizamentos de encostas e enchentes, mas segundo Sergey Alex de Araújo, professor e coordenador do laboratório de Climatologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), isso acontece em várias regiões do Brasil. “O El Niño poderá trazer forte estiagem na Amazônia, por exemplo, assim como La Niña trouxe fortes chuvas no ano passado e início desse ano na mesma região”.

Araújo afirma ainda que o aquecimento global nada tem a ver com os últimos acontecimentos climáticos: “A nossa situação agora está ligada ao El Niño e a La Niña. Pode ser que, lá na frente, façam uma correlação com o aquecimento global, e que tenhamos esses fenômenos mais severos, mas por enquanto não há nenhuma relação com os desastres”. Estes efeitos devem ser sentidos sim, mas na prática só daqui a alguns anos. Um exemplo disso é o estudo divulgado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, em outubro, afirmando que, em 10 anos, o Pólo Norte deve descongelar quase que completamente. A previsão é a de que ¼ da população mundial seja afetada por inundações.

É natural que, na iminência de catástrofes ambientais impactantes, um medo em comum floresça no inconsciente coletivo de quem vivencia este tipo de experiência. Afinal, como se comportará o clima em Santa Catarina daqui para frente? Os tornados, fenômenos de maior incidência, irão certamente continuar ocorrendo. Ultimamente, vêm sendo freqüentes as cidades catarinenses que decretam estado de emergência em decorrência de danos causados por eles. Já as médias e grandes enchentes dependem de fenômenos climáticos. “Qualquer passagem de sistema frontal que traga chuva em maior intensidade poderá ocorrer pela estrutura que nossas cidades apresentam hoje: grande impermeabilização do solo, problemas com drenagem, ocupação de áreas de risco”, afirma Araújo.

Na verdade, as condições que propiciam a ocorrência destes eventos extremos sempre existiram no Estado, assim como os próprios eventos. A mudança está, sim, nos prejuízos e na repercussão. “Muitas regiões onde antes não havia nada hoje são urbanizadas, e estes eventos tendem a propiciar perdas humanas e materiais nos locais afetados”, diz Gabriel Brito. É um indicativo do crescimento desordenado das cidades. Não é rara a construção de casas em beiras de rios ou em morros passíveis de deslizamento. “Muitas cidades se formaram em zonas de risco, ou seja, planície e inundações. O rio tem uma calha, as calhas vão enchendo e começam a transbordar”, alerta Araújo. A falta de fiscalização contribui para a degradação ambiental, porque ocorre a falta de destino adequado para o esgoto, ameaçando também a fauna local. Além disso, as pessoas também têm mais acesso à informação, numa velocidade maior e, por isso, ficam sabendo com mais exatidão e detalhamento do acontecido. “Quando eu morava em Chapecó, isso em 1986, um tornado atingiu a minha rua. Meu telhado foi parar cinco casas depois. Hoje em dia, sempre tem alguém com celular na mão para filmar, tirar foto… mas sempre houve tornado em Santa Catarina, isso é normal dessa região”, lembra Araújo.

Documentário: Águas de Novembro

Quem previne as catástrofes ambientais em Santa Catarina?

Quanto ao processo de previsão de fenômenos climáticos, a ciência dispõe de recursos como imagens de satélite, radares meteorológicos e modelos de previsão numérica, além de fazer o acompanhamento de variações bruscas de pressão atmosférica, temperatura e umidade relativa do ar. Dessa forma, pode-se desenvolver um prognóstico mais preciso para que, se necessário, emitam-se sinais de alerta à população. Oficialmente, esses alertas são dados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Os dados são repassados para órgãos estaduais – em Santa Catarina, o CIRAM/EPAGRI -, que centraliza as ações para evitar a interferência de informações.

Acesse o Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina (Grupo de Estudos de Desastres Naturais – UFSC)

Há também a ação de grupos focados na pesquisa e prevenção de catástrofes ambientais, como o Grupo Técnico Científico, com sede em Florianópolis. O GTC consiste numa equipe composta por membros de dezoito instituições catarinenses, como faculdades, centros de informação climática e a própria Defesa Civil, e tem o objetivo de fazer uma avaliação técnica das catástrofes ambientais ocorridas no Estado para, dessa forma, propor projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de natureza preventiva. São todas ações conjuntas, operacionalizadas num esforço para impedir que a população seja pega de surpresa.

