Portos brasileiros podem adotar modelo de navegação de portos europeus

A lama fluida, que é vista por muitos portos como um problema que gera gastos significativos, pode se transformar em uma solução bastante viável em termos de custos e ecologicamente correta para os portos de estuário.   

 João Henrique Baggio   

A navegação em lama fluída pode ser uma grande alternativa para os portos estuarinos reduzirem os custos com dragagens e se encaixa na realidade do Complexo Portuário do Itajaí. A lama fluída é uma suspensão altamente concentrada de sedimentos finos com baixa densidade que possui leve tendência de sedimentação, presente no fundo de portos situados em estuários. No Brasil a deposição desses sedimentos é vista como um problema para a navegação em portos de estuário que obriga as autoridades portuárias a investir pesadamente em dragagens para a sua retirada. No entanto, existem técnicas que permitem a navegação em lama fluida, uma solução mais prática e, principalmente, mais barata que a dragagem.   

Ronaldo Silva Júnior/Porto de Itajaí

Porto de Itajaí

Embora essas técnicas já sejam amplamente utilizadas na Europa há décadas, elas ainda são insipientes no Brasil. O capitão-de-Mar-e-Guerra Antonio Fernando Garcez Faria, diretor do Centro de Hidrografia e Navegação da Marinha, explica que a navegação em lama fluida é uma oportunidade ainda não explorada no país por falta de conhecimento e investimentos em pesquisas, mas que pode possibilitar ganhos significativos de calado com custo/benefício bastante satisfatório.   

Antônio Ferreira Garcez

“Esse sistema já é utilizado por portos da Bélgica, Holanda, Alemanha, China e Guiana Francesa com excelentes resultados e também, certamente, poderá ser adaptado à realidade de Itajaí e de outros portos brasileiros”, afirma Garcez. O especialista acrescenta que a lama fluida é vista por muitos portos como um problema, que gera constante necessidade de dragagens com gastos significativos, pode se transformar em uma solução bastante viável em termos de custos e ecologicamente correta para os portos de estuário.

 

Porto de Endam/Divulgação

Porto de Endem

Ronaldo Silva Júnior/Porto de Itajaí

Rewert Wurpts

Para o engenheiro e pesquisador Rewert Wurpts, com mais de 40 anos de experiência e com diversas pesquisas na navegação em lama fluida nos portos europeus [com ênfase para o porto de Endem], o custo de adequação de um porto ao sistema de fluidificação de lama é muito mais baixo que investimentos em dragagens de manutenção. “É muito mais barato tratar a lama do que retirar e jogar fora, sem contar que o processo praticamente não agride o meio ambiente”.   

O diretor da empresa Coastal Planning e Engineering do Brasil, Lindino Benedet, afirma que esse modelo de navegação pode gerar um ganho de calado, no caso específico de Itajaí, entre 0,50 e 1 metro. “Mas para afirmamos um número preciso ainda são necessários muitos estudos”, complementa.   

 O superintendente do Porto de Itajaí, Antonio Ayres dos Santos Júnior, destaca a importância desses estudos para o Complexo Portuário do Rio Itajaí na busca de segurança na navegação e redução de custos. “São alternativas que trazem para nossa realidade possibilidades de grande valia para entendermos o comportamento dos sedimentos estuarinos, que hoje representam um problema constante com o qual convivemos”, diz.   

 Segundo Ayres, com a compreensão dessa tecnologia a Autoridade Portuária de Itajaí vai poder buscar alternativas para que o Complexo Portuário opere mais adequadamente, com segurança, mas também com economia.   

Confira apresentação:
Apresentação técnica Lama Fluída (em Inglês)   

Vanguarda – Para Rewert Wurpts, o Complexo Portuário do Rio Itajaí já caminha naturalmente para a adoção desse procedimento, uma vez que já opera com o método de dragagem por injeção de água desde 1998, quando a Autoridade Portuária contratou os serviços da Somar Serviços de Operações Marítimas Ltda. para as dragagens de manutenção.   

“O procedimento adotado por Itajaí há mais de dez anos é largamente utilizado nos portos europeus, com mais vantagens que os métodos tradicionais”, acrescenta Wurpts. O diretor Técnico do Porto de Itajaí, André Pimentel, concorda com o especialista alemão com relação à redução nos impactos ambientais com a utilização da dragas de injeção de água, em comparação com os impactos gerados por dragas auto-transportadoras.   

Ronaldo Silva Júnior/Porto de Itajaí     

 Tipos mais comuns de dragas   

 • As dragas hopper apresentam o maior rendimento dentre todas as opções de dragas, não obstruem o canal de navegação, operam com ondas de até 3 m de altura e permitem despejo em áreas distantes e profundas. O seu custo, por outro lado, também é o maior dentre todas as alternativas, sua operação provoca mistura de sedimentos e há perda de rendimento. A contaminação provocada pela mistura de sedimentos é significativa e este é o motivo pelo qual o volume diário de dragagem é limitado nesse tipo de operação.     

• As dragas de injeção de água promovem a resuspensão do material sedimentado, permitindo que a própria corrente remova o sedimento. As vantagens são o elevado rendimento com finos, custo inferior, não obstrução do canal de navegação, a operação em ondas e trabalho em ondas de areia (retificação de fundo de canais). Desvantagens são a mistura de sedimentos proporcionada e o desempenho desprezível para remoção de areias.   

   

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