Extração de areia no Vale do Itajaí

Os impactos ambientais causados por essa atividade mineradora

Déborah Carolina Klug Moreira
Márcia Gabrielle Ravasco
Marina Dutra Garcia as Silva

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Dragas de sucção autotransportáveis

“Morei na Ilhota, as margens do Rio Itajaí-Açu e convivi com ele até 1966. Eu tinha 12 anos. Faz tempo. Era um rio limpo e lembro que tínhamos um trapiche e que meu pai tinha uma batera. Sempre aos finais de semana, quando tinha sol, eu e ele saíamos para andar de batera e pescar.” As lembranças de Maria de Fátima, 56, são semelhantes às de muitos catarinenses, moradores do Vale do Itajaí-Açu. A delegada civil teve a infância marcada pelo rio. O pai tinha o hábito de pescar com “fisga”, espécie de garfo de três dentes. À noite, ele e amigos iluminavam a água, e quando viam o peixe jogavam a tal fisga. “Como índio pescando. Para variar, nunca me levavam. Mas sempre voltavam satisfeitos e com peixe para limpar.”

A ligação de Fátima com o rio não é à toa. O pai, mecânico, era chamado com frequência para consertar os motores das barcaças que tiravam areia do leito do rio. Sempre tinha trabalho e vendia muita areia. A delegada conta que caminhoneiros, moradores da serra do estado, ao passarem por Ilhota, pegavam frete de areia para levar para suas cidades. Para eles, a areia era boa para a construção de alvenaria.

Hoje, o rio Itajaí-açu é a principal fonte de extração de areia do Vale do Itajaí. Angelina Coelho é acadêmica do curso de Oceanografia da Univali, e estagiária do Laboratório de Oceanografia Geológica. Há TANTO TEMPO iniciou um estudo que apresenta o panorama quantitativo e qualitativo da atividade de Extração de Areia no Vale do Itajaí. O trabalho aborda a mineração de areia em suas diversas aplicações e os impactos ambientais que causa.

Na primeira fase do seu estudo, já concluída, Angelina cita o artigo “PERFIL AMBIENTAL QUALITATIVO DA EXTRAÇÃO DE AREIA EM CURSOS D’ÁGUA” de Leandro Camilo de Lelles, Elias Silva, James Jackson Griffith, Sebastião Venâncio Martins, publicado no ano de 2005, para explicar as formas de extração de areia no Vale. A extração é feita principalmente no curso d’água do rio Itajaí-Açu.  Essas dragas podem ser fixas (Beaver) ou autocarregáveis móveis e possuem a finalidade de escavar e remover areia submersa, transportando-a, através de tubulações acopladas ou balsas de estocagem temporárias, para locais previamente selecionados, respectivamente.

De acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral, o DNPM, em 2005 o estado de Santa Catarina produziu 6.368.644 m3 de areia bruta e 687.736 toneladas de Areia Industrial. A comercialização do produto gerou, no total, R$ 113.174.483. Abaixo, o gráfico demonstra os índices da produção catarinense de areia e areia industrial entre os anos de 2001 e 2005.


Evolução da produção catarinense de Areia 2001-2005

Santa Catarina é responsável pela maior parte da produção de areia bruta e industrial do Sul do país. A atividade é positiva para a economia da região. No entanto, toda atividade de extração gera impactos no meio ambiente. O Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, na Resolução nº 1 de 23 de janeiro de 1986, define impacto ambiental como:

Qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente afeta: a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; e a qualidade dos recursos ambientais.

Em sua pesquisa, Angelina avaliou impactos positivos e negativos da extração de areia no Vale do Itajaí, com base em cinco pontos de extração, nas cidades de Rodeio, Blumenau, Gaspar, Ilhota e Itajaí. O estudo ainda está em andamento, e os impactos identificados pela acadêmica devem ser confirmados por um estudo minucioso e um acompanhamento mais frequente das áreas analisadas.

a) Impactos Positivos
1. Geração de empregos;
2. Aquecimento da economia local;
3. Ausência de assoreamento do leito lótico devido à remoção de material (areia);
4. Aumento da receita dos governos estaduais e, principalmente, municipais, por conta do arrecadamento, por parte deles, da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM);
5. Aumento da oferta de areia na região e a consequente melhoria da qualidade de vida pelo uso deste material nos diversos fins a que se destina.

