Sol: energia para o futuro

Apesar de termos sol em abundância, ocupamos pouco esta fonte de energia que reduz problemas ambientais e gera economia considerável.

Marina Kuwahara

Rosana Radke

Ao entrar no Conjunto Habitacional Pró-Morar III, no bairro Cidade Nova, em Itajaí (SC), se avista algo diferente no telhado de quase todas as casas. Sobre as telhas, placas de vidro revestidas com alumínio refletem o brilho do sol.  “São para captar o calor solar e aquecer o chuveiro das residências”, explica a moradora Gisele Ribeiro. O aparato moderno e ecológico, instalado em junho deste ano, contrasta com a pobreza do local. “Nem sei como funciona, mas desde que instalaram minha conta de luz baixou. E o melhor é que disseram que agora estou contribuindo com o meio ambiente”.

O projeto, implantado em junho deste ano, é uma parceria entre a Companhia Catarinense de Energia Elétrica (Celesc) e a Companhia de Habitação de Santa Catarina (CohabSC).

Além dos gastos, a energia hidroelétrica gera sérios problemas ambientais, que poderiam ser evitados se o país investisse em fontes de energia renováveis, como a energia solar. “A energia que vem do sol é inesgotável e não polui, mesmo assim, há poucos investimentos nesta área no Brasil. Ela poderia ser melhor aproveitada”, afirma o físico Carlos Daniel Ofugi Rodrigues.

Os coletores solares instalados no bairro Cidade Nova servem somente para aquecer a água do chuveiro. Mas o desligamento apenas deste aparelho já faz uma diferença considerável no ambiente. (Para comparar o consumo de quilowatt dos eletrodomésticos visite o site www.procel.com.br. Na visão de Ofugi, o governo se preocupa em investir na produção de energia em larga escala, como as grandes usinas, mesmo que esta não seja a alternativa mais apropriada para o desenvolvimento sustentável.

As famílias que moram na rua das casas com “espelhos no teto”, como a chamam as crianças do local, já sentem a diferença na hora de quitar a conta de luz. “Antes pagávamos em torno de R$ 90,00, depois da instalação chegamos a pagar R$ 33,00 conta Cláudia Rosani Dill, moradora do bairro. Assim como Cláudia e Gisele, outros 230 domicílios de Itajaí receberam coletores solares para diminuir o consumo de energia.

Rosana Radke

Cláudia Rosani Dill. Ao fundo, o coletor solar instalado em sua casa

Mesmo com água em quantia considerável em nosso país, é preciso se pensar em maneiras de economizar energia hidroelétrica. “A água é um recurso findável, e com as mudanças climáticas, o mercado está cada vez mais carecendo de energias alternativas”, afirma o gerente da Celesc, de Itajaí, Hélio Decacio de Souza. De acordo com Decacio, em agosto deste ano, o município de Itajaí gastou 37.117.574 KW de energia. “É um número alto. E isso significa que para abastecer a cidade, dezenas de hectares foram inundadas”.

Decacio acredita que se a instalação de coletores solar fosse ampliada a outros bairros da cidade, a redução do consumo poderia chegar a mais de 5%. “Só não se reduziria mais porque este tipo de placa serve apenas para aquecimento de água, e o maior consumo de Itajaí está nas grandes empresas. Só em agosto foi de 17.881.036, nos chamados consumidores de alta tensão. Mas em residências, a economia na conta da luz quase sempre é superior a 30%”.

De acordo com o engenheiro ambiental Sandro Rogério Urban, as placas para aquecimento de água chegam a custam R$ 600. “Se o consumidor se interessasse por instalar coletores mais avançados – para captar energia em todos eletrodomésticos e eletrônicos – o custo seria bem mais alto, porque neste caso é preciso placa de silício. Como o material é muito caro, o retorno demoraria muito a vir, mas utilizar o calor no aquecimento de água já é um ótimo começo”.

Se a maioria da população soubesse o quanto reduziria os custos com energia elétrica e o quanto ela contribui para a preservação do ambiente, é provável que aumentassem o número de adeptos aos coletores solares. Conforme afirma o economista José Gentil Schreiber, “As placas de captura trazem grande economia nas residências, e o custo de instalação é baixo”.

Abundante na natureza, o sol tem energia de sobra em quase todos os continentes. O Brasil, com predominância do clima tropical, poderia facilmente tirar proveito desta energia inesgotável. De acordo com o site www.ambiente.ambientebrasil.com.br o sol oferece anualmente 10.000 vezes a energia consumida pela população mundial no mesmo período. Além disso, para cada metro quadrado de coletor solar instalado evita-se a inundação de 56 metros quadrados de terras férteis.

Cansado de pagar valores altos pela conta de luz, o técnico em mecânica José Martinho Telles Filho, morador de Itajaí, resolveu inovar. Com a ajuda da internet e dos conhecimentos que possuía, elaborou um modelo de aquecimento para água do chuveiro. Com material caseiro e barato, construiu um aparelho de captura de calor do sol que diminuiu de forma considerável a conta. “Desde a instalação economizo em torno de 30 %”, conta Telles.

O técnico afirma que decidiu implantar o sistema porque além de reduzir os gastos da família, também estaria contribuindo com o ambiente. “Nunca tinha visto alguém construir algo assim, mas depois dos sustos com as contas de luz, tive que encontrar uma alternativa tanto para enxugar meu orçamento, como para amenizar os impactos no ambiente”.Telles construiu o modelo em 2006, e investiu R$ 300, valor que recuperou em menos de oito meses. “O mais caro foi a caixa de água, o resto dos materiais era de baixo custo, como isopor e placas de PVC”.

