Invasão da “Onda Verde”

O marketing sustentável atinge a sociedade e questiona se é modismo ou preocupação ambiental

Caroline Dall’agnol
Jamile Tonini
Vivian Santana

Você já viu alguma propaganda com imagens de árvores e palavras de conscientização ecológica e logo depois lhe indicaram a comprar algum produto biodegradável ou reciclado?  Provavelmente sim. Pela expectativa do mercado isso será cada vez mais frequente, é a onda verde que atingiu a publicidade empresarial.

O modismo do marketing sustentável é fruto da própria cobrança de mercado. Pesquisas científicas das últimas décadas levantaram informações alarmantes sobre o resultado da ação do homem na natureza. As projeções reveladas são catastróficas, tanto para o planeta quanto para o próprio homem, caso não haja uma mudança brusca de comportamento. A partir dessas informações, cresceu o número de ONGs e grupos com apelo ambiental, tendo na internet sua principal aliada de divulgação.

Dessa forma, o mercado se adapta à necessidade de se ter produtos e empresas “ecologicamente corretas” há algum tempo. Nos últimos dez anos houve uma massificação do surgimento de mercadorias verdes, campanhas de grandes empresas, as quais incentivam a reciclagem e uso consciente dos recursos naturais. A exemplo da Telecomunicações Vivo, dentre outras, a qual utiliza a ideia de tecnologia a serviço do meio ambiente.

Muitas pessoas têm um pé atrás quando se fala em publicidade, pois a mesma é associada a “enganar” ou “enrolar” para vender um produto.  “Os bons profissionais pagam pelos maus, mas toda essa questão de publicidade sustentável vem para mostrar que estamos a serviço da sociedade em geral e não só das empresas. Infelizmente, sabemos que algumas utilizam essa arma apenas para se promover e não têm comprometimento com a questão ecológica. Porém, os consumidores estão cada vez mais atentos e seletivos. Esse tipo de empresa se expõe a um alto risco”, diz o professor da Assevim de Brusque, Élson Mota, um dos organizadores da 4ª Semana de Publicidade e Propaganda com o tema “comunicando um futuro sustentável”. Ele ainda acrescenta que o código de ética dos publicitários incentiva os mesmos a auxiliarem as empresas, a por em prática a imagem que vendem.

Empresa incentiva a reciclagem: caneta com material reutilizado

Apesar de todas as desconfianças do mercado, as notícias no geral são positivas, é o que a bióloga e mestre em engenharia ambiental, profª do curso de biomedicina da Uniasselvi de Blumenau, Lílian Beal, ressalta. “Algumas empresas por serem obrigadas a se ajustar a leis ambientais, outras pelo próprio cunho ecológico e algumas também com intuito de promoção junto a seus clientes. Mas, na verdade não importa qual a intenção, o importante é que temos visto várias empresas de renome tomarem atitudes que vêm ajudando na preservação dos recursos naturais”. A professora cita a empresa de cosméticos Natura, e explica que ela foi pioneira na questão de reutilização de recipientes com a venda de refis e fez com que outras do gênero também adotassem a mesma atitude.

Lílian revela que nós, consumidores, temos grande parte da culpa pela “falsa” atitude ecológica que ronda algumas empresas. “Quando vamos comprar um produto não buscamos o conteúdo em si, que é o que necessitamos, e sim do rótulo, do “belo”, do pacote bonito. Levando muitas empresas a só se preocupar com o terceiro R que é o da reciclagem”.

Assista o vídeo produzido pela WWF

Dos 3 Rs – Reduzir, Reutilizar e Reciclar, a professora diz que o terceiro é a última instância para preservação, a primeira coisa a ser feita é reduzir o consumo. Utilizar o necessário e quando necessário. Depois é reutilizar, como no caso dos recipientes, “Na verdade nos mercados ao invés de produtos prontos embalados por muito plástico e papel, deveria ter postos de abastecimento, onde levássemos o recipiente do produto que acabou em casa para reabastecê-lo”. E para aqueles que acham que este é um procedimento incompatível com a modernidade, o país campeão em reutilização, não por acaso, é o Japão que reutiliza 50% do seu lixo sólido.