b) Impactos Negativos
1. Aumento da turbidez (partículas em suspensão) no curso d’água em função dos processos erosivos causados nas margens;
2. Aumento da turbidez (partículas em suspensão) por conta do reviramento do leito lótico durante a extração do material (areia);
3. Alteração da geomorfologia do leito lótico;
4. Possível interferência na direção, velocidade e vazão do rio, por conta da remoção dos bancos de areia no leito;
5. Supressão da vegetação ciliar;
6. Incidência de processos erosivos como resultado da supressão da mata ripária, aumento desordenado da profundidade do rio e compactação (pisoteamento e tráfego de maquinarias) do solo no entorno do empreendimento;
7. Danos a microbiota do solo pela maior exposição, causada pela supressão vegetal, deste ao intemperismo;
8. Redução, em área, do hábitat das espécies endêmicas da região explorada;
9. Considerável redução da fauna aquática em função dos movimentos causados pelas dragas de sucção;
10. Redução da riqueza e abundância faunísticas do ambiente lótico explorado;
11. Impacto visual causado pela instalação do empreendimento de extração de areia.

Gabriel Santos de Souza, Gerente de Desenvolvimento Ambiental da Fundação do Meio Ambiente de Itajaí, a FATMA, explica que os impactos ambientais acontecem em maior escala se a extração for feita em desacordo com a legislação. A FATMA é a entidade responsável pelo licenciamento ambiental, ferramenta utilizada pelo poder público para controlar a atividade. Em entrevista, Gabriel declara: “toda atividade (de extração) causa degradação ambiental, independente da forma como ela é tratada. Então nós queremos é minimizar isso, tentar trazer um desenvolvimento sustentável”. O controle da FATMA visa garantir que as próximas gerações ainda tenham acesso ao mineral, sem que haja grandes prejuízos ao meio ambiente.

Apesar de a FATMA confirmar os impactos da extração, Ana Denice, responsável pela empresa Maiomaq Terraplanagem Ltda., que realiza este trabalho no município de Itajaí, acredita que não há dano ambiental algum, pois a empresa possui as licenças para operar.

Ainda segundo Gabriel, há muitas empresas que realizam a extração de areia no Alto Vale do Itajaí. Todas elas devem atuar conforme orientação e com permissão do órgão. Do contrário, a empresa “pode ter a licença suspensa, levar multa de acordo com as infrações ambientais”. Caso seja caracterizado crime ambiental ou minerário, a empresa pode ser paralisada e  perder a  licença, inclusive. As multas variam entre 500 reais e 5 milhões de reais.

Cumplicidade com o rio

(poema da entrevistada Fátima, dedicado ao rio)

Era assim,

a liberdade parecia estar sempre do meu lado.

Quando amanhecia e as gotas do orvalho ainda refletiam a luz do sol que chegava, eu estava lá, olhando o rio que silencioso se movimentava gigantesco no meu olhar de criança.

Sentia o nariz gelado do frio e tentava encontrar a resposta para todos os mistérios que me assustavam e faziam parte do meus pensamentos.

O meu mundo, o mundo que eu tinha disponível era gigantesco, imensurável.

Inúmeras vezes, eu me transportava nas canoas da minha imaginação aos lugares que queria conhecer e buscava saber do destino que teriam aquelas águas, aparentemente tranquilas. Então, ingênua e inocente, jogava garrafas lacradas com mensagens e meu endereço, acreditando que fariam contato comigo. Nunca obtive respostas… Lembro dos dias que ficava solitária junto ao pé de chorão sonhando e esperando. Somente o velho rio sabia dos meus segredos.

Quando o cansaço tomava o lugar dos sonhos, eu corria entre as árvores do quintal da minha infância, brincava com as sombras que se formavam e, vencida pela espera, buscava enfim a segurança da minha casa, acreditando que novas aventuras aconteceriam no dia seguinte.

De tudo, apenas o rio restou, misterioso e desafiador.

Eu sentia orgulho do meu rio e da cumplicidade que tínhamos um com o outro. (Fátima 17.06.2010)

Saiba mais:

Entrevista com empresa de extração:

Entrevista com Gabriel Santos de Souza da FATMA

Ilhota quer sustentabilidade

Especialistas apontam alternativas sustentáveis para a região dos Baús

Carina Carboni

Luana Lemke

Defesa Civil de Ilhota/divulgaçao

Em novembro, tudo resumiu-se em barro, desespero e prejuízo no complexo do Baú.

