Resíduos que rendem

A história daqueles que transformaram o lixo em lucro

Antônio Massoquetti

Pamyle Brugnago

Renan Accioly

As sirenes amarelas brilham em conjunto com os pisca-piscas florescentes em cima do veículo da prefeitura. Este é o sinal de que o caminhão da coleta seletiva está passando pelas ruas de Itajaí. Muitos dos indivíduos que os veem percorrendo a cidade até podem considerar este um trabalho sujo ou indigno. Para Luiza Ribeiro, 64 anos, funcionária da Cooperativa dos Coletores de Lixo da Foz do Itajaí – Cooperfoz, a implantação da coleta seletiva e o trabalho oportunizado por esses caminhões lotados de lixo é a benção que traz a sua família o seu sustento. Ao ver serem despejados na cooperativa centenas de produtos antes considerados inutilizáveis, Dona Luiza vê esperança no que outros enxergam como sujeira.

Luiza Ribeiro

Luiza Ribeiro

Funcionaria mais velha dentre os 47 operários que lá trabalham, a mulher de cabelos já grisalhos, rugas pelo corpo e bom humor cativante, não encara a batalha de separar resíduos como tarefa penosa, mas sim como apenas mais um serviço honesto,    “Trabalhar aqui é muito bom, consigo tirar o sustento de meus filhos e ainda sobra um dinheiro pra fazer minhas coisas.” Por ser a funcionária que possui mais tempo de casa, cinco anos, Dona Luiza consegue separar materiais com mais eficiência e dividi-los de maneira ágil, porém se engana quem acha que ela ganha mais. Todo o dinheiro adquirido pela cooperativa na separação e venda de resíduos é dividido em parte iguais para todos os funcionários. Essa forma de divisão alcança uma média de 200 reais semanais para cada um. (veja tabela de preços dos produtos recicláveis)

Preço dos produtos

valor dos produtos

Mas esses valores podem se alterar com uma ajudinha do destino. Como os produtos separados ao longo da esteira tem origem nas milhares de casas do município, alguns deles podem conter surpresas. “A gente sempre encontra alguma coisa perdida no meio do que os caminhões trazem. Tudo depende da sorte: já encontrei desde camisinhas até um vibrador, mas também já achei muito dinheiro”, ressalta Dona Luiza com a felicidade das lembranças. Em alguns desses dias em que constantemente separava os materiais com suas colegas veio a suas mãos uma bolsa de linhaça com um maço de notas. Eram 10 mil reais que ela havia encontrado no meio do lixo. Como não havia como saber de onde veio o dinheiro acabou sendo dividido entre ela e as funcionárias presentes.

Patricia Koch, vice-presidente COOPERFOZ

A vice-presidente da cooperativa, Patrícia Aparecida Koch, hoje com 30 anos, construiu sua vida em torno do que os outros consomem. Antes de se tornar membro da Cooperfoz vivia pelas ruas catando lixo, pois a ausência da coleta seletiva em Itajaí a forçava a vasculhar as lixeiras da cidade para adquirir seu sustento. Atualmente se diz satisfeita com seu emprego e as melhoras em sua condição de vida, “Com a cooperativa hoje tudo é bem melhor. A gente não precisa ficar sujando nossas mãos pegando nos lixos orgânicos, aqui é tudo bem dividido. Possuímos local fixo para trabalhar, turnos fixos e apoio da prefeitura”. E se engana quem acha que os trabalhadores não são conscientes da sua função na melhoria da qualidade de vida da cidade. “Além do dinheiro que ganhamos ajudamos o meio ambiente também, pois selecionando os resíduos, os tornamos reutilizáveis. Sinto que faço minha parte”.