“Nos juntamos e começamos a rezar”

No segundo semestre desse ano, uma tragédia trouxe pânico a uma pequena comunidade do extremo-oeste catarinense. Na noite de 7 de setembro, Guaraciaba, cidade de colonização alemã e italiana com pouco mais de dez mil habitantes, foi invadida por ventos de 120 a 180km/h, que chegaram a cortar árvores ao meio. Três dias depois, técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmaram a ocorrência de um tornado. Um levantamento da Prefeitura de Guaraciaba contabilizou a destruição total de cento e vinte residências e destruição parcial de outras cem construções, como ginásios e igrejas. Quatro pessoas morreram, e outras oitenta e nove ficaram feridas.

Fotos de Guaraciaba após a passagem do tornado

Ivone Maria Venhorst

Ginásio de uma escola completamente destruído após a passagem do tornado em Guaraciaba

O tornado, que também atuou em parte da Argentina, ganhou grande repercussão pelo fato de ter atingido núcleos urbanos. Seu processo se deu pela formação de tempestades severas e pela passagem de várias frentes pelo Estado. Giseli Primaz, estudante de 15 anos, mora em Guaraciaba e passou pela experiência. “Estava assistindo televisão em casa. Chovia um pouco e havia vento. De repente, começaram a cair pedras do céu”, lembra. Assim como a maioria dos habitantes, ela pensou ser uma forte chuva de granizo. Foi apenas na manhã posterior ao fenômeno que percebeu que o estrago tinha alcançado proporções maiores. “A cidade ficou arrasada: casas, clubes, igrejas, ginásios, escolas e até matas virgens foram destruídas”. Uma das variações notadas no tempo foi uma brusca mudança na temperatura, do calor para o frio. Ao anoitecer, o céu apresentou bordas amareladas e avermelhadas, casando com o aparecimento de relâmpagos que estouraram horizontalmente, como veias ramificando-se no céu. “Eu estava com a minha família na hora. Procuramos o lugar mais seguro da casa, a cozinha, para nos refugiarmos. Nos juntamos e começamos a rezar. Foi uma sensação horrível, momentos de puro terror”.

Sair de casa durante a passagem do tornado tornou-se tarefa impossível, pois o vento agia com uma força intensa na cidade. Eles tiveram duração de pouco mais de uma hora, e mesmo após a diminuição de intensidade a chuva persistiu. Giseli lembra que o vento vinha de todas as direções, pressionando a janela de sua casa como se fosse estourá-la, o que a fez segurar uma das janelas com um colchão. Cinthia Borsatto, 16 anos, auxiliar de escritório, conta que presenciou o momento em que a casa ao lado da sua foi parcialmente destruída. “Pude enxergar o telhado da vizinha levantar totalmente. Havia uma fumaça branca cobrindo nosso bairro. Logo, as telhas da minha casa também voaram”. Em meio ao tornado, ela se refugiou no banheiro de sua casa com os pais e a irmã de seis anos. Após a passagem, a sensação de assombro era comum. Houve queda de energia por um bom tempo – em alguns bairros a restituição demorou vinte dias, e a água faltou na maioria das casas. Foram três dias até que a prefeitura normalizasse o abastecimento de água. “Havia pessoas chorando, relutando em abandonar suas casas. Muitos desabrigados e muita destruição. Parecia um cenário de guerra”.

Resta esperar que, futuramente, o comportamento climático não sofra alteração causada pela conjunção de fatores como as sentidas nestes últimos anos. Certamente, contribuir hoje para um desaceleramento do aquecimento global, como coibir queimadas, optar por aparelhos que consumam menos energia e economizar água, entre outras medidas, trarão uma ponta de esperança para as gerações futuras, já que São Pedro não é lá muito acessível. O problema ao alcance de ser trabalhado mora nos danos já causados ao planeta, e em como iremos lidar com estas consequências num futuro bem mais próximo do que imaginamos.

Acompanhe abaixo como se dá a formação de um tornado

Infográfico: Joel Minusculi


Flargrante de tornado em Urupema, SC

O fenômeno foi gravado em 3 de dezembro de 2008, às 20h09min

Imagens: Wilson Prado

Setor Agropecuário é atingido pelas catástrofes

Além de todos os danos de infra-estrutura causados pelos desastres naturais em Santa Catarina, um setor da economia que foi bastante prejudicado é o agropecuário. Somente em Itajaí morreram 955 bovinos na enchente de 2008, mais do que a soma destes animais mortos em Blumenau, Ilhota, Luis Alves e Gaspar, que foi de 764. Em se tratando de suínos, os números são quase iguais: 62 no município de Itajaí e 60 nos outros quatro municípios.

