Lixo tecnológico: quem é o dono?

Ana Maria Leal da Veiga

Luiza Helena da Veiga Bueno Barauna

Celulares, computadores, notebooks, ipods…A evolução tecnológica faz com que sejam produzidos aparelhos cada vez mais modernos e atrativos. Se há um tempo seus pais não precisavam de um celular para nada, hoje em dia você não vive sem um. O celular tornou-se algo indispensável: bate fotos, filma, tem GPS, envia mensagens de texto, e, é claro, também faz ligação.

Se há 20 anos ele era dispensável, depois que tornou-se equipamento obrigatório na vida dos brasileiros, expandiu-se de forma muita rápida entre a população. Segundo a Anatel – Agência Nacional de Telecomunicações, em junho de 2009 havia 159,6 milhões de celulares no Brasil, ou seja, a cada grupo de 10 pessoas, oito tem um telefone móvel. Bom, não é? Não se pensarmos pelo lado ecológico.

Desde a popularização do celular, muitos aparelhos já foram descartados. Com a mesma velocidade em que cresce o número de adeptos à telefonia móvel também aumenta o número de modelos. Com isso, os celulares vão ganhando um design mais arrojado e novas funções. Como a procura e a concorrência são muito grandes, eles chegam ao mercado com um preço acessível. Isso faz com que muitas pessoas aposentem seus celulares “obsoletos” e troquem por um novo, contribuindo assim, para a formação do chamado lixo tecnológico.

Segundo a Nokia, apenas 2% dos brasileiros destinam seus celulares velhos para a reciclagem.

“Eu sempre fico de olho nas novidades. Amo tecnologia e quando vejo um celular que me agrada e que posso comprar, não penso duas vezes”, declara Marcelo Ribeiro, 26 anos, que ainda afirma que desde a época dos “tijolões” já teve 10 celulares.

O grande problema disso tudo é o destino final dado aos aparelhos que não tem mais serventia, que muitas vezes acabam no lixo comum. “Olha, eu nem sei onde ‘tão’ todos esses celulares, uns ‘tão’ na gaveta do meu quarto, outros joguei fora. Ah, e teve um que eu vendi”, lembra o estudante de Sistema da Informação.

Assim como Marcelo, muitas pessoas não lembram ou jogaram no lixo comum os equipamentos velhos. Essa atitude é extremamente prejudicial ao meio ambiente. Os celulares e as baterias são feitos com componentes eletrônicos altamente poluentes e que se entrarem em contato com a natureza causam um grande dano ambiental, conforme explica o professor de Ciência da Computação da Univali – Universidade do Vale do Itajaí, Luís Martins:

“Normalmente nesses equipamentos eletro-eletrônicos existem metais pesados, como o chumbo, mercúrio, lítio, cádmio. Esses produtos em contato com o solo infiltram e contaminam o lençol freático. O que traz um grande prejuízo ambiental”.

Mas não são só os celulares que contribuem para a formação do lixo tecnológico. Os computadores e todos os outros eletro-eletrônicos, pilhas e baterias também são poluentes e responsáveis por esse problema ambiental.

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Confira dicas da melhor maneira de descartar seus aparelhos seu uso:

Confira aqui ideias criativas para reaproveitar os equipamentos.

 

Os perigos do lixo tecnológico

Quando jogados no lixo comum, há grandes possibilidades de que os componentes tóxicos do lixo tecnológico penetrem no solo e entrem em contato com os lençóis freáticos. Substâncias como mercúrio, cádmio, chumbo e outros elementos tóxicos, que são encontrados nos componentes destes aparelhos, contaminam plantas e animais por meio da água, sendo possível que a ingestão dos alimentos contaminados intoxique também os humanos. “Essas substâncias podem provocar dores de cabeça, vômito e até serem as causadoras de câncer e problemas no sistema nervoso”, garante o clínico geral, Rubens Caetano Cherobim.

Se todos jogarem fora estes lixos sem cuidado algum e no lixo doméstico, danos irreversíveis à natureza e consequentemente ao seres humanos. O prejuízo ambiental causado pelo lixo eletrônico é imenso. É preciso um controle dessa contaminação para diminuir os impactos ambientais no futuro.

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Como a evolução tecnológica é muito rápida, a sucata eletrônica se forma em períodos cada vez mais curtos, e cada vez em maior quantidade.

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Não é só o meio ambiente, nós também sofremos com o lixo tecnológico.

Quando descartado de maneira incorreta, o lixo tecnológico libera substâncias químicas, que ao entrar em contato com os seres humanos causa diversos problemas à saúde.