No Brasil existem várias empresas e profissionais que já se adequaram aos 3Rs. Em Brusque, Santa Catarina existe o projeto do Azeite, uma iniciativa do clube de engenharia da cidade. Em supermercados são deixados postos de arrecadação de óleo de cozinha utilizado pela população, este óleo é vendido por 0,60 o litro para a empresa Janeiro Transporte e Comércio de óleo Vegetal, de Florianópolis. Esta recicla o óleo e o transforma em biodísel utilizado em seus caminhões.

Todo valor arrecadado com a venda do óleo é depositado em uma conta no nome do clube. “Assim que obtivermos um valor X, o qual, o determinamos junto a Prefeitura Municipal, iremos investir o dinheiro em educação ambiental na cidade. De nada adianta reciclarmos ou termos ações isoladas, precisamos é mudar a cabeça das pessoas, começando com as crianças. É preciso ter consciência que os nossos atos um dia voltarão para nós”, explica Udo Aurélio Serpa, engenheiro mecânico, e voluntário no projeto do Azeite, ele é quem empresta sua caminhonete para a coleta do óleo. O projeto teve inicio em Maio de 2009 e já arrecadou 12mil litros.

Udo afirma ficar incomodado com essa onda verde: “Muitas empresas se dizem defensoras do meio ambiente, mas isso é só uma fachada para conquistar um público. Têm programas de redução de impacto por um lado e por outro poluem. Ou seja, vendem uma imagem para esconder o resto”.

O engenheiro ainda comenta sobre a importância de analisar a viabilidade do processo de reciclagem para o meio ambiente. Pois há uma ação chamada de balanço energético, ou seja, todo produto em que haja intenção de reciclagem, antes deve ser submetido a uma pesquisa sobre a ação dos resíduos químicos, que o mesmo deixará na natureza e impacto da retirada de matéria prima para a fabricação do produto inicial. Assim é possível evitar desperdícios de energia. O que vai ao encontro da fala da profª. Liliam, a qual explica não ser viável a reciclagem de pneus justamente pela grande utilização de energia no processo.

“As empresas deveriam ser obrigadas a divulgar todo seu processo de produção, no sentido de impacto ecológico, para que nós clientes pudéssemos saber também o impacto de nossas escolhas e compras”, acrescenta o engenheiro.

Bolsa reciclável produzida a partir de garrafas PET

Ao contrario da posição do voluntário, algumas empresas preferem não divulgar seu processo de produção mesmo sendo a autora da reutilização de até 200 toneladas por mês de garrafas pet. A Rodocordas, empresa de cordas de Itajaí, Santa Catarina, utiliza 70% de matéria reciclada em sua produção. No entanto, não usa esse dado para propagandas de cunho ambiental. Você pode estar se perguntando: por que não? O gerente de produção da empresa, Fernando Albino Censi, diz que para o setor de cordas, matéria prima reutilizada é sinônimo de má qualidade. “Infelizmente muitos clientes associam um produto reciclado a um produto de segunda que pode apresentar defeito”.

O interessante é que a empresa adotou esse sistema há oito anos para redução de custo e para aumentar a resistência do produto. Isso mesmo, para melhorar a qualidade da mercadoria. O fato é que ainda temos enraizado em nossa cultura que produtos reutilizados são considerados produtos inferiores. Podemos ver isso na prática com o setor de roupas. Os brechós são muito mal vistos no país, porém, nos EUA e em países da Europa, essas lojas têm a preferência de várias celebridades e consultores de moda.

Um produto que tem feito sucesso nos supermercados são as sacolas reutilizáveis. Eles incentivam os cliente a não fazerem uso das sacolas plásticas, tão prejudiciais.

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Sacolas recicláveis

Porém, apesar dessa atitude ecológica, não há um setor ou informação para os clientes de outros produtos biodegradáveis à venda. A chefe de frente de caixa, Sidnéia Schimitt, 27 anos, trabalha há sete no supermercado Bistek de Brusque, e não sabe informar outro produto do gênero ou reciclado à venda no estabelecimento. “Não sei nem dizer o que é um produto biodegradável. Vejo várias propagandas falando em preservação, mais acho que falta mais informação sobre quais produtos poluem menos. Falta informação”.

Fomos às ruas de Balneário Camboriú-SC saber se as pessoas se preocupam em comprar produtos ecologicamente corretos, e se sabem identificá-los.

Você compra produtos ecologicamente corretos?