Apesar do número alto de mortalidade destes animais, o médico veterinário Ivanor Baldasso, coordenador de pecuária da administração regional de Blumenau da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), acredita que o maior prejuízo foi o relacionado à piscicultura. “Não temos como quantificar os peixes mortos, mas a perda foi praticamente total”.

Foi também por causa da enchente que Ilhota perdeu em torno de 20% da plantação de arroz, que estava no início. Este número assusta, pois a planta é bastante resistente a inundações, já que precisa atravessar uma lâmina de água para atingir a maturidade.  “O maior problema foi a enxurrada. A correnteza destruiu a estrutura das plantações, principalmente nas localidades do Baú Central e Braço do Baú”, relata o técnico agropecuário da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Marco Túlio de Oliveira.

Guaraciaba, por sua vez, foi bastante prejudicada no setor leiteiro. A cidade é a segunda maior bacia leiteira do Estado, e cerca de 90% dos produtores rurais têm esta produção como principal fonte de renda. Segundo relatório da Epagri realizado na semana do tornado, após a data deixaram de ser produzidos, diariamente, cerca de 50 mil litros de leite. Este número se deve às máquinas de ordenha que foram danificadas, aproximadamente 270, e aos 200 bovinos mortos na catástrofe. No relatório parcial divulgado pela prefeitura no dia 12 de setembro de 2009, os danos da produção agrícola e pecuária no município chegaram a ultrapassar os R$18 milhões.

Já as chuvas de granizo, que ocorreram no final de setembro, prejudicaram fortemente as produções de hortaliças. No município de Antônio Carlos,  que é o maior produtor do Estado, 80% das famílias, em média, trabalham com hortifrutigranjeiros. Durante a madrugada do dia 26 cerca de 80% da plantação foi destruída. Em algumas localidades, inclusive, a perda foi de 100%. Em Ilhota, além da perda de 95% da plantação de hortaliças, o que chega a aproximadamente 85 toneladas, também houve prejuízo em torno de 890 toneladas de banana. Os danos aproximaram-se dos R$ 475mil.

Boa parte dos prejuízos causados no setor agropecuário foi recuperada. Do município de Blumenau, 264 bovinos foram indenizados pelo Fundo de Defesa Sanitária Animal (Fundesa), mas 63 foram rejeitados por falta de documentos, segundo Baldasso. Na agricultura, somente os produtores que têm a lavoura financiada recebem o seguro da instituição financeira, que é obrigatório para obter o serviço, mas a falta de documentos também é um dos motivos apontados por Oliveira para os produtores não receberem. Além disso, há o prazo de quatro dias para apresentar a comunicação da perda, que deve ser acima de 40% da produção. Entretanto, o técnico aponta que, no caso da enchente, todos os produtores foram ressarcidos.

Entrevista com Leandro Puchalski – “Muitas pessoas não acompanham a previsão do tempo, e aí são ‘surpreendidas’ por temporais”

Leandro Puchalski é meteorologista formado pela Universidade Federal de Pelotas. Ele trabalha na Central RBS de Meteorologia desde 1999 e, todo dia, informa telespectadores sobre as previsões de chuva, granizo, temporais e mudanças de temperatura no Estado. Nesta entrevista, Puchalski avalia o panorama do clima catarinense e as possibilidades de eventos como o furacão Catarina atingirem o Estado novamente.

1. Para muitos, o tornado ocorrido em Guaraciaba este ano tomou proporções maiores e não esperadas. Até que ponto é possível prever a intensidade destes tornados? Este tipo de evento é mais noticiado nos dias de hoje ou vem realmente aumentando com o passar dos anos?

R. O forte temporal que ocorreu no estado no dia 7 de setembro passado foi amplamente divulgado com dias de antecedência por vários meios de meteorologia do Estado. Muitas vezes, as pessoas não acompanham a previsão do tempo, o que é perfeitamente normal, e aí sim são “surpreendidas” por temporais. Esse tipo de condição do tempo é perfeitamente previsível com a tecnologia que hoje a meteorologia no Brasil possui. Eventos como tornados já começam a ter uma outra realidade. Esses eventos extremos ocorrem de nuvens fortemente carregadas que chamamos de cumulunimbus, que têm potencial para desenvolver um tornado, mas que felizmente apenas 1% realmente desenvolve. Então para se prever o tornado, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, há necessidade de se esperar a nuvem se formar e, só depois disso, monitorá-la para ver se vai ou não produzir o tornado. A ferramenta para isso se chama radar dopler, que infelizmente não temos em operação com facilidade no Brasil. Portanto, hoje em dia nenhum meteorologista vai informar a previsão de tornado, mas vai informar a previsão de forte temporal com granizo e rajada de vento, que é uma informação que a população pode tirar grandes proveitos no intuito de evitar estragos.

