“Se a vida não precisa de embalagem, você também não precisa”

Camila Guerra
Taiana Eberle

O Brasil produz 140 mil toneladas de lixo por dia, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2008, sendo apenas 12% de todo esse resíduo reciclado. Com tanto excesso de lixo e pouca reutilização e reciclagem, a poluição do meio ambiente é crescente, já que muitos materiais jogados fora levam anos para se decompor (veja a tabela 1). Um bom exemplo disso são as famosas sacolas plásticas. Símbolo do consumismo, elas levam até 400 anos para se decompor na natureza. Além disso, os saquinhos do supermercado também são os principais obstrutores da passagem da água em bueiros, bem como matam milhares de animais marinhos que ingerem o plástico, confundindo-o com alimentos.

Material Tempo de degradação
Latas de aço 10 anos
Alumínio 200 a 500 anos
Cerâmica Indeterminado
Chiclete 5 anos
Cordas de nylon 30 anos
Embalagens Longa Vida Até 100 anos (alumínio)
Embalagens PET Mais de 100 anos
Filtros de cigarros 5 anos
Metais (componentes de equipamentos) Cerca de 450 anos
Papel e papelão Cerca de 6 meses
Plásticos (embalagens, equipamentos) Até 450 anos
Sacos e sacolas plásticas Mais de 100 anos

*fonte: sacolas distribuídas pelo supermercado Bistek

Quando o inglês Alexandre Parkes inventou o plástico, em 1862 não imaginaria que quase 150 anos depois este material contribuiria para a degradação do meio ambiente. A inserção de sacolas plásticas no Brasil ocorreu na década de 1980, quando a ideologia de produtos descartáveis tomou conta do mundo. Fácil para carregar compras e, sem custo algum, as bolsas plásticas distribuídas em supermercados também foram alvo dos publicitários, que encontram nelas uma ótima ferramenta de divulgação. Entretanto, o consumo excessivo desse material juntamente com a falta de tratamento e reciclagem do lixo contribui para a poluição das cidades e do meio ambiente.

Países como Inglaterra, Alemanha, Irlanda e Itália (veja a tabela 2) há alguns anos adotaram leis que proíbem a distribuição das sacolas plásticas em supermercados. Cada consumidor deve levar sua própria bolsa e, para aqueles que esquecerem ou precisarem de um reforço a mais, são cobradas taxas por cada sacola plástica utilizada. A designer brasileira Camila Golin, 28, mora em Como (cidade ao norte da Itália que faz divisa com a Suíça) há três anos. Ela conta que estranhou no início, mas com o hábito acabou se acostumando. “Com o tempo você acostuma a levar as sacolas ou comprá-las no caixa na hora da compra”, relata. Nos supermercados da cidade, o preço de cada sacola plástica varia entre €0,04 a €0, 19, sendo as biodegradáveis as mais caras.

País Lei
Alemanha As lojas que distribuem sacolas plásticas devem pagar uma taxa de reciclagem ao governo, que investe em projetos de reciclagem.
Bélgica Em 2007 passaram a vigorar taxas sobre sacos plásticos, louças descartáveis e papel alumínio.
Dinamarca Desde 1994 cobrava impostos sobre materiais de embalagens plásticas. Em 2005 passou a cobrar também taxas sobre resíduos queimados ou enviados para aterros.
Espanha Pretende diminuir em 50% o consumo de bolsas plásticas, até o final deste ano.
França Quer proibir, a partir de 2010 o uso de sacos plásticos. Em Paris, são utilizadas somente sacolas biodegradáveis.
Inglaterra Em 2007 foi sugerida a proibição de sacos plásticos. Entretanto, no final de 2008, a proposta não foi mais aceita.
Irlanda Em 2002 o país implantou um imposto “Plas Tax”, sobre as bolsas plásticas, que reduziu em até 90% o consumo. Porém, em 2007 o valor da taxa aumentou, devido ao maior consumo do material.
Itália Entre 1989 e 1992 o pais utilizava um plástico especial para produzir sacolas. Desde 2007 adotou a utilização de sacos não biodegradáveis e pretende banir o uso de plásticos normais a partir de 2010.

