As margens da indecisão

Governo de Santa Catarina abre debate sobre o código florestal e amplia interesse da nova lei, criando um impasse com o governo Federal.

Analú Vignoli
Jonas Augusto da Rosa

Um problema ambiental, social e constitucional, que resulta em movimentos e discussões, prós e contras. São alguns dos pequenos fragmentos do código florestal de Santa Catarina, que repercute na mídia nacional, divergindo opiniões.

O código florestal criado pelo estado de Santa Catarina, tenta se opor a lei federal, mas para ser colocado em vigor, será necessário ultrapassar as regras da nação. Os pontos levantados para que a lei do estado seja utilizada, está entre a fiscalização dos órgãos ambientais, até a aceitação dos municípios, através das diretrizes de agricultura e meio ambiente. De um lado o Ibama fiscaliza as regras impostas pela lei federal, do outro, a Fatma e a Polícia Ambiental impõe as práticas da lei catarinense. Continue lendo »

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Ciclones, tornados e enchentes: Santa Catarina em alerta?

Porque este Estado é um dos mais vulneráveis às manifestações climáticas e o que a meteorologia prevê para a região nos próximos anos

Ana Paula Laux

Felipe da Costa

Renara Almeida

Robson Souza dos Santos

Rua de Itajaí alagada durante a enchente de 2008

Março de 2004. Onze mortos, 35 mil desabrigados, 40 municípios em estado de emergência. Saldo do furacão Catarina, que passou pelo Estado naquele ano, devastando a região. Novembro de 2008. Enchentes afetaram 1,5 milhão de pessoas, vitimaram mais de 100 catarinenses e desalojaram 50 mil, principalmente na região do Vale do Itajaí. Setembro de 2009. Ventos de até 180km/h, da natureza de um tornado, destruíram a cidade de Guaraciaba, no extremo oeste do Estado, afetando mais de 70 mil pessoas num raio que envolveu quarenta e cinco cidades. Como explicar a alta incidência de tornados, granizo, enchentes, e até a ocorrência de um furacão em Santa Catarina? Por que este é um dos Estados mais afetados por fenômenos climáticos no Brasil?

A região Sul é a única do país marcada exclusivamente pelo clima subtropical, que é uma mistura de clima tropical, vigente nas demais regiões do país, e temperado, sob o qual a Argentina sofre maior influência. Isto explica as temperaturas mais baixas em Santa Catarina, que levam à ocorrência de geada e neve em cidades como São Joaquim e Uurubici, por exemplo. Os ventos característicos do sul também são indicativos influenciadores. No verão predominam ventos que provocam uma alta nas temperaturas e fortes chuvas. No inverno, o popular vento sul, formado por massas frias vindas do Pólo Sul, causa sensação de frio mais intenso, principalmente nas cidades gaúchas. Este encontro geográfico dos ares quentes e frios ajuda a entender as distinções entre o clima dos estados sulinos, por exemplo, e nortistas, já que cada região apresenta suas especificidades e manifestações climáticas.

Apesar do esclarecimento científico, os números ainda assustam. Dados da Defesa Civil de Santa Catarina indicam que, entre 1975 e 2007, ocorreram 43 tornados no Estado. Dentro deste levantamento estão incluídas também as trombas d’água, que são os redemoinhos formados sobre superfície aquosa – no mar ou em rios. Segundo Gabriel Brito Costa, meteorologista do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Santa Catarina localiza-se em uma região subtropical, que tem o clima controlado por penetrações e choques de duas massas de ar – a massa de ar tropical marítima e a massa de ar polar marítima, de origens e propriedades físicas diferentes. “O choque entre estas massas causa desequilíbrio no tempo, tornando-o instável e suscetível à geração de várias intempéries”, explica. Então, o quadro climático catarinense é, de certa forma, esperado. “Relevo e altitude, quando há o predomínio de muitas serras e regiões montanhosas, por exemplo, e a distribuição de terra e água são os principais fatores de interação com sistemas atmosféricos em Santa Catarina, e muitas vezes determinantes para a ocorrência destes eventos extremos”, explica. Para o meteorologista, as forças da natureza que vem assustando catarinenses não fogem da normalidade, embora quem aqui viva sinta que, a cada ano, crescem as turbulências ambientais.

