Preservando a vida dos Mexilhões

Bianca Escrich
Felipe Ramón
Vanessa Garcia

 

Tudo começa a partir do Centro Experimental de Maricultura (Cemar) na Enseada de Armação do Itapocorói, no Município de Penha. O Cemar foi estruturado pelo curso de oceanografia da Univali, em 1994, com o objetivo de estimular o desenvolvimento de cultivo de moluscos marinhos de maneira sustentável. Através de atividades de extensão com os produtores locais o Cemar estimulou a utilização de barcos com guinchos, balsas de manejos, rolos de seleção, implantação de cultivos de superfícies e meia-água em áreas com profundidade superiores a dez metros, ancoragem dos long-lines com estacas proporcionando um incremento na produtividade local e comprovando a viabilidade técnica dos cultivos de moluscos nesta região. Continue lendo »

Nova tecnologia para produção de mexilhões

Luana Martins

Melina Manfredini

http://www.restaurantetemperodabahia.com/UserFiles/marisco_ao_vinagrete.jpg

Ao vinagrete, gratinados, com molho branco, risoto ou fritos. Estas são algumas das opções de preparo dos moluscos bivalves produzidos em fazendas marinhas no Estado de Santa Catarina. Para se chegar a esse produto final, apetitoso, limpo e pronto para degustação, cerca de 700 famílias de pescadores Catarinenses, 96 delas no município de Bombinhas, trabalham na produção, cultivo e colheita destes organismos.

A Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extração Rural de Santa Catarina, Epagri, finalizou, no mês de outubro, a pesquisa experimental de uma nova tecnologia para a produção de mexilhões, nomeada como Sistema de Produção Contínuo, implantada em 2006 na Praia de Canto Grande, Bombinhas (veja o mapa). Conheça o novo sistema de produção

Melina Manfredini

Nova tecnologia desenvolvida pela Epagri

Para conhecer um pouco mais sobre o tema, leia o Trabalho de Conclusão de Curso de Bruno Ghisi Bossle sobre o assunto.

Veja aqui um vídeo em que Alex mostra o Sistema Continuo de Producao de marisco em Canto Grande, Bombinhas.

Um dos objetivos do equipamento é a mecanização do processo de colheita e plantio, atualmente realizado pelos produtores de maneira artesanal, o qual exige tempo e grande esforço físico. Caso seja implantado, o projeto experimental deve impulsionar a produtividade da maricultura na região.

Melina Manfredini

Linhas de cultivo artesanal

Confira aqui o vídeo em que Alex mostra sementes de mariscos.

A adesão a esse novo sistema de produção de mexilhões deve ocorrer de forma gradual e adaptada à realidade dos maricultores em Santa Catarina, bem como a evolução da própria comunidade produtiva e associativa.

É de suma importância a execução da Licença Ambiental para a prática dessa atividade, regida pela Fatma-SC, que normatiza a liberação do uso das áreas de cultivo e efetua um monitoramento para impedir a escassez desse organismo. Segundo o gerente regional da Fatma, Gabriel Santos de Souza, “Nos últimos quatro anos ocorreram várias discussões entre os órgãos regional e federal, ou seja, a Fatma e o Ibama, para decidir quem ficaria com a responsabilidade. Ficou definido pelo Ibama, que a Fatma seria responsável. Porém, atualmente, há apenas uma intitulação e não a prática desta decisão”.

A militicultura, cultivo especificamente de mexilhões, também conhecidos como mariscos, por exemplo, é pouco rentável no Brasil se comparada ao camarão (crustáceo). O volume de cultivo de camarão coloca o Brasil na oitava posição mundial neste segmento, mas ainda é o 26º nas exportações.

Para assumir tal compromisso a produção de camarão possui uma licença ambiental que se adéqua a um programa de rastreabilidade, exigência imprescindível internacionalmente.

Igualmente ao camarão, os mexilhões carecem de um rigoroso processo de fiscalização sanitária, mesmo que ainda não sejam exportados. Percebe-se a proporção massiva da comercialização desse alimento produzido em Santa Catarina e a circulação apenas nas regiões mais próximas. Para o produto ser comercializado fora do Estado é necessário possuir um selo de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura D.

Melina Manfredini

Mexilhões

A produção de mexilhões, de acordo com a Epagri, cresceu 7,47% no Estado de 2007 para 2008, o que representa 13.107,92 de toneladas. Confira abaixo as cidades de SC que ocupam a melhores posições  no ranking de produção de marisco e a safra de 2008

http://www.epagri.rct-sc.br/index.php?option=com_content&view=article&id=208:mexilhoes-ostras-e-vieiras&catid=29:maricultura&Itemid=48

Impacto ambiental

As praias catarinenses, principalmente a de Bombinhas, são tomadas por veranistas de dezembro a março todos os anos. Esta época é quando o telefone do órgão ambiental do Estado, Fatma, da região do litoral norte, localizado em Itajaí, registra um elevado número de ligações. A maioria se refere a reclamações de poluição visual, ocasionada pela produção de marisco e pela pesca em geral.

Melina Manfredini

Poluição

Redes de pesca, resíduos, plásticos, pedaços de cordas são encontrados jogados na areia e no mar, muitas vezes importunando turistas e proprietários de casas a beira mar. Além desse fator, a natureza propulsiona metais naturais no oceano, e o contato do marisco com estes metais coloca em risco a saúde de quem consome este produto.

A extração desordenada das sementes de mexilhões por maricultores catarinenses artesanais, no início da década de 90, promoveu impactos negativos e condicionou a criação de um coletor artificial para minimizar a ação. O coletor ainda utilizado funciona como uma repicagem das linhas de cultivo.

A repicagem é baseada na obtenção de sementes fixadas nas linhas de cultivo, a mão de obra é alternativa, por isto se percebe integrantes de uma mesma família envolvidos nessa atividade.

A intervenção de setores de pesquisas, preocupados com a qualidade da água onde esses mariscos são produzidos, promoveu a participação de instituições como a Universidade do Vale do Itajaí, Univali.  No laboratório do Centro de Maricultura, Campus de Itajaí, inicialmente eram produzidas larvas, hoje são promovidas pesquisas e estudos com alunos do curso de Oceanografia no intuito de preservar as espécies. A produção de sementes em laboratórios apresenta custo elevado e depende de grande estrutura operacional. Segundo o coordenador do Centro de Maricultura da Univali, Gilberto Manzoni, em sua tese de doutorado publicada em 2005, “é uma possibilidade tecnologicamente viável, funcionaria com substratos artificiais e transferências para o ambiente natural”.

Com a mudança da Secretaria Especial de Pesca neste ano para o Ministério da Pesca, o Governo Federal promete investir mais no setor. De nada adianta utilizar recursos como a multiplicação de larvas em laboratórios se as condições ambientais são reprováveis. A falta de saneamento básico põe em dúvida a procedência dos mariscos.

Os moluscos são filtradores porque se alimentam de organismos marinhos, conseqüentemente, possibilitam o surgimento de doenças como febre, cólera, hepatite viral entre outras. Sendo assim, a qualidade da água não oferece respaldo, e este fato fecha portas para que a indústria de alimentos possa investir na comercialização deste produto, principalmente a título de exportação, que passa por uma fiscalização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA.

Maricultores – Mitilicultura

Recentemente no Brasil, porém em expansão, a mitilicultura faz com que o Estado de Santa Catarina se destaque como o maior produtor nacional desse organismo marinho, com cerca de 95% da produção no país.

O Estado apresenta características oceanográficas favoráveis para a pesca e a maricultura – temperatura adequada das águas, baias recortadas, estuários e enseadas abrigadas. As principais espécies encontradas na região são a ostra do pacífico (Crassostrea gigas), ostra do mangue ou nativa (Crassostrea rhizophorae), vieiras (Crassostrea rhizophorae) e mexilhões.

Bombinhas - baias recortadas

Segundo Gilberto Manzoni “A produção de mariscos já existe desde 1970, mas a partir de 1990, quando as famílias de pescadores se uniram para trabalhar é que a colônia e a produção comercial se tornaram realidade”.

Os produtores e irmãos Almir e Aldir da Silva cultivam mariscos há quinze anos na Praia de Canto Grande, onde nasceram. Os maricultores acompanharam os três anos de pesquisas e a nova tecnologia de produção de mariscos implantada pela Epagri. “Nós gostamos da idéia da máquina, que é mais rápida e não precisa de muito esforço físico, mas é muito cara, e é difícil mudar de uma hora para outra o jeito de plantar e colher mariscos”, comenta Almir.

Fazenda marinha de mexilhoes e o produtor Almir da Silva

De fato, a produção artesanal dos mexilhões exige dos maricultores grandes esforços, por motivo da execução de tarefas rotineiras e do peso das cordas com os mariscos já adultos no trabalho da colheita. Segundo Almir, é possível retirar de 500kg a duas toneladas por dia em cada caiaque – como é chamado o pequeno barco pelos pescadores locais. “Dores na coluna, nos ombros e queimaduras de sol no rosto são freqüentes entre nós, mas depende de quanto tempo se passa no mar”, relata o produtor.

O maquinário, avaliado em torno de 300 mil reais, precisa ser adaptado às condições atuais da produção catarinense. Na praia de Canto Grande, a plantação está bastante densa e as cordas coletoras muito perto umas das outras. “A nova balsa não teria espaço para circular no meio das linhas de cultivo e içar as pencas de mariscos, é necessário um novo mapeamento e delimitação das áreas cultivadas”, explica o engenheiro agrônomo da Epagri/Cedap, André Luis Tortato Novaes.

Assita aqui o vídeo sobre a Fazenda Marinha de Mexilhões em Bombinhas

Investir em tecnologia é indispensável em todas as áreas. O experimento veio em momento oportuno, para aumentar a produção, visto que o número de famílias que trabalham com a maricultura diminuiu em Santa Catarina. Há cerca de 17 anos superava a marca de dois mil e hoje conta com apenas 700 famílias. Entretanto, se os responsáveis continuarem a promoverem ações não pensadas, sem compromisso ambiental, os prejuízos vão ser incontáveis no ecossistema, para nós consumidores e especialmente na sustentabilidade da atividade.