Em suma, fica evidente, antes de qualquer ação reparadora, é preciso mudança de comportamento e isso começa com investimento em educação ambiental. Não só por parte de ONGs e pessoas engajadas , mas principalmente por parte do poder público. Um governo preocupado com o meio ambiente e que investe em ações preventivas, pode minimizar gastos em outros setores, como o da saúde. Curitiba é exemplo. Mostrou que é possível unir o moderno com o sustentável, e ganhou o prêmio Globe Award Sustainable City 2010 oferecida por uma entidade sueca de empreendedores sustentáveis.

“onda verde”

A moda sustentável

Desde a antiguidade a humanidade é influenciada pela moda, seja no vestuário, adorno, ou produtos comercializados. Fascinados seguem, muitas vezes, fielmente as tendências de cada era. O modismo verde atingiu a “moda de rua” e chega às passarelas.

Gilles Lipovetsky no livro “O império Efêmero da Moda: a moda e seu destino nas sociedades modernas” cita: “a cultura de massa é uma cultura de consumo, inteiramente fabricada para o fazer imediato e a recreação do espírito devendo-se sua sedução em parte à simplicidade que manifesta. Todas as indústrias culturais são ordenadas pela moda. A moda é o espelho da sociedade”.

Valerie Mendes e Amy de La Haye autoras do livro “A Moda do Século XX” concordam com Lipovetsky ao afirmarem: “a moda é uma indicação de identidade individual, grupal e sexual. Além, disso sua fluidez reflete as mudanças da matriz social.”

 

O estilista francês Jean Paul Gaultier criou junto com a marca Melissa um sapato ecológico, em que o salto é 100% reciclável

 

Não foi só o visual das roupas que mudou, as embalagens, também foram afetadas por esse modismo. Na edição de Junho da revista Embalagem e Marca há 11 propagandas voltadas à preservação ambiental e uma matéria que apresenta um recente estudo do 1° Clique aqui e leia mais sobre Diagnóstico de Sustentabilidade de Embalagem nas Empresas Brasileiras.

Cultura ecologicamente correta

Sustentabilidade é a palavra-chave para compreensão de como as empresas estão desenvolvendo estratégias para preservação do meio ambiente. Usar os recursos naturais e, de alguma forma, devolvê-los ao planeta através de práticas ou técnicas desenvolvidas para este fim significa desenvolver um trabalho sustentável.

Em uma iniciativa da Bolsa de Valores de São Paulo, (Bovespa), em parcerias com a Fundação Getúlio Vargas, Instituto Ethos e o Ministério do Meio Ambiente, foi criado em 2005 o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), com a proposta de oferecer aos investidores uma opção de carteira composta por ações de empresas que apresentam comprometimento com a responsabilidade social e a sustentabilidade empresarial.

As empresas que se comprometessem com determinadas exigências entravam em uma listagem. Em novembro de 2008, o conselho do ISE recebeu carta de  exclusão de empresas que não cumpriam com as determinadas exigências. Onze entidades, dentre elas o grupo Greenpeace-Brasil, assinaram o pedido da exclusão das empresas Petrobras, Aracruz, CCR Rodovias, Copel, Iochpe-Maxion e WEG. Na nova carteira, com vigor de dezembro de 2008 a novembro de 2009, a ISE aderiu o pedido de exclusão das empresas citadas.

Segundo matéria publicada no site Mercado Ético no mesmo período do pedido, o Movimento Nossa São Paulo (movimento político, social e econômico) , declarou que  a Petrobras não estaria cumprindo a resolução 315/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama, órgão  legislador que orienta a fiscalização dos outros órgãos Executores tais como Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Secretarias do Meio ambiente do Município entre outras.

Tal resolução estava relacionada aos limites de emissões de enxofre no diesel. Em defesa, a Petrobras publicou uma nota esclarecendo que se comprometia de forma participativa de fornecer o diesel S-50 (com menor teor de enxofre) já a partir de janeiro de 2009.

Após um ano, o ISE não deu posicionamento se a Petrobrás será incluída na listagem de 2010. Na época, o Greenpeace publicou matéria no site onde cita que a Petrobras foi obrigada a retirar dois anúncios publicitários do ar com ordens do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária).