A influência dos fenômenos climáticos

Diorgenes Pandini

Móveis foram inutilizados em Itajaí após a enchente de novembro de 2008

Em novembro de 2008, o Vale do Itajaí registrou um período de quatro meses de chuva contínua. Rios transbordaram e afetaram sessenta cidades, matando 135 pessoas e causando deslizamentos de terra, danos no sistema de energia e água, destruição de casas e plantações e doenças decorrentes do contato com a água suja, como a leptospirose. No caso de Itajaí, as construções irregulares dificultaram o escoamento da água da enchente. Além disso, existe a impermeabilização do solo (que faz com que a água chegue com mais força em certos lugares). Juntando esses fatores com uma chuva intensa, os problemas vão se somando e resultando em tragédia.

Mas como explicar tanta chuva, por tanto tempo, estacionada por aqui? Na ocasião, uma série de fatores provocou a enchente: um aquecimento histórico do Oceano Atlântico Sul, a influência do La Niña e uma passagem de frente fria pelo Estado, que se transformou numa frente estacionária no sudeste. Mas é preciso tomar cuidado com as generalizações. Os populares “niños”, que tanto dão o que falar, são fenômenos que influenciam diretamente a temperatura do Oceano Pacífico, provocando aquecimento ou resfriamento das águas. Eles afetam diretamente o comportamento climático, causando conseqüentes alagamentos, deslizamentos de encostas e enchentes, mas segundo Sergey Alex de Araújo, professor e coordenador do laboratório de Climatologia da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), isso acontece em várias regiões do Brasil. “O El Niño poderá trazer forte estiagem na Amazônia, por exemplo, assim como La Niña trouxe fortes chuvas no ano passado e início desse ano na mesma região”.

Araújo afirma ainda que o aquecimento global nada tem a ver com os últimos acontecimentos climáticos: “A nossa situação agora está ligada ao El Niño e a La Niña. Pode ser que, lá na frente, façam uma correlação com o aquecimento global, e que tenhamos esses fenômenos mais severos, mas por enquanto não há nenhuma relação com os desastres”. Estes efeitos devem ser sentidos sim, mas na prática só daqui a alguns anos. Um exemplo disso é o estudo divulgado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, em outubro, afirmando que, em 10 anos, o Pólo Norte deve descongelar quase que completamente. A previsão é a de que ¼ da população mundial seja afetada por inundações.

É natural que, na iminência de catástrofes ambientais impactantes, um medo em comum floresça no inconsciente coletivo de quem vivencia este tipo de experiência. Afinal, como se comportará o clima em Santa Catarina daqui para frente? Os tornados, fenômenos de maior incidência, irão certamente continuar ocorrendo. Ultimamente, vêm sendo freqüentes as cidades catarinenses que decretam estado de emergência em decorrência de danos causados por eles. Já as médias e grandes enchentes dependem de fenômenos climáticos. “Qualquer passagem de sistema frontal que traga chuva em maior intensidade poderá ocorrer pela estrutura que nossas cidades apresentam hoje: grande impermeabilização do solo, problemas com drenagem, ocupação de áreas de risco”, afirma Araújo.

Na verdade, as condições que propiciam a ocorrência destes eventos extremos sempre existiram no Estado, assim como os próprios eventos. A mudança está, sim, nos prejuízos e na repercussão. “Muitas regiões onde antes não havia nada hoje são urbanizadas, e estes eventos tendem a propiciar perdas humanas e materiais nos locais afetados”, diz Gabriel Brito. É um indicativo do crescimento desordenado das cidades. Não é rara a construção de casas em beiras de rios ou em morros passíveis de deslizamento. “Muitas cidades se formaram em zonas de risco, ou seja, planície e inundações. O rio tem uma calha, as calhas vão enchendo e começam a transbordar”, alerta Araújo. A falta de fiscalização contribui para a degradação ambiental, porque ocorre a falta de destino adequado para o esgoto, ameaçando também a fauna local. Além disso, as pessoas também têm mais acesso à informação, numa velocidade maior e, por isso, ficam sabendo com mais exatidão e detalhamento do acontecido. “Quando eu morava em Chapecó, isso em 1986, um tornado atingiu a minha rua. Meu telhado foi parar cinco casas depois. Hoje em dia, sempre tem alguém com celular na mão para filmar, tirar foto… mas sempre houve tornado em Santa Catarina, isso é normal dessa região”, lembra Araújo.

Documentário: Águas de Novembro

Quem previne as catástrofes ambientais em Santa Catarina?

Quanto ao processo de previsão de fenômenos climáticos, a ciência dispõe de recursos como imagens de satélite, radares meteorológicos e modelos de previsão numérica, além de fazer o acompanhamento de variações bruscas de pressão atmosférica, temperatura e umidade relativa do ar. Dessa forma, pode-se desenvolver um prognóstico mais preciso para que, se necessário, emitam-se sinais de alerta à população. Oficialmente, esses alertas são dados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Os dados são repassados para órgãos estaduais – em Santa Catarina, o CIRAM/EPAGRI -, que centraliza as ações para evitar a interferência de informações.