2. Em novembro de 2008, a região do Vale do Itajaí enfrentou uma das piores enchentes de sua história. Este ano, a mídia vem noticiando a ocorrência constante de frentes frias atravessando o Estado, e a incidência de chuvas fortes nesta mesma região. Há uma intensificação quanto à quantidade e volume de águas que atingem Santa Catarina nestes últimos anos, ou o clima comporta-se de forma equilibrada e esperada? Pela sua geografia, o Vale do Itajaí será sempre uma região constantemente propensa a enchentes?

R. Quando se entra no assunto de clima, não de tempo, que são coisas diferentes, temos que ter muito cuidado para afirmar que uma região está tendo uma mudança para mais ou para menos dos volumes de chuva. Para se assegurar uma mudança climática em Santa Catarina, é necessário avaliar um período de pelo menos cinquenta anos para ver se realmente, ao longo desse período, a chuva aumentou ou diminuiu. Num período menor, corremos um grande risco de analisar uma exceção como regra, já que a natureza, ao longo dos anos, já apresentou períodos de muita chuva e outros de pouquíssima, voltando logo em seguida à normalidade da região. O que ocorre nesse ano em nada tem haver com mudança de clima, apenas com o El Nino, que quando atua aumenta a chuva no sul do Brasil. Portanto, podemos dizer que essa chuva acima da média nesse ano é completamente esperada, já que se tinha a previsão de um El Niño para 2009. Em relação ao Vale do Itajaí, podemos dizer sim, que essa é uma região mais propensa a enchentes devido a sua geografia. Na região, temos rios que sobem quando temos muita chuva e, além disso, a proximidade com o litoral faz com que a umidade vinda dessa região em contato com os morros facilmente forme nuvens de chuva.

3. Até que ponto fenômenos como o aquecimento global, o El Niño e La Niña influenciam negativamente o clima no Estado? Estes agentes de alteração climática podem explicar o aumento da média de chuvas e tornados nesta região?

R. Com toda certeza eventos como El Niño e La Niña alteram a chuva no Estado. O primeiro aumentando, e o segundo sendo responsável por fortes secas. No aspecto mudanças climáticas também, mas com a ressalva que há a necessidade de um estudo bem maior, com maior período histórico, para se saber o que realmente afeta. Aqui vale lembrar que esse é um assunto de discussão científica, portanto ainda no grau de hipóteses. Uns cientistas dizem que sim e outros que não. Os que falam que sim, afirmam que eventos extremos serão cada vez mais freqüentes devido a maior quantidade de energia disponível na atmosfera através do aquecimento. Os que falam que não, afirmam que a terra passa naturalmente por períodos de aquecimento e resfriamento ao longo da história.

4. Quais as previsões climáticas num futuro próximo para os catarinenses? Há possibilidade de ocorrência de um novo furacão Catarina, por exemplo, ou aquele foi um fenômeno isolado?

R. A previsão até o final do ano é da atuação do El Niño, ou seja, chuva acima da média em cada mês. Sobre o furacão Catarina, podemos dizer que foi um fato extremo que até então nunca tinha ocorrido. Fatos extremos não ocorrem regularmente, portanto, sem previsão de ocorrência a curto e médio prazo. Ao longo dos anos? Bom, se já ocorreu uma vez, estatisticamente poderá voltar a ocorrer.

Margens plácidas do progresso

A construção do canal extravasor de Brusque

Alain Rezini

Jean Laurindo

Em novembro de 2008, quando 1,5 milhão de moradores do Vale do Itajaí buscavam um recomeço depois das cheias e deslizamentos, parte da comunidade de Brusque (SC) foi surpreendida por não sofrer efeitos tão severos. A cidade também estava entre as mais atingidas, mas um projeto que se estendeu por 20 anos livrou o Município de maiores danos com o excesso de chuvas.

O canal extravasor foi construído entre os anos de 1998 e 2006 e consiste no alargamento das margens do Rio Itajaí-Mirim para que as águas não invadam as casas. Assim, quando o nível do Rio alcança maiores índices, a cidade tem uma área maior para que as águas subam sem expor os moradores a qualquer risco. O canal consegue proteger as áreas vizinhas com o Rio até oito metros acima do nível normal.