Em conversa por email, a coordenação de Comunicação, gestão de pessoas e de conhecimento da Petrobras informa que todas as atuações da empresa estão relacionadas com o meio ambiente. Atuar com rentabilidade sem, no entanto, deixar de cuidar do social e do ambiental: “Rentabilidade com responsabilidade socio-ambiental” é a missão e visão da Petrobras.

A Estatal possui uma área corporativa chamada de SMS – Segurança, Meio Ambiente e Saúde, de onde saíram as 15 diretrizes para atuação da política ambiental da companhia. O Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes) tem uma gerência geral voltada para energias renováveis e alguns programas de caráter ambiental (clima, biotecnologia, meio ambiente etc). A empresa investe, ainda, no Programa Petrobras Ambiental por meio de editais públicos para seleção de projetos de meio ambiente. Uma banca externa seleciona os projetos que receberão investimentos da Petrobras.

Há um conflito muito grande das empresas de Sustentabilidade e Responsabilidade Social com as ONG’s que lutam pela preservação do meio ambiente. Hoje no Brasil são cadastradas no CNEA (Cadastro Nacional das Entidades Ambientalistas) órgão do Conama, 563 ONG’s, espalhadas pelos 26 estados incluindo o Distrito Federal, todas preocupadas com o Meio Ambiente.

Propagandas da ONG WWF, atuante em mais de 100 países pela preservação do meio ambiente

Dados mostram que o Brasil ocupa a 62° posição no Índice de Sustentabilidade Ambiental 2010. O país com melhor gestão no controle da poluição ambiental e nos recursos naturais, segundo ranking publicado em janeiro deste ano no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

O Brasil encontra-se em seu melhor momento com empresas focadas em preservação do meio ambiente, que buscam praticar culturas ecologicamente corretas.

O livro verde, de Elizabeth Rogers e Thomas M. Kostigen

Para saber mais acesse:

http://planetasustentavel.abril.com.br/

http://www.wwf.org.br/

http://www.sosflorestas.com.br/

http://www.modismonet.com/tag/ecologico/

http://www2.tvcultura.com.br/reportereco/

Em PDF você encontra:

Investigando a Biodiversidade – Guia de Apoio aos Educadores do Brasil: http://assets.wwfbr.panda.org/downloads/investigando_a_biodiversidade___pdf_completo___reduzido.pdf

Guide to Greener Electronics: http://www.greenpeace.org/international/en/campaigns/toxics/electronics/how-the-companies-line-up/

Cartilha do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal: http://www.fsc.org.br/arquivos/05abr2006__cartilha_fsc_nr6.pdf

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Ilhota quer sustentabilidade

Especialistas apontam alternativas sustentáveis para a região dos Baús

Carina Carboni

Luana Lemke

Defesa Civil de Ilhota/divulgaçao

Em novembro, tudo resumiu-se em barro, desespero e prejuízo no complexo do Baú.

“Naquela noite a casa estremeceu e a gente ouviu aquele estouro. Quando saí à rua, logo vi aquele clarão do outro lado do morro. Até pensei que fosse um posto de gasolina que tinha explodido”, lembra Antônio Laurindo que após esse episódio e, principalmente os que o sucederam, passou a tomar remédios para o coração.

Essa fala é comum pelos arredores do Morro do Baú, no município de Ilhota/SC, onde muitos moradores tiveram suas casas e familiares soterrados pela lama dos desmoronamentos trazidos pelas chuvas de novembro de 2008. Desde então, o rio que percorre as proximidades do Alto Baú, Alto Braço do Baú, Braço do Baú, Baú Central, Baú Seco e Baú Baixo mudou o seu trajeto. Alguns lugares, onde antes havia plantações de arroz, hoje dão lugar a grandes lagoas. As bananeiras já não oferecem o mesmo número de cachos e onde antes havia casas, o vermelho do barro ainda impera.

Veja mais sobre isso aqui

Alguns sobreviventes alimentam a crença de que a explosão da tubulação do Gasoduto Bolívia-Brasil na noite daquele domingo, dia 22, teria afetado a estrutura do solo local e provocado os deslizamentos, que foram inéditos para os habitantes dali. “Eu penso que a explosão tenha piorado o caso porque até aquele momento, nunca tinha sido visto nada igual. Deve ter alguma relação, pois logo depois teve o primeiro deslizamento”, conta outra moradora que prefere não se identificar. Saiba mais sobre o gasoduto no Jornal do Sicepot/SC

Mas os milhares de anos do topo daquela montanha tornam a área naturalmente instável para a geóloga Karel Jockyman. Ela diz que a explosão, ocorrida na região do município vizinho de Gaspar, não teria como provocar os deslizamentos do Baú. “É difícil entender que existem tempos geológicos que levam a uma erosão natural do solo, quando se nasceu e cresceu num lugar e nunca se tenha ouvido dizer nada a respeito de grandes desmoronamentos”.