Acesse o Atlas de Desastres Naturais do Estado de Santa Catarina (Grupo de Estudos de Desastres Naturais – UFSC)

Há também a ação de grupos focados na pesquisa e prevenção de catástrofes ambientais, como o Grupo Técnico Científico, com sede em Florianópolis. O GTC consiste numa equipe composta por membros de dezoito instituições catarinenses, como faculdades, centros de informação climática e a própria Defesa Civil, e tem o objetivo de fazer uma avaliação técnica das catástrofes ambientais ocorridas no Estado para, dessa forma, propor projetos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de natureza preventiva. São todas ações conjuntas, operacionalizadas num esforço para impedir que a população seja pega de surpresa.

“Nos juntamos e começamos a rezar”

No segundo semestre desse ano, uma tragédia trouxe pânico a uma pequena comunidade do extremo-oeste catarinense. Na noite de 7 de setembro, Guaraciaba, cidade de colonização alemã e italiana com pouco mais de dez mil habitantes, foi invadida por ventos de 120 a 180km/h, que chegaram a cortar árvores ao meio. Três dias depois, técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmaram a ocorrência de um tornado. Um levantamento da Prefeitura de Guaraciaba contabilizou a destruição total de cento e vinte residências e destruição parcial de outras cem construções, como ginásios e igrejas. Quatro pessoas morreram, e outras oitenta e nove ficaram feridas.

Fotos de Guaraciaba após a passagem do tornado

Ivone Maria Venhorst

Ginásio de uma escola completamente destruído após a passagem do tornado em Guaraciaba

O tornado, que também atuou em parte da Argentina, ganhou grande repercussão pelo fato de ter atingido núcleos urbanos. Seu processo se deu pela formação de tempestades severas e pela passagem de várias frentes pelo Estado. Giseli Primaz, estudante de 15 anos, mora em Guaraciaba e passou pela experiência. “Estava assistindo televisão em casa. Chovia um pouco e havia vento. De repente, começaram a cair pedras do céu”, lembra. Assim como a maioria dos habitantes, ela pensou ser uma forte chuva de granizo. Foi apenas na manhã posterior ao fenômeno que percebeu que o estrago tinha alcançado proporções maiores. “A cidade ficou arrasada: casas, clubes, igrejas, ginásios, escolas e até matas virgens foram destruídas”. Uma das variações notadas no tempo foi uma brusca mudança na temperatura, do calor para o frio. Ao anoitecer, o céu apresentou bordas amareladas e avermelhadas, casando com o aparecimento de relâmpagos que estouraram horizontalmente, como veias ramificando-se no céu. “Eu estava com a minha família na hora. Procuramos o lugar mais seguro da casa, a cozinha, para nos refugiarmos. Nos juntamos e começamos a rezar. Foi uma sensação horrível, momentos de puro terror”.

Sair de casa durante a passagem do tornado tornou-se tarefa impossível, pois o vento agia com uma força intensa na cidade. Eles tiveram duração de pouco mais de uma hora, e mesmo após a diminuição de intensidade a chuva persistiu. Giseli lembra que o vento vinha de todas as direções, pressionando a janela de sua casa como se fosse estourá-la, o que a fez segurar uma das janelas com um colchão. Cinthia Borsatto, 16 anos, auxiliar de escritório, conta que presenciou o momento em que a casa ao lado da sua foi parcialmente destruída. “Pude enxergar o telhado da vizinha levantar totalmente. Havia uma fumaça branca cobrindo nosso bairro. Logo, as telhas da minha casa também voaram”. Em meio ao tornado, ela se refugiou no banheiro de sua casa com os pais e a irmã de seis anos. Após a passagem, a sensação de assombro era comum. Houve queda de energia por um bom tempo – em alguns bairros a restituição demorou vinte dias, e a água faltou na maioria das casas. Foram três dias até que a prefeitura normalizasse o abastecimento de água. “Havia pessoas chorando, relutando em abandonar suas casas. Muitos desabrigados e muita destruição. Parecia um cenário de guerra”.

Resta esperar que, futuramente, o comportamento climático não sofra alteração causada pela conjunção de fatores como as sentidas nestes últimos anos. Certamente, contribuir hoje para um desaceleramento do aquecimento global, como coibir queimadas, optar por aparelhos que consumam menos energia e economizar água, entre outras medidas, trarão uma ponta de esperança para as gerações futuras, já que São Pedro não é lá muito acessível. O problema ao alcance de ser trabalhado mora nos danos já causados ao planeta, e em como iremos lidar com estas consequências num futuro bem mais próximo do que imaginamos.