O projeto auxiliou muitas famílias, que até então tinham suas casas invadidas a cada enxurrada, principalmente no bairro Santa Rita. “O canal extravasor ajudou muito aqui na nossa casa, porque sempre que chuvia um pouco mais forte, toda a família tinha que tirar as coisas e levar pra casa de parentes”, relembra o morador Rafael Leoni, de 20 anos.

Embora o projeto inclua a construção do canal extravasor em boa parte do leito do Rio Itajaí-Mirim, a primeira etapa estruturou a solução em um trecho de seis quilômetros – situado entre a Ponte Antônio Maluche, no bairro Maluche e a Ponte Santos Dumont, na localidade de Santa Terezinha.

O Secretário de Planejamento de Brusque, Alexandre Gevaerd, destaca que a construção incluiu ainda a elevação de três pontes pertencentes ao trajeto reconstruído. “Fizemos alterações na estrutura e os pilares ficaram maiores, o que cria uma área de vazão maior para a água do rio”, explica.

De acordo com o Secretário de Planejamento, a ideia surgiu em 1986, quando a Prefeitura de Brusque buscava uma solução para manejar as bacias hidrográficas da região. Entretanto, o primeiro projeto efetivo da construção do canal surgiu em 1990, através de uma empresa de Curitiba (PR).

No período de desenvolvimento, o projeto despertou muita discussão no cenário político e social da cidade. Ambientalistas e parlamentares participaram dos debates que definiam parte das etapas da construção. Apesar de algumas polêmicas, a obra foi realizada sem maiores intervenções de entidades de preservação.

Um dos principais defensores da obra, o então prefeito Ciro Roza comandava a cidade em 1990, quando o projeto foi criado. Em 2006, ao término da obra, Roza estava novamente na administração da cidade e fez questão de inaugurar a estrutura.

Entre os bairros mais beneficiados pela solução estão o bairro Centro, Santa Rita e Santa Terezinha. O diretor da Defesa Civil de Brusque, Elizeu Muller Júnior, revela que a obra resolveu bem a questão até certo nível do rio. “Não é a solução definitiva, mas melhorou muito a situação das cheias na região central da cidade”, observa.

O projeto do canal extravasor recebeu recursos do Governo Federal, Estadual e Municipal. A íntegra do projeto previa a construção do canal em 26 quilômetros de extensão e incluía amplos reparos em três pontes e viadutos.

Veja o vídeo sobre o assunto:

Obras salvam Brusque de desastre


Trâmite e sobrepreço

Durante as quase duas décadas de tramitação do projeto nas esferas do poder público, a obra sofreu várias reviravoltas. A questão orçamentária foi uma das principais dificuldades. O montante de verbas já liberado para a execução é superior a R$ 64 milhões. Em comparação com os seis quilômetros já finalizados, o custo médio foi de R$ 10,6 milhões por quilômetro.

Uma auditoria realizada pelo Ministério da Integração Nacional em 2004 aponta seis irregularidades de nível graves no contrato assinado com a União. São elas: irregularidades no processo licitatório; sobrepreço; projeto deficiente; alterações indevidas no projeto; superfaturamento e ausência de cadastramento de contrato ou convênio no Sistema de Administração de Serviços Gerais (Siasg).

O relatório não recomenda a continuidade do projeto em cinco das seis faltas citadas acima. Outro dado que intriga é o histórico de fiscalizações orçamentárias e de execução. Nos anos de 2001 e 2002 não houve nenhum tipo de acompanhamento, só retomado em 2003.

A auditoria também revela que a Prefeitura de Brusque solicitou dispensas de licitações para a sequência das obras em caráter de emergência. Foram quase R$ 3 milhões para um quilômetro da via, ainda que a obra tenha sido inaugurada somente em 2006.

Em função dos entraves, o projeto foi discutido durante muito tempo até que a verba completa fosse liberada. Serafim Venzon, deputado federal na maior parte de tramitação do projeto, declara que acompanhou de perto todas as etapas de aprovação do programa. “Sabíamos da importância desse projeto e hoje o reconhecimento mostra que valeu a pena”, discursa.

O agora deputado estadual ainda recomenda o projeto para outras cidades que sofram com problemas de cheias e enxurradas. “Já discutimos um projeto em Itajaí, onde sugiro que seja feita essa ampliação das margens e sejam construídas áreas de lazer para a comunidade nas áreas destinadas a vazão do rio”, sugere.