Quando questionada sobre o preconceito que possa ter sofrido em relação à maneira como ganha a vida, diz que muita gente a olhava atravessado quando catava na rua, mas o que realmente importa é o que seus filhos acham. “Meus filhos têm orgulho do que faço aqui, o que os chateia é o fato de eu ficar muito na cooperativa e não ter tempo pra eles”. Enquanto o trabalho de coleta seletiva não atinge a meta de 30% de população ativa, as funcionárias da Cooperfoz continuam realizando um trabalho sustentável pelo bem da cidade, do meio ambiente e dos seus filhos, mesmo sem o devido reconhecimento.Hoje se estima que um em cada 1000 brasileiros é catador. E três em cada 10 catadores gostariam de continuar na cadeia produtiva da reciclagem mesmo que tivessem uma alternativa. Eles têm orgulho do trabalho.  De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2000, diariamente no Brasil coleta-se 125,281 mil toneladas de resíduos domiciliares, e 52,8% dos municípios brasileiros dispõem estes resíduos nos lixões. Em Itajaí este número chega a quatro mil toneladas por mês, cerca de 170 toneladas por dia e apenas 250 toneladas são de material reciclado.

Vidro separado pelos cooperados da COOPERFOZ

Coleta Seletiva: entenda este processo

Para muitos o lixo é somente o que não tem mais utilidade, para outros pode ser fonte de renda e ainda se tornar um produto novinho em folha. A coleta seletiva funciona como um trabalho de separação e recolhimento de resíduos descartados pelas pessoas e empresas. Estes materiais podem ser reciclados e separados do lixo orgânico, sendo reaproveitados.  O produto reciclável pode ser triturado e transformado em um novo produto ou se manter na forma original e ser reutilizado de outras formas. O plástico, por exemplo, pode virar bolsa, enfeite, árvores de natal ou poltronas de garrafa pet. Tudo depende da criatividade do artesão e a consciência de todos que participam da coleta seletiva de Itajaí. “Lixo reciclável, tarifa zero”, a campanha iniciada no ano de 2005 sob a responsabilidade da Prefeitura da cidade de Itajaí juntamente com a empresa que preza pelo meio ambiente, Engepasa Ambiental Ltda e a Cooperativa dos Coletores de Materiais Recicláveis da Foz do Rio Itajaí, Cooperfoz. A campanha era promessa de mudança no município que desperdiçava o lixo reciclável, antes jogado diretamente no lixão da cidade, quando o aterro sanitário ainda não existia. Confira a seguir como funciona o aterro.

Como funciona o aterro

Como funciona o aterro

A conscientização relâmpago da população itajaiense esteve ligada diretamente ao bolso dos moradores da cidade litorânea. Quem separasse o lixo orgânico do reciclável não pagaria a taxa de lixo obrigatório. Resultado final: 100% de aceitação. O número de adeptos é questionável. Segundo dados da Engepasa Ambiental apenas 20% do lixo reciclável produzido pela população é destinado à coleta seletiva, deduz-se que o restante é encaminhado ao aterro sanitário municipal sem triagem alguma.Os moradores que não separam o lixo reciclável dividem opiniões sobre o processo e a importância da ação. Yara Nascimento, 25 anos, não faz a separação, diz não ter o hábito. Já a historiadora Nadia Ceccom, 32 anos, adepta da coleta seletiva afirma que ela é tão importante para o meio ambiente quanto para a conscientização da população. “Além de ser uma forma de preservação, a diminuição do lixo é visível”.O caminhão da Coleta Seletiva passa diariamente nas ruas, em bairros distintos seguindo uma tabela de horários fixa e encaminha este material para que seja feita uma triagem. Se os materiais recicláveis como vidro, papel, plástico e metal fossem destinados ao aterro sanitário ou lixão como acontecia anteriormente, estes demorariam aproximadamente de seis meses até 1 milhão de anos, como é o caso do vidro, para se decompor.A coleta seletiva é o sustento da Cooperfoz, são quatro os caminhões que levam o material todos os dias. A Cooperfoz nasceu junto com a campanha “Lixo reciclável, tarifa zero” e está funcionando, explica Patrícia, vice-presidente da cooperativa.A consciência ambiental também está presente no universo da Universidade do Vale do Itajaí, Univali, onde o Laboratório de Valorização de Resíduos faz a coleta seletiva dos materiais. Papel, vidro, plástico, alumínio e perigosos, o último faz referência a produtos como: pilha, óleo de cozinha, medicamentos e material descartado pelos cursos de saúde da Instituição. Alexandre de Ávila Leripio, professor de Engenharia Ambiental, diz que a implantação da coleta seletiva na Universidade não tem sido eficaz. “As pessoas não fazem a triagem de maneira correta”. O projeto, a ser implantado no próximo semestre, terá um ambiente próprio para a separação dos produtos. O retorno financeiro será destinado aos demais projetos da Instituição e do curso de Engenharia Ambiental.