Acompanhe abaixo como se dá a formação de um tornado

Infográfico: Joel Minusculi


Flargrante de tornado em Urupema, SC

O fenômeno foi gravado em 3 de dezembro de 2008, às 20h09min

Imagens: Wilson Prado

Setor Agropecuário é atingido pelas catástrofes

Além de todos os danos de infra-estrutura causados pelos desastres naturais em Santa Catarina, um setor da economia que foi bastante prejudicado é o agropecuário. Somente em Itajaí morreram 955 bovinos na enchente de 2008, mais do que a soma destes animais mortos em Blumenau, Ilhota, Luis Alves e Gaspar, que foi de 764. Em se tratando de suínos, os números são quase iguais: 62 no município de Itajaí e 60 nos outros quatro municípios.

Apesar do número alto de mortalidade destes animais, o médico veterinário Ivanor Baldasso, coordenador de pecuária da administração regional de Blumenau da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc), acredita que o maior prejuízo foi o relacionado à piscicultura. “Não temos como quantificar os peixes mortos, mas a perda foi praticamente total”.

Foi também por causa da enchente que Ilhota perdeu em torno de 20% da plantação de arroz, que estava no início. Este número assusta, pois a planta é bastante resistente a inundações, já que precisa atravessar uma lâmina de água para atingir a maturidade.  “O maior problema foi a enxurrada. A correnteza destruiu a estrutura das plantações, principalmente nas localidades do Baú Central e Braço do Baú”, relata o técnico agropecuário da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), Marco Túlio de Oliveira.

Guaraciaba, por sua vez, foi bastante prejudicada no setor leiteiro. A cidade é a segunda maior bacia leiteira do Estado, e cerca de 90% dos produtores rurais têm esta produção como principal fonte de renda. Segundo relatório da Epagri realizado na semana do tornado, após a data deixaram de ser produzidos, diariamente, cerca de 50 mil litros de leite. Este número se deve às máquinas de ordenha que foram danificadas, aproximadamente 270, e aos 200 bovinos mortos na catástrofe. No relatório parcial divulgado pela prefeitura no dia 12 de setembro de 2009, os danos da produção agrícola e pecuária no município chegaram a ultrapassar os R$18 milhões.

Já as chuvas de granizo, que ocorreram no final de setembro, prejudicaram fortemente as produções de hortaliças. No município de Antônio Carlos,  que é o maior produtor do Estado, 80% das famílias, em média, trabalham com hortifrutigranjeiros. Durante a madrugada do dia 26 cerca de 80% da plantação foi destruída. Em algumas localidades, inclusive, a perda foi de 100%. Em Ilhota, além da perda de 95% da plantação de hortaliças, o que chega a aproximadamente 85 toneladas, também houve prejuízo em torno de 890 toneladas de banana. Os danos aproximaram-se dos R$ 475mil.

Boa parte dos prejuízos causados no setor agropecuário foi recuperada. Do município de Blumenau, 264 bovinos foram indenizados pelo Fundo de Defesa Sanitária Animal (Fundesa), mas 63 foram rejeitados por falta de documentos, segundo Baldasso. Na agricultura, somente os produtores que têm a lavoura financiada recebem o seguro da instituição financeira, que é obrigatório para obter o serviço, mas a falta de documentos também é um dos motivos apontados por Oliveira para os produtores não receberem. Além disso, há o prazo de quatro dias para apresentar a comunicação da perda, que deve ser acima de 40% da produção. Entretanto, o técnico aponta que, no caso da enchente, todos os produtores foram ressarcidos.

Entrevista com Leandro Puchalski – “Muitas pessoas não acompanham a previsão do tempo, e aí são ‘surpreendidas’ por temporais”

Leandro Puchalski é meteorologista formado pela Universidade Federal de Pelotas. Ele trabalha na Central RBS de Meteorologia desde 1999 e, todo dia, informa telespectadores sobre as previsões de chuva, granizo, temporais e mudanças de temperatura no Estado. Nesta entrevista, Puchalski avalia o panorama do clima catarinense e as possibilidades de eventos como o furacão Catarina atingirem o Estado novamente.

1. Para muitos, o tornado ocorrido em Guaraciaba este ano tomou proporções maiores e não esperadas. Até que ponto é possível prever a intensidade destes tornados? Este tipo de evento é mais noticiado nos dias de hoje ou vem realmente aumentando com o passar dos anos?