Aprenda passo a passo como fazer um coletor no site: http://www.sociedadedosol.org.br/arquivos/asbc-br-jul09v3-0.pdf.

Enquanto no Brasil sistemas caseiros são utilizados de forma precária, a Alemanha, mesmo com clima gelado, é o país que mais investe em energia solar. “Na Europa há um cuidado bem maior em relação ao desenvolvimento sustentável. Na Alemanha, por exemplo, o governo incentiva habitações que priorizam o cuidado com o ambiente”, explica Urban.

Confira o infográfico abaixo:

Fonte: National Geographic

E quem pensa que a energia solar é útil somente em dias de sol se engana. Ela é eficiente mesmo em dias chuvosos e nublados. “É claro que quando há menos sol o aquecimento da água é mais demorado e menos intenso, mas nada que a torne inutilizável no inverno”, ensina Ofugi. “Além disso, somente o mormaço já suficiente para aquecer a água”, complementa.

Para Ofugi, o maior vilão numa residência é o chuveiro elétrico, e um estudo realizado pelo Centro Internacional de Referência em Reuso de Água (Cirra) da Universidade de São Paulo (USP), divulgado em abril deste ano, comprova isto. O relatório apresentado afirma que o aquecimento de água no setor residencial brasileiro representa 6% de todo o consumo de energia elétrica do país. “Imagina quanto deixaríamos de explorar água doce, que está cada vez mais rara, e devastar terras se tomássemos medidas simples, como a instalação de placas de captura de calor solar”, alerta Urban.

O superintendente da Fundação do Meio Ambiente de Itajaí (Famai), Nilton Dauer diz que o governo municipal estuda a possibilidade de aumentar o número de coletores solares, para trazer economia à população e preservar o ambiente. Mas os programas de sustentabilidade ainda caminham a passos lentos. Enquanto isso, a energia que o sol traz em todas as épocas do ano se esvai a cada noite.

Lixo que gera energia

Com força de vontade e determinação de sobra, o eletromecânico aposentado José Alcino Alano, de Tubarão, criou uma fonte de energia solar alternativa, que além de reduzir custos na fatura de energia elétrica, tem o diferencial de ocupar material reciclável, como garrafas pet e caixas de leite longa vida. O projeto iniciado por José e sua esposa em 2002 foi aperfeiçoado, e as 100 garrafas pet utilizadas no primeiro aquecedor solar caseiro hoje chegam a mais de 1000 em coletores solares maiores.

Sem formação acadêmica, mas com muito empenho, o aposentado conta que na época da invenção começou a ler sobre o tema e pensar em algum modo de aproveitar a energia solar. Ele e sua família costumavam guardar as embalagens plásticas e o acúmulo foi inevitável. Então, surgiu a ideia para dar outro destino ao material.

www.strallos.com.br

Jose Alcino Alano mostra o coletor solar que construiu

Com entusiasmo, Alano comenta que além de aquecer a água do chuveiro, o coletor solar também é utilizado na pecuária – para a limpeza de galpões e para a higienização dos instrumentos utilizados na ordenha. Outra aplicação é no aquecimento de piscinas.

Ao falar sobre seu projeto, o aposentado ressalta a necessidade de todos ajudarem a cuidar do meio ambiente. “Lamento que as grandes invenções humanas tenham sido feitas em períodos de guerra, sob pressão. Tenho certeza que temos capacidade de desenvolver várias alternativas como esta, mas infelizmente a tecnologia ainda não está sendo aproveitada como deveria e a maioria das pessoas sabe da situação ambiental, mas faz  pouco para mudar”.

Confira a enquete:

Em 2004, o projeto de Alano ganhou reconhecimento público – a invenção recebeu o “Prêmio Superecologia”, da revista Superinteressante. Depois do sucesso do sistema, o projeto passou a contar com o apoio do governo. Em 2009, a Companhia Catarinense de Energia Elétrica (Celesc) fez um convênio de cooperação técnica para difundir os aquecedores solares produzidos com materiais descartáveis. Intitulado como “Energia do Futuro”, a iniciativa possibilita a reciclagem direta, sem qualquer processo industrial e pretende beneficiar comunidades carentes.

Fonte: www.sosriosdobrasil.blogspot.com

Coletor solar construído com garrafas pet

O idealizador do aquecedor ecológico conta que até agora, o sistema já favoreceu mais de seis mil famílias somente no Paraná. “Foram produzidos e instalados aquecedores em 254 dos 399 municípios paranaenses, retirando do meio ambiente mais de 2 milhões e 400 mil garrafas pet e caixas de leite”.

Alano comenta que em Santa Catarina, em torno de sete mil aquecedores foram instalados, e existem trinta e três projetos patrocinados pela Tractebel Energia SA., através do Comitê de Sustentabilidade, com a colaboração do Rotary Clube e da comunidade em geral.

De acordo com o engenheiro ambiental Sandro Urban, o aparato pode diminuir em mais de 30% o consumo de energia. “Enquanto essas garrafas vão para a terra e demoram 1000 anos para se decompor, fazendo parte do aquecedor solar elas deixam de agredir a natureza”. A única observação feita pelo engenheiro é o clima chuvoso, que pode diminuir a potência do coletor.

E, para quem ficou interessado em confeccionar seu próprio coletor caseiro, Alano indica as instruções no manual “Água quente para todos”. Com a “popularização” do projeto, a rotina do aposentado mudou. Hoje, ele e sua esposa passam a maior parte do tempo em viagens por todo o Brasil. O casal voluntário apresenta o aquecedor solar e mostra que com força de vontade é possível transformar até mesmo lixo em fonte de energia.