Aterro sanitário: uma solução viável

O acúmulo de restos orgânicos de maneira inadequada pode destruir o solo e o gás metano expelido, auxiliar na corrosão da camada de ozônio. Sem contar os materiais que poderiam ser reciclados e acabam em lixões onde ficarão durante décadas até se deteriorarem (veja na tabela).

Veja aqui a tabela de decomposição dos produtos

O lixo descartado sem controle pode afetar diretamente o meio ambiente. Segundo dados da Fundação do Meio Ambiente de Itajaí (FAMAI), só na cidade de Itajaí são produzidas, mensalmente, mais de quatro mil toneladas de lixo, destes apenas 200 toneladas são destinadas à reciclagem, todo o resto acaba em lixões clandestinos, no aterro sanitário ou então na natureza.Para amenizar esses problemas existem algumas maneiras de compactar e armazenar o lixo sem que ele fique jogado a céu aberto como acontece nos lixões. Dentre elas a mais viável para a realidade brasileira é a construção de aterros sanitários.

Francisco Carlos Nascimento, engenheiro ambiental responsável pelo Aterro Sanitário de Itajaí

“Existem outras tecnologias para destinar o lixo, mas elas saem muito caro, para nós o aterro é a solução mais viável”, explica o Engenheiro Ambiental Francisco Carlos Nascimento, responsável pelo aterro sanitário de Itajaí.O aterro sanitário é constituído de três etapas: a primeira é a uma cobertura no solo, para que o chorume (líquido preto expelido pelo lixo) não atinja qualquer lençol freático. A segunda é a drenagem deste chorume para lagoas de tratamento localizadas ao lado dos acumulados de lixo e depois lançados para o esgoto ou algum rio próximo, como ocorre em Itajaí. Por último, os detritos jogados no aterro são compactados com um caminhão rolo e depois soterrados por uma camada de argila. Para a eliminação do gás metano liberado pelo lixo existem tubulações no meio do aterro e antes de liberá-lo para a atmosfera esse gás entra em combustão, para evitar o risco de explosão sob o solo.Mesmo afetando o meio ambiente o aterro sanitário ainda consegue controlar o metano e seu maior trunfo é o tratamento do chorume. Ainda é necessária a ajuda da população para que o aterro funcione de maneira mais eficiente, além de separar o lixo reciclável do orgânico a população ainda precisa reduzir o volume diário de lixo. “Cada ser humano produz quase um quilo de lixo por dia e todo esse volume é direcionado para o aterro. Com esse acúmulo diário em alguns anos a área necessária para construção de novos aterros será enorme”, ressalta Francisco Carlos Nascimento.Parte do problema pode ser amenizado com a reciclagem, pois o aumento do lixo, como é o caso das embalagens em excesso nos produtos de hoje, são destinados ao aterro sem passar por uma separação adequada. Atualmente, apenas 5% do lixo reciclável produzido segue este caminho, todo o resto acaba no aterro sanitário da cidade de Itajaí, que também recebe o lixo da cidade vizinha, Balneário Camboriú. O excesso deste material não se refere apenas ao detrito doméstico, o aterro da Canhanduba ainda recebe resíduos hospitalares e industriais que deveriam ser de responsabilidade de seus geradores, diminuindo ainda mais a vida útil do local.A história do aterro sanitário da Canhanduba já completou 18 anos, porém ela ocorria de forma precária até que, em 2006, a Prefeitura de Itajaí em parceria com a Engepasa Ambiental Ltda. e a Prefeitura de Balneário Camboriú inauguraram a nova estrutura. Desta vez, foi devidamente projetada e construída com o investimento de mais de 12 milhões de reais, para que o lixo tenha um destino final seguro, diminuindo o impacto ambiental.

Qual a diferença entre lixão e aterro sanitário?

Links Youtube:

Ilha das Flores Parte 1

Ilha das Flores Parte 2

A Boca do Lixo

Confira aqui vídeo da Cooperfoz.

