Audição Tech

A evolução tecnológica  alcança nossos sentidos

Marina Liz Dalcastagne
Sarita Gianesini

Pare por um instante e preste atenção somente no que seu ouvido lhe diz. Ouça mundo à sua volta: as vozes das outras pessoas, os carros passando na rua, o vento mexendo as folhas das árvores. Os ruídos do seu próprio corpo, os movimentos respiratórios, o coração batendo.

Agora, tente imaginar toda sua vida na tecla mute do controle remoto. Faça de conta que você percebe as pessoas movimentando os lábios, mas não entende o sentido disso. Imagine como seria não saber que alguém está lhe chamando, que melodia tem uma música ou como é a sua própria voz.

É difícil imaginar um mundo sem sons, mas de acordo com os dados do Censo 2000 (IBGE), esta é a realidade de cerca de 5,7 milhões de brasileiros que tem algum grau de deficiência auditiva, dos quais pouco menos de 170 mil se declararam surdos.

De acordo com a professora do curso de Fonoaudiologia da Universidade do Vale do Itajaí, Karla Zimmerman, a perda auditiva pode ser condutiva, neurossensorial ou mista. É condutiva quando o problema está na orelha e no conduto auditivo. Neurossensorial quando ocorre na cóclea ou no nervo auditivo. E mista quando há falhas tanto na condução dos sons para o ouvido interno, quanto na transmissão da informação sonora ao cérebro. As perdas auditivas também são mensuradas em uma escala de decibéis, que vai de 0 a 120, conforme o gráfico:

Speech Banana, disponível em http://www.phonak.com

Speech Banana“: os fonemas que compõem a linguagem são percebidos em uma área de tons e frequência próxima. Fonte: Phonak.

A fonoaudióloga Ívina Bauer, de Brusque, explica que pessoas com perda auditiva severa conseguem ouvir conversas muito altas, mas sem a distinção de palavras. Já na perda auditiva profunda, somente sons como o das vuvuzelas sul-africanas, que chegam à 116 decibéis, são percebidos. “Você pode colocar um trio elétrico no meu quarto que não identifico nada. Sinto as vibrações sonoras, mas escutar, não escuto nada”, conta Tarcísio Chaves, 39, que perdeu a audição há 11 anos e desde 2005 voltou a ouvir com um recurso tecnológico, o implante coclear.

Quando o problema de audição não pode ser solucionado com medicamentos ou cirurgia, existem opções tecnológicas. A evolução dos aparelhos auditivos beneficia pessoas com os mais diversos tipos de surdez, facilitando a inclusão em um mundo de maioria ouvinte. Agora, vamos conhecer algumas destas tecnologias.

Implante Coclear

O implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta complexidade tecnológica, que permite que pessoas com perda auditiva severa ou profunda passem a ouvir. Também conhecido por ouvido biônico, é composto por duas unidades, a interna e outra externa.

O componente interno possui uma antena interna com um ímã, um receptor estimulador e um feixe de eletrodos, envolvido por um tubo de silicone fino e flexível. Com uma cirurgia, o dispositivo da antena e do ímã fica sob o couro cabeludo, ancorado no crânio, que é levemente escavado e o filamento de eletrodos é introduzido na cóclea. Já o dispositivo externo do implante, é composto por microfone direcional, processador de fala, antena transmissora e dois cabos.

Um mês após a cirurgia de implante, o paciente recebe o componente externo e o dispositivo é ativado. A partir de então, a pessoa ouve pela primeira vez ou volta a ouvir. Confira na animação do FDA como funciona a audição normal, a perda auditiva e o implante coclear.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Ouvido normal, ouvido com perda de audição e procedimento de implante coclear. (Fonte: FDA)

De acordo com a Associação dos Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear, Adap, 14 centros de implante operam pelo Sistema Único de Saúde (SUS), seguindo os critérios determinados pela Portaria nº1278/GM do Ministério da Saúde. São candidatos ao ouvido biônico pelo SUS pessoas com perda auditiva bilateral (nos dois ouvidos) severa ou profunda, que não têm reconhecimento auditivo eficaz com o uso do Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI).

Durante o Segundo Simpósio de Implante Coclear do Hospital Iguaçu, em 2007, a cirurgiã otológica Trissia Vassoler destacou que a operação não é suficiente para a obtenção de resultados com o implante coclear. O trabalho reúne uma equipe multidisciplinar, formada por médicos, fonoaudiólogos, psicólogos e assistentes sociais. Após a cirurgia, o implantado precisa realizar um trabalho contínuo de terapia fonoaudiológica para adaptação.

No vídeo abaixo você pode ter uma noção de como é a vida de um usuário de implante coclear.