* Fonte: Department of Environmental Protection

Confira também o artigo do jornalista André Trigueiro, especialista em jornalismo ambiental: Baixe aqui

Mas e no Brasil?

No Brasil as sacolas oxibiodegradáveis são apontadas como solução para o problema. Essas sacolas possuem um aditivo químico que potencializa o efeito de decomposição do plástico em contato com a luz, terra ou água. O aditivo encontrado nessas bolsas conta com catalisadores como o manganês e o níquel, dois metais que segundo o secretário estadual de meio ambiente do estado de São Paulo, Xico Graziano, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em 27 de julho de 2007,  permitem que o plástico se transforme em pequenas partículas até desaparecer a olho nú. No entanto, permanece na natureza. Ele afirma ainda, que se essa tecnologia fosse viável ambientalmente, o Canadá e a Inglaterra que desenvolveram o aditivo oxibiodegradável, o utilizariam e não é o que acontece.

Sacolas oxiobidegradáveis são uma alternativa, porém não a solução

Sacolas oxiobidegradáveis são uma alternativa, porém não a solução

Apesar disso, há quem aposte no poder de degradação até 100 vezes menor e na decomposição que leva no máximo três anos para acontecer das sacolas oxibiodegradáveis. Esse é o caso do governo do Paraná que distribui gratuitamente as sacolas.

Projetos que propõem a substituição das sacolas plásticas pelas biodegradáveis tramitam nas assembléias do Rio Grande do Sul, do Paraná e do Rio de Janeiro. Em São Paulo o projeto do deputado Sebastião Almeida (PT) chegou a ser aprovado pela Assembléia Legislativa, mas foi vetado pelo governador José Serra. Almeida defende que o ideal seria substituir as bolsas plásticas pelas de pano ou papel. Mas para ele ao menos as oxibiodegradáveis amenizariam o problema. Já que seriam capazes de acelerar a decomposição de bilhões de toneladas de lixo que ficam no ambiente a espera da degeneração.

Uma questão de comportamento

Que a sacola plástica é prática, desempenha com louvor a função de carregar as compras, protege os produtos do calor e da umidade e ainda por cima é resistente todo mundo sabe. Mas para o especialista em ciências políticas, sociedade e meio ambiente e problemas sociomabientais, Sérgio Saturnino, as bolsas plásticas são grandes vilãs quando o assunto é comportamento. Pelo fato de facilitarem a nossa vida de tal forma, que descartamos as coisas sem nem pensar duas vezes. “O problema da sacola plástica do ponto de vista socioambiental é que ela te tira com facilidade a responsabilidade ambiental”.

Além disso, o fato de se utilizar sacolas plásticas no cotidiano vai muito além do que um simples costume. Para Saturnino as sacolas refletem o comportamento da sociedade consumista em que vivemos. Por isso, o especialista aposta não apenas na substituição dos sacos plásticos pelos biodegradáveis, mas sobretudo na mudança de comportamento, a qual julga realmente essencial. “A sacola biodegradável é fantástica do ponto de vista ambiental, por outro lado se a gente continuar comprando aquele queijo com a bandejinha de isopor no mercado não adianta muito, apenas ameniza o problema”. O presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema) de Itajaí Caio Floriano dos Santos, compartilha da mesma opinião: “Mesmo a biodegradável leva um tempo para ter seu ciclo e se degradar, apesar de ser menos impactante”.

Uma prova de que é possível adquirir o hábito de se utilizar sacolas biodegradáveis é que antigamente as próprias donas de casa produziam as bolsas em que iam trazer as compras do supermercado. Quem contou essa história pra gente foi Dona Walmira Reis Maes Steffen, 76: “antigamente não existia nem sacolas plásticas nem supermercado, eram armazéns ou vendas. As bolsas eram feitas de pano, por costureiras ou então levávamos cestas de bambu, já que não existiam sacolas feitas de plástico”. Dona Walmira acredita que será difícil as pessoas se habituarem em levar as suas próprias sacolas, devido a variedade dos produtos oferecidos no supermercado e praticidade das bolsas de plástico: “Antes, não havia tanta variedade de alimentos como hoje, o que faz com que precisemos de mais sacolas para uma maior quantia de produtos”.