“Se a vida não precisa de embalagem, você também não precisa”

Camila Guerra
Taiana Eberle

O Brasil produz 140 mil toneladas de lixo por dia, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008, sendo apenas 12% de todo esse resíduo reciclado. Com tanto excesso de lixo e pouca reutilização e reciclagem, a poluição do meio ambiente é crescente, já que muitos materiais jogados fora levam anos para se decompor (veja a tabela 1). Um bom exemplo disso são as famosas sacolas plásticas. Símbolo do consumismo, elas levam até 400 anos para se decompor na natureza. Além disso, os saquinhos do supermercado também são os principais obstrutores da passagem da água em bueiros, bem como matam milhares de animais marinhos que ingerem o plástico, confundindo-o com alimentos.

Material Tempo de degradação
Latas de aço 10 anos
Alumínio 200 a 500 anos
Cerâmica Indeterminado
Chiclete 5 anos
Cordas de nylon 30 anos
Embalagens Longa Vida Até 100 anos (alumínio)
Embalagens PET Mais de 100 anos
Filtros de cigarros 5 anos
Metais (componentes de equipamentos) Cerca de 450 anos
Papel e papelão Cerca de 6 meses
Plásticos (embalagens, equipamentos) Até 450 anos
Sacos e sacolas plásticas Mais de 100 anos

*fonte: sacolas distribuídas pelo supermercado Bistek

Quando o inglês Alexandre Parkes inventou o plástico, em 1862 não imaginaria que quase 150 anos depois este material contribuiria para a degradação do meio ambiente. A inserção de sacolas plásticas no Brasil ocorreu na década de 1980, quando a ideologia de produtos descartáveis tomou conta do mundo. Fácil para carregar compras e, sem custo algum, as bolsas plásticas distribuídas em supermercados também foram alvo dos publicitários, que encontram nelas uma ótima ferramenta de divulgação. Entretanto, o consumo excessivo desse material juntamente com a falta de tratamento e reciclagem do lixo contribui para a poluição das cidades e do meio ambiente.

Países como Inglaterra, Alemanha, Irlanda e Itália (veja a tabela 2) há alguns anos adotaram leis que proíbem a distribuição das sacolas plásticas em supermercados. Cada consumidor deve levar sua própria bolsa e, para aqueles que esquecerem ou precisarem de um reforço a mais, são cobradas taxas por cada sacola plástica utilizada. A designer brasileira Camila Golin, 28, mora em Como (cidade ao norte da Itália que faz divisa com a Suíça) há três anos. Ela conta que estranhou no início, mas com o hábito acabou se acostumando. “Com o tempo você acostuma a levar as sacolas ou comprá-las no caixa na hora da compra”, relata. Nos supermercados da cidade, o preço de cada sacola plástica varia entre €0,04 a €0, 19, sendo as biodegradáveis as mais caras.

País Lei
Alemanha As lojas que distribuem sacolas plásticas devem pagar uma taxa de reciclagem ao governo, que investe em projetos de reciclagem.
Bélgica Em 2007 passaram a vigorar taxas sobre sacos plásticos, louças descartáveis e papel alumínio.
Dinamarca Desde 1994 cobrava impostos sobre materiais de embalagens plásticas. Em 2005 passou a cobrar também taxas sobre resíduos queimados ou enviados para aterros.
Espanha Pretende diminuir em 50% o consumo de bolsas plásticas, até o final deste ano.
França Quer proibir, a partir de 2010 o uso de sacos plásticos. Em Paris, são utilizadas somente sacolas biodegradáveis.
Inglaterra Em 2007 foi sugerida a proibição de sacos plásticos. Entretanto, no final de 2008, a proposta não foi mais aceita.
Irlanda Em 2002 o país implantou um imposto “Plas Tax”, sobre as bolsas plásticas, que reduziu em até 90% o consumo. Porém, em 2007 o valor da taxa aumentou, devido ao maior consumo do material.
Itália Entre 1989 e 1992 o pais utilizava um plástico especial para produzir sacolas. Desde 2007 adotou a utilização de sacos não biodegradáveis e pretende banir o uso de plásticos normais a partir de 2010.