● Um computador tem cerca de dois quilos de chumbo e se entrar em contado com o ser humano, pode causar danos ao sistema nervoso e sangüíneo. Além disso, os PCs têm mercúrio, que pode afetar o cérebro e o cádmio que pode causar envenenamento.

● O celular traz além do chumbo, o arsênico, uma substância que pode afetar o sistema digestivo e causar doenças nos pulmões, coração e fígado.

● Já a televisão tem mercúrio e mais quantidade de chumbo: quase oito quilos.

A transformação de lixo em solução

 

As máquinas caça-níqueis viram computadores para escolas públicas

 

 Mas, o que é um problema, pode se tornar uma solução. Há alguns projetos que transformam o lixo tecnológico em beneficio para a sociedade. Um exemplo disso é o Projeto Lótus, dos cursos de Ciência da Computação e Sistemas para Internet da Univali – Universidade do Vale do Itajaí. O projeto transforma máquinas caça-níqueis em computadores para escolas públicas.

Os cursos mantêm uma parceria com o Ministério Público e a Polícia Militar de Balneário Camboriú e quando são apreendidas esse tipo de máquina a polícia encaminha para Univali. Na Universidade as máquinas são reaproveitadas e, o que antes era usado de forma ilícita, ganha uma função bem mais nobre: servir de instrumento de ensino para crianças de escolas públicas. “As máquinas chegam da mesma forma como foram apreendidas. Aqui nós formatamos, tiramos o software do jogo e instalamos 80 programas de atividades educativas”, explica o coordenador do projeto Fabrício Bortoluzzi.

Depois de prontas, os computadores são encaminhados à Secretaria de Educação de Balneário Camboriú, que escolhe quais escolas vão receber o material. Em agosto desse ano, o Ciep – Centro Integrado de Educação Pública Rodesindo Pavan, foi a instituição beneficiada. “Antes nós tínhamos um laboratório sucateado que nem permitia o acesso dos alunos, agora nossa sala é toda equipada com os aparelhos que recebemos da Univali”, lembra a diretora da escola Ana Lúcia Fagundes Ternes.

O Ciep fica em Balneário Camboriú e recebeu 20 computadores transformados pelo Projeto Lótus. Agora, esses equipamentos permitem que os alunos tenham acesso à tecnologia e possam aprimorar os conhecidos aprendidos em sala de aula. “Nós também aproveitamos os computadores para auxiliar no ensino das crianças. Elas ficam entretidas com a internet e prestam mais atenção no professor”, destaca a diretora.

Pedro Henrique Mázera é um dos 298 alunos do Ciep. O primeiro contato que ele teve com um computador foi na escola. O garoto de 10 anos diz que o seu sonho é trabalhar com informática e fica eufórico na hora da aula de computação. “Eu acho muito legal brincar no computador. É bom quando a aula é aqui no laboratório, eu aproveito muito, por que na minha casa não tem computador”.

Além de beneficiar crianças como Pedro, a atitude do projeto Lótus vai bem mais além. Evita que quilos e quilos de lixo tecnológico sejam descartadas no meio ambiente. E o melhor de tudo: de uma forma econômica e viável. De acordo com o professor Fabiano Bortoluzzi, o custo para fazer isso não é muito alto, varia de 80 a 100 reais. Fabiano diz ainda que essa é “uma solução muito inteligente. Afinal, os caça-níqueis apreendidos pela polícia, antes ficavam no pátio da delegacia, ocupando lugar e poluindo o meio ambiente, agora serve como ferramenta de ensino.”

Segundo o Major da PM de Balneário Camboriú, Elder Martins, é crescente o número de apreensão de jogos de azar na região e a polícia não tem lugar onde armazenar tanto equipamento. “Esse projeto também acaba sendo interessante para nós, até enviarmos para Univali, as máquinas ficam no pátio da Delegacia, no lugar destinado aos carros apreendidos”.

Enquanto esperam ser liberadas para a Univali, as máquinas ficam no pátio da Delegacia, expostas ao tempo e muitas acabam estragando. Além disso, elas liberam substâncias altamente poluentes, que contaminam o lençol freático. Para Fabrício o Lótus tem condições de reaproveitar cada vez mais máquinas, só depende da liberação do Ministério Público. O material que não dá pra ser reaproveitado, a Univali doa para uma empresa de Florianópolis, que dá um destino adequado. Em troca desse serviço a universidade ganha um certificado de conformidade ambiental.

Veja outras maneiras de reaproveitar o lixo tecnológico:

 

 

Criança chinesa brincando no meio de toneladas de lixo tecnológico

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