R. O forte temporal que ocorreu no estado no dia 7 de setembro passado foi amplamente divulgado com dias de antecedência por vários meios de meteorologia do Estado. Muitas vezes, as pessoas não acompanham a previsão do tempo, o que é perfeitamente normal, e aí sim são “surpreendidas” por temporais. Esse tipo de condição do tempo é perfeitamente previsível com a tecnologia que hoje a meteorologia no Brasil possui. Eventos como tornados já começam a ter uma outra realidade. Esses eventos extremos ocorrem de nuvens fortemente carregadas que chamamos de cumulunimbus, que têm potencial para desenvolver um tornado, mas que felizmente apenas 1% realmente desenvolve. Então para se prever o tornado, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, há necessidade de se esperar a nuvem se formar e, só depois disso, monitorá-la para ver se vai ou não produzir o tornado. A ferramenta para isso se chama radar dopler, que infelizmente não temos em operação com facilidade no Brasil. Portanto, hoje em dia nenhum meteorologista vai informar a previsão de tornado, mas vai informar a previsão de forte temporal com granizo e rajada de vento, que é uma informação que a população pode tirar grandes proveitos no intuito de evitar estragos.

2. Em novembro de 2008, a região do Vale do Itajaí enfrentou uma das piores enchentes de sua história. Este ano, a mídia vem noticiando a ocorrência constante de frentes frias atravessando o Estado, e a incidência de chuvas fortes nesta mesma região. Há uma intensificação quanto à quantidade e volume de águas que atingem Santa Catarina nestes últimos anos, ou o clima comporta-se de forma equilibrada e esperada? Pela sua geografia, o Vale do Itajaí será sempre uma região constantemente propensa a enchentes?

R. Quando se entra no assunto de clima, não de tempo, que são coisas diferentes, temos que ter muito cuidado para afirmar que uma região está tendo uma mudança para mais ou para menos dos volumes de chuva. Para se assegurar uma mudança climática em Santa Catarina, é necessário avaliar um período de pelo menos cinquenta anos para ver se realmente, ao longo desse período, a chuva aumentou ou diminuiu. Num período menor, corremos um grande risco de analisar uma exceção como regra, já que a natureza, ao longo dos anos, já apresentou períodos de muita chuva e outros de pouquíssima, voltando logo em seguida à normalidade da região. O que ocorre nesse ano em nada tem haver com mudança de clima, apenas com o El Nino, que quando atua aumenta a chuva no sul do Brasil. Portanto, podemos dizer que essa chuva acima da média nesse ano é completamente esperada, já que se tinha a previsão de um El Niño para 2009. Em relação ao Vale do Itajaí, podemos dizer sim, que essa é uma região mais propensa a enchentes devido a sua geografia. Na região, temos rios que sobem quando temos muita chuva e, além disso, a proximidade com o litoral faz com que a umidade vinda dessa região em contato com os morros facilmente forme nuvens de chuva.

3. Até que ponto fenômenos como o aquecimento global, o El Niño e La Niña influenciam negativamente o clima no Estado? Estes agentes de alteração climática podem explicar o aumento da média de chuvas e tornados nesta região?

R. Com toda certeza eventos como El Niño e La Niña alteram a chuva no Estado. O primeiro aumentando, e o segundo sendo responsável por fortes secas. No aspecto mudanças climáticas também, mas com a ressalva que há a necessidade de um estudo bem maior, com maior período histórico, para se saber o que realmente afeta. Aqui vale lembrar que esse é um assunto de discussão científica, portanto ainda no grau de hipóteses. Uns cientistas dizem que sim e outros que não. Os que falam que sim, afirmam que eventos extremos serão cada vez mais freqüentes devido a maior quantidade de energia disponível na atmosfera através do aquecimento. Os que falam que não, afirmam que a terra passa naturalmente por períodos de aquecimento e resfriamento ao longo da história.

4. Quais as previsões climáticas num futuro próximo para os catarinenses? Há possibilidade de ocorrência de um novo furacão Catarina, por exemplo, ou aquele foi um fenômeno isolado?

R. A previsão até o final do ano é da atuação do El Niño, ou seja, chuva acima da média em cada mês. Sobre o furacão Catarina, podemos dizer que foi um fato extremo que até então nunca tinha ocorrido. Fatos extremos não ocorrem regularmente, portanto, sem previsão de ocorrência a curto e médio prazo. Ao longo dos anos? Bom, se já ocorreu uma vez, estatisticamente poderá voltar a ocorrer.