Confira a editoria completa aqui.

Trânsito

Como era necessário criar soluções na área ambiental para garantir a segurança da comunidade, o projeto foi alterado para que pudesse ser também uma solução para o trânsito da cidade. As áreas que margeiam o rio não devem ser ocupadas por casas, justamente para que possam servir para acumular água em caso de cheias. Então, os responsáveis pela construção decidiram criar duas rodovias nos locais para melhorar o fluxo de veículos no Centro de Brusque.

O secretário de Planejamento reconhece que esse é um dos principais diferenciais da obra. “Podemos dizer que valeu a pena construir o canal pela questão ambiental e também pelo alívio ao trânsito na região central que as avenidas permitiram”, comenta.

Ele admite ainda que a Prefeitura já se mobiliza para estender a ideia do canal extravasor para outras áreas do Município.

Para o técnico de operações da Defesa Civil de Blumenau, José Corrêa de Negredo, que coordena estudos das bacias hidrográficas da região, a obra foi positiva para Brusque. “Sabemos que foi um projeto que beneficiou muito a população de algumas regiões”, confirma.

O outro lado

Embora a parte central tenha sido beneficiada com o canal, a construção só contemplou a margem direita do Rio. Moradores das localidades da margem esquerda ainda estão sujeitos aos prejuízos de novas cheias. Problemas ambientais e de repasse de verbas são os principais empecilhos para a continuidade da obra.

Gevaerd aponta que existe preocupação com a comunidade local, mas que ainda não há previsão para conclusão das obras do outro lado do Rio. “Sabemos que é importante integrar essas localidades e protegê-las do risco de novas enxurradas”, reconhece.

Outro ponto negativo do projeto está na estrutura das novas margens do Rio. Como os locais foram readaptados, precisariam de uma estrutura mais sólida. “Hoje temos consciência de que algumas áreas não foram totalmente estruturadas para receber o canal. Tanto que hoje sofrem com algumas erosões”, admite.

Moradores e comerciantes da margem esquerda do rio, esperam pela conclusão daquele lado, pois a obra começou, mas está parada há algum tempo. “A gente espera uma solução pra esse problema rápido, porque, muitas pessoas, como eu, terão a casa engolida pelo rio do jeito que está”, alerta a moradora Julieta Campos, cuja casa está a beira do rio.

O empresário Ismael Coelho acompanhou os primeiros meses da construção por meio de empresa Geosul Topografia. Ele aponta que os locais deveriam receber o serviço de enrocamento – suporte aos morros feito com paredes de pedra. “No entanto, a Prefeitura de Brusque dispensou esses serviços e resolveu assumir o risco”, lamenta.

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Efeito Dominó

Se por um lado o projeto do canal extravasor facilitou o cotidiano dos cidadãos de Brusque, moradores de outras cidades da região não veem a obra pelo mesmo viés. Isto porque a maior vazão permitida pela construção faz com que o município do litoral seja atingido com maior intensidade pelas águas do Rio Itajaí Mirim.

O diretor da Defesa Civil de Brusque, Elizeu Muller Júnior, admite que o canal agrava bastante a situação de Itajaí. “Para se ter uma ideia, o mesmo volume de água que demorava oito horas para ir de Brusque a Itajaí hoje chega em duas horas e meia”, revela.

Ambientalistas defendem que essa alteração foi a principal causa dos problemas sofridos por Itajaí em novembro de 2008. Como chovia forte em Brusque e Vidal Ramos, nascente do Rio Itajaí-Mirim, a água acumulou de forma que a vazão do canal fluísse mais rápido que o normal. “Ficou comprovado que foi por isso que a enchente foi tão severa em Itajaí”, ressalta a professora Beate Frank, que coordena os estudos hidrográficos do Comitê do Itajaí.

Ela admite que não acompanhou os detalhes do projeto, mas já identificou desvantagens. “A Prefeitura de Brusque quis fazer a obra a portas fechadas”, critica.

Para o diretor, isso ocorre porque o projeto não teve continuidade. “O canal é apenas um item do amplo projeto ambiental previsto para a contenção de cheias no Município. O problema é que muita coisa não teve evolução”, destaca.

A solução do canal extravasor foi um pequeno passo dentro do desafio de reestruturar as bacias hidrográficas do Vale do Itajaí. O próximo passo já está visível aos olhos da comunidade e, inclusive, do poder público: fortalecer a margem esquerda do Rio.

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