* Fonte: Department of Environmental Protection

Confira também o artigo do jornalista André Trigueiro, especialista em jornalismo ambiental: Baixe aqui

Mas e no Brasil?

No Brasil as sacolas oxibiodegradáveis são apontadas como solução para o problema. Essas sacolas possuem um aditivo químico que potencializa o efeito de decomposição do plástico em contato com a luz, terra ou água. O aditivo encontrado nessas bolsas conta com catalisadores como o manganês e o níquel, dois metais que segundo o secretário estadual de meio ambiente do estado de São Paulo, Xico Graziano, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 27 de julho de 2007,  permitem que o plástico se transforme em pequenas partículas até desaparecer a olho nú. No entanto, permanece na natureza. Ele afirma ainda, que se essa tecnologia fosse viável ambientalmente, o Canadá e a Inglaterra que desenvolveram o aditivo oxibiodegradável, o utilizariam e não é o que acontece.

Sacolas oxiobidegradáveis são uma alternativa, porém não a solução

Sacolas oxiobidegradáveis são uma alternativa, porém não a solução

Apesar disso, há quem aposte no poder de degradação até 100 vezes menor e na decomposição que leva no máximo três anos para acontecer das sacolas oxibiodegradáveis. Esse é o caso do governo do Paraná que distribui gratuitamente as sacolas.

Projetos que propõem a substituição das sacolas plásticas pelas biodegradáveis tramitam nas assembléias do Rio Grande do Sul, do Paraná e do Rio de Janeiro. Em São Paulo o projeto do deputado Sebastião Almeida (PT) chegou a ser aprovado pela Assembléia Legislativa, mas foi vetado pelo governador José Serra. Almeida defende que o ideal seria substituir as bolsas plásticas pelas de pano ou papel. Mas para ele ao menos as oxibiodegradáveis amenizariam o problema. Já que seriam capazes de acelerar a decomposição de bilhões de toneladas de lixo que ficam no ambiente a espera da degeneração.

Uma questão de comportamento

Que a sacola plástica é prática, desempenha com louvor a função de carregar as compras, protege os produtos do calor e da umidade e ainda por cima é resistente todo mundo sabe. Mas para o especialista em ciências políticas, sociedade e meio ambiente e problemas sociomabientais, Sérgio Saturnino, as bolsas plásticas são grandes vilãs quando o assunto é comportamento. Pelo fato de facilitarem a nossa vida de tal forma, que descartamos as coisas sem nem pensar duas vezes. “O problema da sacola plástica do ponto de vista socioambiental é que ela te tira com facilidade a responsabilidade ambiental”.

Além disso, o fato de se utilizar sacolas plásticas no cotidiano vai muito além do que um simples costume. Para Saturnino as sacolas refletem o comportamento da sociedade consumista em que vivemos. Por isso, o especialista aposta não apenas na substituição dos sacos plásticos pelos biodegradáveis, mas sobretudo na mudança de comportamento, a qual julga realmente essencial. “A sacola biodegradável é fantástica do ponto de vista ambiental, por outro lado se a gente continuar comprando aquele queijo com a bandejinha de isopor no mercado não adianta muito, apenas ameniza o problema”. O presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema) de Itajaí Caio Floriano dos Santos, compartilha da mesma opinião: “Mesmo a biodegradável leva um tempo para ter seu ciclo e se degradar, apesar de ser menos impactante”.

Uma prova de que é possível adquirir o hábito de se utilizar sacolas biodegradáveis é que antigamente as próprias donas de casa produziam as bolsas em que iam trazer as compras do supermercado. Quem contou essa história pra gente foi Dona Walmira Reis Maes Steffen, 76: “antigamente não existia nem sacolas plásticas nem supermercado, eram armazéns ou vendas. As bolsas eram feitas de pano, por costureiras ou então levávamos cestas de bambu, já que não existiam sacolas feitas de plástico”. Dona Walmira acredita que será difícil as pessoas se habituarem em levar as suas próprias sacolas, devido a variedade dos produtos oferecidos no supermercado e praticidade das bolsas de plástico: “Antes, não havia tanta variedade de alimentos como hoje, o que faz com que precisemos de mais sacolas para uma maior quantia de produtos”.