“Naquela noite a casa estremeceu e a gente ouviu aquele estouro. Quando saí à rua, logo vi aquele clarão do outro lado do morro. Até pensei que fosse um posto de gasolina que tinha explodido”, lembra Antônio Laurindo que após esse episódio e, principalmente os que o sucederam, passou a tomar remédios para o coração.

Essa fala é comum pelos arredores do Morro do Baú, no município de Ilhota/SC, onde muitos moradores tiveram suas casas e familiares soterrados pela lama dos desmoronamentos trazidos pelas chuvas de novembro de 2008. Desde então, o rio que percorre as proximidades do Alto Baú, Alto Braço do Baú, Braço do Baú, Baú Central, Baú Seco e Baú Baixo mudou o seu trajeto. Alguns lugares, onde antes havia plantações de arroz, hoje dão lugar a grandes lagoas. As bananeiras já não oferecem o mesmo número de cachos e onde antes havia casas, o vermelho do barro ainda impera.

Veja mais sobre isso aqui

Alguns sobreviventes alimentam a crença de que a explosão da tubulação do Gasoduto Bolívia-Brasil na noite daquele domingo, dia 22, teria afetado a estrutura do solo local e provocado os deslizamentos, que foram inéditos para os habitantes dali. “Eu penso que a explosão tenha piorado o caso porque até aquele momento, nunca tinha sido visto nada igual. Deve ter alguma relação, pois logo depois teve o primeiro deslizamento”, conta outra moradora que prefere não se identificar. Saiba mais sobre o gasoduto no Jornal do Sicepot/SC

Mas os milhares de anos do topo daquela montanha tornam a área naturalmente instável para a geóloga Karel Jockyman. Ela diz que a explosão, ocorrida na região do município vizinho de Gaspar, não teria como provocar os deslizamentos do Baú. “É difícil entender que existem tempos geológicos que levam a uma erosão natural do solo, quando se nasceu e cresceu num lugar e nunca se tenha ouvido dizer nada a respeito de grandes desmoronamentos”.

Para a pesquisadora, que há seis meses estuda o local, não é possível responsabilizar a explosão do Gasoduto pela tragédia ocorrida em 2008. Ela acredita que o solo pode voltar a ceder, com ou sem nenhuma explosão, pois há água armazenada sob ele. “Um forte indício são os pequenos orifícios na base do morro, de onde escorre água. Olhando debaixo da montanha já dá pra ver que está perigoso”.

Não é preciso ser especialista no assunto para perceber que algumas áreas do Baú estão mesmo comprometidas. A observação da geóloga, na ocasião contratada pelo Centro Universitário de Pesquisas e Desastres (CPED), pode ser confirmada em várias regiões. Inclusive nas encostas das estradas e de muitas casas que foram reconstruídas em locais bem próximos aos deslizamentos do ano anterior. Veja mais aqui

A engenheira civil Sílvia Helena de Carvalho Ribeiro, também contratada pelo CPED, lembra que há registros de desmoronamentos no complexo do Baú que datam de milhões de anos. Ela reforça a opinião da geóloga Karel ao afirmar que não será possível convencer as famílias a deixarem suas casas. “Muitos acreditam que a tragédia não voltará a se repetir”.

É importante considerar que mesmo conscientes do risco que estão correndo, a maioria dos moradores destas localidades não tem outra opção de moradia. Neste caso, projetos de sustentabilidade tornam-se uma alternativa para o município, que contabiliza 727 famílias nas seis localidades do Baú. O desafio é encontrar soluções que amenizem os danos trazidos pela erosão, para que as pessoas possam conviver com o risco, mas conscientes do permanente estado de alerta em caso de chuvas.

Karel chama a atenção para a falta de interesse da sociedade em relação a projetos sustentáveis. “Na verdade, a maior fraqueza é a falta de equipe técnica disposta a atender o Baú”. A especialista garante que podem ser desenvolvidos meios de conviver com este fenômeno natural, assim como os japoneses e outras milhares de pessoas no mundo tem convivido com os abalos sísmicos. “Acho engraçado que todo mundo me pergunta se o problema é sério, mas ninguém nunca perguntou se o caso tem solução”.