Em Santa Catarina, a primeira cirurgia de implante coclear foi realizada em 2007, pelo otorrinolaringologista Cláudio Ikino, no Hospital Universitário da UFSC. Desde então o processo de credenciamento para o HU-UFSC virar centro de implante coclear tramita em Brasília, aguardando autorização do Ministério da Saúde. Claúdio Ikino, que realiza implantes pela rede privada, explica que ao mês, em média dois potenciais usuários de implante coclear são encaminhados para núcleos fora de Santa Catarina. O custo do dispositivo, em torno de 58 mil reais, é um dos motivos para a demora na abertura de novos centros públicos de implante.

Você pode comparar como é ouvir com implante coclear e como uma pessoa com audição normal ouve. É só clicar nos áudios abaixo, primeiro, há o som dos usuários de implante e logo em seguida a audição ‘normal’:

De uma pessoa falando…

De uma música…

Do telefone…

BAHA

Alguma vez você já se perguntou o que é o som? O som resulta de vibrações na matéria, seja no estado sólido, líquido ou gasoso. Quando ouvimos, significa que algum objeto causou deslocamentos no ar. Pois é baseado nesta característica mecânica que funciona o sistema BAHA (Bone Anchored Hearing Aid). Traduzindo seria algo como “aparelho auditivo de transmissão óssea”.

Assim como o ar, os ossos podem conduzir o som, levando as vibrações sonoras direto à cóclea por um caminho diferente, que utiliza o crânio ao invés da orelha externa e média. Diferente do implante coclear, que oferece um estímulo elétrico, no BAHA o estímulo é acústico, próximo da audição normal.

A ilustração abaixo mostra o funcionamento e as partes que compõem o BAHA.

Como funciona o BAHA? (Fonte: Cochlear)

  1. O processador de som captura os sons e os converte em vibrações;
  2. A junta conectiva transfere o som do processador para o implante de titânio;
  3. O pequeno implante de titânio fica no crânio, atrás da orelha, onde se funde ao osso em uma ligação muito forte. O implante transfere as vibrações sonoras através do osso diretamente para a cóclea, sem passar pelo ouvido externo e médio;
  4. Essas vibrações sonoras fazem com que o fluido no ouvido interno movimente as células ciliares da cóclea, enviando o sinal sonoro para o cérebro. E faz-se o som.

 

De acordo com o Dr. Claudio Ikino, o sistema BAHA é indicado em casos de atresia de conduto (em que a pessoa nasce com o canal auditivo fechado), para pacientes que não podem usar o AASI por dermatites ou pus no canal do ouvido e, ainda, em caso de perda auditiva unilateral. Primeiro médico a realizar a cirurgia de BAHA em Santa Catarina, Ikino ressalta que Ministério da Saúde ainda não incluiu o aparelho na relação de próteses fornecidas pelo SUS, mas analisa esta possibilidade. Caso seja aprovado, os centros que já realizam implante coclear serão autorizados a fazer a cirurgia.

Para ouvir e ver melhor

 O SARDA (Software Auxiliar na Reabilitação de Distúrbios Auditivos) foi desenvolvido por uma equipe de pesquisadores e alunos de Fonoaudiologia, Ciências da Computação, Design Industrial e Jornalismo da Univali, com objetivo de contribuir para reabilitação de distúrbios auditivos e desenvolvimento de algumas habilidades auditivas.

A coordenadora do curso de Fonoaudiologia da Univali Sinara Hütner reforça que o SARDA é uma ferramenta que não substitui a terapia convencional. Apesar da facilidade de ser web, o programa precisa da orientação do professor ou fonoaudiólogo para ser aplicado. Para saber mais sobre o SARDA assista ao vídeo produzido pela acadêmica Caroline Weiss:

 Saed

 Em frente ao computador, Rafael Pereira, 7, de Brusque, trabalha com o programa DOSVOX, sistema para deficientes visuais. O estudante da segunda série está em processo de alfabetização e, por enquanto, só forma dissílabas. Ainda que Rafael não tenha a visão totalmente comprometida, é difícil acompanhar os colegas de classe. Por isso, duas tardes por semana, o garoto frequenta a Escola de Educação Básica Dom João Becker, única em Brusque que oferece gratuitamente o Serviço de Atendimento Educacional Especializado (Saed).   

Rafael utiliza as ferramentas da sala DV

Rafael utiliza as ferramentas da sala DV”. Crédito: Marina Liz.

De acordo com a responsável pela sala DV (Deficientes visuais) Terezinha Ivone Casola, alguns alunos já saíram de lá totalmente independentes. A tecnologia está presente na sala DV através do programa DOSVOX e da lupa eletrônica, programa que auxilia a leitura e a escrita de pessoas com baixa visão.