Saturnino aponta como solução a diminuição do consumismo. Segundo ele deveríamos fazer como nos filmes americanos em que as pessoas saem com aquele pacote enorme na mão, que tem que levar no colo. A jornalista Cristina Amorim, do Estado de São Paulo, em entrevista ao site Planeta Sustentável em 29 de outubro de 2009, descorda. Para ela é um incômodo ficar arrumando os alimentos em sacolas de pano: Leia mais.

Outro aspecto levantado pelo professor é que as pessoas em geral não pensam no custo ambiental que cada produto carrega. Para Saturnino as pessoas tem que começar a ter consciência de que durante a fabricação o produto impactou o meio ambiente e essa interferência precisa ser compensada de alguma forma. “Tem alguns municípios que querem anular o uso de sacolas plásticas. Eu confio mais nas crianças, educar as crianças em relação a isso, porque pra nós é mais difícil mudar o comportamento, a gente não vê o custo ambiental”.

As sacolas plásticas divergem opiniões

Caio Floriano dos Santos que também é oceanógrafo, explica que as sacolas plásticas são feitas de resinas derivadas do petróleo, substância que leva centenas de anos até se desintegrar e, portanto desaparecer do meio ambiente.  Enquanto estão no ambiente além de entupir bocas de lobo e causar inundações nas cidades, as sacolas também vão para os oceanos. Lá frequentemente cruzam o caminho de animais que as comem por confundi-las com medusas, por exemplo.

turtle

Tartarugas frequentemente confundem sacolas plásticas com alimento.

Fonte:  Mundo quente

Em entrevista a revista Superinteressante, de dezembro de 2008, o cientista Charles Moore, da Fundação Algalita de Pesquisa Marinha da Califórnia, nos Estado Unidos, afirma que 80% da poluição marinha é descendente do que se produz na terra. “O oceano fica num nível mais baixo do que qualquer lugar no planeta. O entulho plástico não vem só da costa, mas dos estados do interior, do escoamento dos rios. O oceano é o destino final de todo o nosso lixo”. Em uma reportagem exibida pelo Fantástico, em 15 de fevereiro, é possível perceber a situação da poluição na região do Oceano Pacífico, nos Estados Unidos, e também nas Ilhas Maldivas:

A indústria do plástico se defende ao afirmar que as sacolas plásticas são higiênicas, reutilizáveis e tem múltiplos usos. Também afirmam que o produto é de grande importância para 80% dos consumidores que vão fazer compras a pé ou de ônibus. “O plástico faz parte da vida contemporânea, é 100% reciclável e está em milhares de produtos”, divulgado no site Planeta Sustentável em 29/10/2009.

No entanto, alguns supermercados já vem disponibilizando as sacolas retornáveis. Esse é o caso de uma rede de supermercados da região do Vale do Itajaí que oferece aos clientes a chamada “sacola ecológica”, com o custo de R$ 4,99. O subgerente da sede em Brusque, Índio Gabriel Macedo Selau, relata que geralmente são as pessoas que vem ao supermercado todos os dias que tem maior interesse em adquirir as sacolas retornáveis e que, geralmente são clientes de mais idade. “As pessoas que vem somente uma vez por mês e fazem compras maiores preferem as sacolas plásticas”, conta. Outra política adotada pela loja é a utilização das bolsas plásticas biodegradáveis distribuídas gratuitamente e de caixas de papelão para o transporte de compras, evitando assim o excesso de sacolas.

Outra rede de supermercados da cidade também tem preocupação com os impactos ambientais resultantes da poluição. Além de distribuir mudas de árvores todos os anos no dia 21 de setembro, o supermercado utiliza um controlador de sacolas, o que diminui o excesso de poluição e de gastos. De acordo com o gerente da desta loja, Cleber Trevisan, são pessoas de maior poder aquisitivo que se interessam pelas sacolas retornáveis (com o custo de R$ 4,69) ou as biodegradáveis (R$ 2,57). “Temos tendência a cada vez mais utilizar as sacolas ecológicas, estamos inclusive desenvolvendo outros modelos, como mochilas, por exemplo, para que a pessoa se interesse mais”, afirma.