Já foram liberados 2,7 milhões de reais pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, para serem destinados à drenagem da água e, consequentemente, colaborar com uma melhora na qualidade de vida dos agricultores. A geóloga Eliane dos Santos explica que para realizar este processo é necessário manter a área vegetada com espécies de porte arbustivo e arbóreo, para aumentar a infiltração e, com isso, diminuir o escoamento.

“É preciso amortecer a inclinação das encostas que sofreram intervenção antrópica (humana). Nos riachos e córregos que existem na área, a velocidade do fluxo superficial também precisa ser reduzida. O ideal seria criar pequenas barragens para amortecer a velocidade e quebrar o desnível do leito”. Para as encostas dos morros que não possuem vegetação e que tenham sofrido alguma intervenção humana, como abertura de estradas, retirada de aterro e construção de casas, a alternativa é a construção de taludes.

Estas plataformas, que se assemelham a escadarias, já estão sendo construídas as margens da BR 470. A edificação serve para diminuir a velocidade da água, sendo indicada para locais onde a superfície de repouso possui ângulo superior a 45 graus. “Além disso, todas as águas pluviais devem ser retiradas da frente do talude, através de calhas construídas no local”, reforça Eliane.

Como medida de prevenção, os moradores também aguardam a construção de um abrigo que possa servir como rota de fuga. “Nós também temos a necessidade de um rádio para o caso de ficarmos isolados. Aqui não pega celular e a maioria dos nossos telefones, que são por satélite, deixam de funcionar com o mau tempo”, alega Tatiana Reichert, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús.


Ainda são vistos, através da janela da casa de Tatiana, os vestígios da grande destruição trazida pelos deslizamentos. A moradora conta que perdeu 14 parentes de até terceiro grau, entre eles mãe e irmã. Do quintal de sua residência aponta o local, pertinho dali, onde havia sete casas. Dez meses depois, existe apenas um terreno vazio e a espera das famílias pela reconstrução de seus lares.

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É preciso replantar

A drenagem da água não é suficiente para prevenir os desmoronamentos do Baú. Este solo é constituído principalmente por cascalho, de natureza altamente permeável. O excesso de água da chuva leva a sua erosão e o seu deslocamento pela encosta, de forma lenta e gradual. É por isso que a vegetação também precisa ser repensada. Para algumas regiões, como as das encostas próximas às estradas, a plantação de gramíneas é indicada como um meio de firmar o solo, já que esse vegetal tem raiz longa e não apresenta sobrepeso.

As espécies exóticas de pinus e eucaliptus devem ser evitadas. A bióloga Rosemere Marenzi lembra que é preciso optar por espécies arbóreas que sejam adaptáveis à condição de solo local. Entre tantas espécies vegetais ela cita plantas como a guabiroba, a aroeira, a embaúba e o jacatirão. Para solos úmidos como o encontrado na região dos Baús também são indicadas plantas como Ingá, Tucaneiro e Guarapuvú. De acordo com a pesquisadora, essas espécies têm grande valor ecológico, embora o valor econômico ainda seja pouco difundido.

A madeira resistente da guabiroba (Campomanesia xanthocarpa) pode ser aproveitada no tabuado em geral, desde lenha e carvão até a confecção de cabos de ferramentas e instrumentos musicais. Conforme Lorenzi, em sua obra “Árvores Brasileiras”, publicada em 2002, os frutos dessa árvore possuem alto valor vitamínico e podem ser consumidos in natura ou ainda aproveitados na preparação de sucos e licores. No caso da embaúba (Cecropia pachystachya), a madeira leve pode ser utilizada tanto na confecção de lápis, brinquedos e saltos de sapatos, como para o aproveitamento da polpa celulósica usada na fabricação do papel. A estrutura de peso e altura dessa planta a torna excelente para o reflorestamento de áreas degradadas.

A economia do complexo do Baú é, sobretudo, baseada na produção agrícola (bananicultura, horticultura e rizicultura) e extração de madeira. De acordo com a prefeitura de Ilhota, a agricultura representava 22% da arrecadação do município. Após a tragédia, a soma dos prejuízos chegou a 32 milhões de reais. As 124 famílias de rizicultores tiveram perda total de suas lavouras, sendo que as 54 famílias que tiravam o sustento da plantação de banana tiveram 80% de suas plantações devastadas. Hoje, muitas dessas famílias dependem da ajuda de parentes e voluntários que visitam as áreas.

Especialistas procuram apoio para desenvolver projeto de prevenção de riscos para a população do Complexo do Baú: