Ilhota quer sustentabilidade

Especialistas apontam alternativas sustentáveis para a região dos Baús

Carina Carboni

Luana Lemke

Defesa Civil de Ilhota/divulgaçao

Em novembro, tudo resumiu-se em barro, desespero e prejuízo no complexo do Baú.

“Naquela noite a casa estremeceu e a gente ouviu aquele estouro. Quando saí à rua, logo vi aquele clarão do outro lado do morro. Até pensei que fosse um posto de gasolina que tinha explodido”, lembra Antônio Laurindo que após esse episódio e, principalmente os que o sucederam, passou a tomar remédios para o coração.

Essa fala é comum pelos arredores do Morro do Baú, no município de Ilhota/SC, onde muitos moradores tiveram suas casas e familiares soterrados pela lama dos desmoronamentos trazidos pelas chuvas de novembro de 2008. Desde então, o rio que percorre as proximidades do Alto Baú, Alto Braço do Baú, Braço do Baú, Baú Central, Baú Seco e Baú Baixo mudou o seu trajeto. Alguns lugares, onde antes havia plantações de arroz, hoje dão lugar a grandes lagoas. As bananeiras já não oferecem o mesmo número de cachos e onde antes havia casas, o vermelho do barro ainda impera.

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Alguns sobreviventes alimentam a crença de que a explosão da tubulação do Gasoduto Bolívia-Brasil na noite daquele domingo, dia 22, teria afetado a estrutura do solo local e provocado os deslizamentos, que foram inéditos para os habitantes dali. “Eu penso que a explosão tenha piorado o caso porque até aquele momento, nunca tinha sido visto nada igual. Deve ter alguma relação, pois logo depois teve o primeiro deslizamento”, conta outra moradora que prefere não se identificar. Saiba mais sobre o gasoduto no Jornal do Sicepot/SC

Mas os milhares de anos do topo daquela montanha tornam a área naturalmente instável para a geóloga Karel Jockyman. Ela diz que a explosão, ocorrida na região do município vizinho de Gaspar, não teria como provocar os deslizamentos do Baú. “É difícil entender que existem tempos geológicos que levam a uma erosão natural do solo, quando se nasceu e cresceu num lugar e nunca se tenha ouvido dizer nada a respeito de grandes desmoronamentos”.

Para a pesquisadora, que há seis meses estuda o local, não é possível responsabilizar a explosão do Gasoduto pela tragédia ocorrida em 2008. Ela acredita que o solo pode voltar a ceder, com ou sem nenhuma explosão, pois há água armazenada sob ele. “Um forte indício são os pequenos orifícios na base do morro, de onde escorre água. Olhando debaixo da montanha já dá pra ver que está perigoso”.

Não é preciso ser especialista no assunto para perceber que algumas áreas do Baú estão mesmo comprometidas. A observação da geóloga, na ocasião contratada pelo Centro Universitário de Pesquisas e Desastres (CPED), pode ser confirmada em várias regiões. Inclusive nas encostas das estradas e de muitas casas que foram reconstruídas em locais bem próximos aos deslizamentos do ano anterior. Veja mais aqui

A engenheira civil Sílvia Helena de Carvalho Ribeiro, também contratada pelo CPED, lembra que há registros de desmoronamentos no complexo do Baú que datam de milhões de anos. Ela reforça a opinião da geóloga Karel ao afirmar que não será possível convencer as famílias a deixarem suas casas. “Muitos acreditam que a tragédia não voltará a se repetir”.

É importante considerar que mesmo conscientes do risco que estão correndo, a maioria dos moradores destas localidades não tem outra opção de moradia. Neste caso, projetos de sustentabilidade tornam-se uma alternativa para o município, que contabiliza 727 famílias nas seis localidades do Baú. O desafio é encontrar soluções que amenizem os danos trazidos pela erosão, para que as pessoas possam conviver com o risco, mas conscientes do permanente estado de alerta em caso de chuvas.

Karel chama a atenção para a falta de interesse da sociedade em relação a projetos sustentáveis. “Na verdade, a maior fraqueza é a falta de equipe técnica disposta a atender o Baú”. A especialista garante que podem ser desenvolvidos meios de conviver com este fenômeno natural, assim como os japoneses e outras milhares de pessoas no mundo tem convivido com os abalos sísmicos. “Acho engraçado que todo mundo me pergunta se o problema é sério, mas ninguém nunca perguntou se o caso tem solução”.

Já foram liberados 2,7 milhões de reais pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, para serem destinados à drenagem da água e, consequentemente, colaborar com uma melhora na qualidade de vida dos agricultores. A geóloga Eliane dos Santos explica que para realizar este processo é necessário manter a área vegetada com espécies de porte arbustivo e arbóreo, para aumentar a infiltração e, com isso, diminuir o escoamento.

“É preciso amortecer a inclinação das encostas que sofreram intervenção antrópica (humana). Nos riachos e córregos que existem na área, a velocidade do fluxo superficial também precisa ser reduzida. O ideal seria criar pequenas barragens para amortecer a velocidade e quebrar o desnível do leito”. Para as encostas dos morros que não possuem vegetação e que tenham sofrido alguma intervenção humana, como abertura de estradas, retirada de aterro e construção de casas, a alternativa é a construção de taludes.

Estas plataformas, que se assemelham a escadarias, já estão sendo construídas as margens da BR 470. A edificação serve para diminuir a velocidade da água, sendo indicada para locais onde a superfície de repouso possui ângulo superior a 45 graus. “Além disso, todas as águas pluviais devem ser retiradas da frente do talude, através de calhas construídas no local”, reforça Eliane.

Como medida de prevenção, os moradores também aguardam a construção de um abrigo que possa servir como rota de fuga. “Nós também temos a necessidade de um rádio para o caso de ficarmos isolados. Aqui não pega celular e a maioria dos nossos telefones, que são por satélite, deixam de funcionar com o mau tempo”, alega Tatiana Reichert, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús.


Ainda são vistos, através da janela da casa de Tatiana, os vestígios da grande destruição trazida pelos deslizamentos. A moradora conta que perdeu 14 parentes de até terceiro grau, entre eles mãe e irmã. Do quintal de sua residência aponta o local, pertinho dali, onde havia sete casas. Dez meses depois, existe apenas um terreno vazio e a espera das famílias pela reconstrução de seus lares.

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É preciso replantar

A drenagem da água não é suficiente para prevenir os desmoronamentos do Baú. Este solo é constituído principalmente por cascalho, de natureza altamente permeável. O excesso de água da chuva leva a sua erosão e o seu deslocamento pela encosta, de forma lenta e gradual. É por isso que a vegetação também precisa ser repensada. Para algumas regiões, como as das encostas próximas às estradas, a plantação de gramíneas é indicada como um meio de firmar o solo, já que esse vegetal tem raiz longa e não apresenta sobrepeso.

As espécies exóticas de pinus e eucaliptus devem ser evitadas. A bióloga Rosemere Marenzi lembra que é preciso optar por espécies arbóreas que sejam adaptáveis à condição de solo local. Entre tantas espécies vegetais ela cita plantas como a guabiroba, a aroeira, a embaúba e o jacatirão. Para solos úmidos como o encontrado na região dos Baús também são indicadas plantas como Ingá, Tucaneiro e Guarapuvú. De acordo com a pesquisadora, essas espécies têm grande valor ecológico, embora o valor econômico ainda seja pouco difundido.

A madeira resistente da guabiroba (Campomanesia xanthocarpa) pode ser aproveitada no tabuado em geral, desde lenha e carvão até a confecção de cabos de ferramentas e instrumentos musicais. Conforme Lorenzi, em sua obra “Árvores Brasileiras”, publicada em 2002, os frutos dessa árvore possuem alto valor vitamínico e podem ser consumidos in natura ou ainda aproveitados na preparação de sucos e licores. No caso da embaúba (Cecropia pachystachya), a madeira leve pode ser utilizada tanto na confecção de lápis, brinquedos e saltos de sapatos, como para o aproveitamento da polpa celulósica usada na fabricação do papel. A estrutura de peso e altura dessa planta a torna excelente para o reflorestamento de áreas degradadas.

A economia do complexo do Baú é, sobretudo, baseada na produção agrícola (bananicultura, horticultura e rizicultura) e extração de madeira. De acordo com a prefeitura de Ilhota, a agricultura representava 22% da arrecadação do município. Após a tragédia, a soma dos prejuízos chegou a 32 milhões de reais. As 124 famílias de rizicultores tiveram perda total de suas lavouras, sendo que as 54 famílias que tiravam o sustento da plantação de banana tiveram 80% de suas plantações devastadas. Hoje, muitas dessas famílias dependem da ajuda de parentes e voluntários que visitam as áreas.

Especialistas procuram apoio para desenvolver projeto de prevenção de riscos para a população do Complexo do Baú:

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