Saturnino aponta como solução a diminuição do consumismo. Segundo ele deveríamos fazer como nos filmes americanos em que as pessoas saem com aquele pacote enorme na mão, que tem que levar no colo. A jornalista Cristina Amorim, do Estado de São Paulo, em entrevista ao site Planeta Sustentável em 29 de outubro de 2009, descorda. Para ela é um incômodo ficar arrumando os alimentos em sacolas de pano: Leia mais.

Outro aspecto levantado pelo professor é que as pessoas em geral não pensam no custo ambiental que cada produto carrega. Para Saturnino as pessoas tem que começar a ter consciência de que durante a fabricação o produto impactou o meio ambiente e essa interferência precisa ser compensada de alguma forma. “Tem alguns municípios que querem anular o uso de sacolas plásticas. Eu confio mais nas crianças, educar as crianças em relação a isso, porque pra nós é mais difícil mudar o comportamento, a gente não vê o custo ambiental”.

As sacolas plásticas divergem opiniões

Caio Floriano dos Santos que também é oceanógrafo, explica que as sacolas plásticas são feitas de resinas derivadas do petróleo, substância que leva centenas de anos até se desintegrar e, portanto desaparecer do meio ambiente.  Enquanto estão no ambiente além de entupir bocas de lobo e causar inundações nas cidades, as sacolas também vão para os oceanos. Lá frequentemente cruzam o caminho de animais que as comem por confundi-las com medusas, por exemplo.

turtle

Tartarugas frequentemente confundem sacolas plásticas com alimento.

Fonte:  Mundo quente

Em entrevista a revista Superinteressante, de dezembro de 2008, o cientista Charles Moore, da Fundação Algalita de Pesquisa Marinha da Califórnia, nos Estado Unidos, afirma que 80% da poluição marinha é descendente do que se produz na terra. “O oceano fica num nível mais baixo do que qualquer lugar no planeta. O entulho plástico não vem só da costa, mas dos estados do interior, do escoamento dos rios. O oceano é o destino final de todo o nosso lixo”. Em uma reportagem exibida pelo Fantástico, em 15 de fevereiro, é possível perceber a situação da poluição na região do Oceano Pacífico, nos Estados Unidos, e também nas Ilhas Maldivas:

A indústria do plástico se defende ao afirmar que as sacolas plásticas são higiênicas, reutilizáveis e tem múltiplos usos. Também afirmam que o produto é de grande importância para 80% dos consumidores que vão fazer compras a pé ou de ônibus. “O plástico faz parte da vida contemporânea, é 100% reciclável e está em milhares de produtos”, divulgado no site Planeta Sustentável em 29/10/2009.

No entanto, alguns supermercados já vem disponibilizando as sacolas retornáveis. Esse é o caso de uma rede de supermercados da região do Vale do Itajaí que oferece aos clientes a chamada “sacola ecológica”, com o custo de R$ 4,99. O subgerente da sede em Brusque, Índio Gabriel Macedo Selau, relata que geralmente são as pessoas que vem ao supermercado todos os dias que tem maior interesse em adquirir as sacolas retornáveis e que, geralmente são clientes de mais idade. “As pessoas que vem somente uma vez por mês e fazem compras maiores preferem as sacolas plásticas”, conta. Outra política adotada pela loja é a utilização das bolsas plásticas biodegradáveis distribuídas gratuitamente e de caixas de papelão para o transporte de compras, evitando assim o excesso de sacolas.

Outra rede de supermercados da cidade também tem preocupação com os impactos ambientais resultantes da poluição. Além de distribuir mudas de árvores todos os anos no dia 21 de setembro, o supermercado utiliza um controlador de sacolas, o que diminui o excesso de poluição e de gastos. De acordo com o gerente da desta loja, Cleber Trevisan, são pessoas de maior poder aquisitivo que se interessam pelas sacolas retornáveis (com o custo de R$ 4,69) ou as biodegradáveis (R$ 2,57). “Temos tendência a cada vez mais utilizar as sacolas ecológicas, estamos inclusive desenvolvendo outros modelos, como mochilas, por exemplo, para que a pessoa se interesse mais”, afirma.

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