Para a pesquisadora, que há seis meses estuda o local, não é possível responsabilizar a explosão do Gasoduto pela tragédia ocorrida em 2008. Ela acredita que o solo pode voltar a ceder, com ou sem nenhuma explosão, pois há água armazenada sob ele. “Um forte indício são os pequenos orifícios na base do morro, de onde escorre água. Olhando debaixo da montanha já dá pra ver que está perigoso”.

Não é preciso ser especialista no assunto para perceber que algumas áreas do Baú estão mesmo comprometidas. A observação da geóloga, na ocasião contratada pelo Centro Universitário de Pesquisas e Desastres (CPED), pode ser confirmada em várias regiões. Inclusive nas encostas das estradas e de muitas casas que foram reconstruídas em locais bem próximos aos deslizamentos do ano anterior. Veja mais aqui

A engenheira civil Sílvia Helena de Carvalho Ribeiro, também contratada pelo CPED, lembra que há registros de desmoronamentos no complexo do Baú que datam de milhões de anos. Ela reforça a opinião da geóloga Karel ao afirmar que não será possível convencer as famílias a deixarem suas casas. “Muitos acreditam que a tragédia não voltará a se repetir”.

É importante considerar que mesmo conscientes do risco que estão correndo, a maioria dos moradores destas localidades não tem outra opção de moradia. Neste caso, projetos de sustentabilidade tornam-se uma alternativa para o município, que contabiliza 727 famílias nas seis localidades do Baú. O desafio é encontrar soluções que amenizem os danos trazidos pela erosão, para que as pessoas possam conviver com o risco, mas conscientes do permanente estado de alerta em caso de chuvas.

Karel chama a atenção para a falta de interesse da sociedade em relação a projetos sustentáveis. “Na verdade, a maior fraqueza é a falta de equipe técnica disposta a atender o Baú”. A especialista garante que podem ser desenvolvidos meios de conviver com este fenômeno natural, assim como os japoneses e outras milhares de pessoas no mundo tem convivido com os abalos sísmicos. “Acho engraçado que todo mundo me pergunta se o problema é sério, mas ninguém nunca perguntou se o caso tem solução”.

Já foram liberados 2,7 milhões de reais pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, para serem destinados à drenagem da água e, consequentemente, colaborar com uma melhora na qualidade de vida dos agricultores. A geóloga Eliane dos Santos explica que para realizar este processo é necessário manter a área vegetada com espécies de porte arbustivo e arbóreo, para aumentar a infiltração e, com isso, diminuir o escoamento.

“É preciso amortecer a inclinação das encostas que sofreram intervenção antrópica (humana). Nos riachos e córregos que existem na área, a velocidade do fluxo superficial também precisa ser reduzida. O ideal seria criar pequenas barragens para amortecer a velocidade e quebrar o desnível do leito”. Para as encostas dos morros que não possuem vegetação e que tenham sofrido alguma intervenção humana, como abertura de estradas, retirada de aterro e construção de casas, a alternativa é a construção de taludes.

Estas plataformas, que se assemelham a escadarias, já estão sendo construídas as margens da BR 470. A edificação serve para diminuir a velocidade da água, sendo indicada para locais onde a superfície de repouso possui ângulo superior a 45 graus. “Além disso, todas as águas pluviais devem ser retiradas da frente do talude, através de calhas construídas no local”, reforça Eliane.

Como medida de prevenção, os moradores também aguardam a construção de um abrigo que possa servir como rota de fuga. “Nós também temos a necessidade de um rádio para o caso de ficarmos isolados. Aqui não pega celular e a maioria dos nossos telefones, que são por satélite, deixam de funcionar com o mau tempo”, alega Tatiana Reichert, presidente da Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús.


Ainda são vistos, através da janela da casa de Tatiana, os vestígios da grande destruição trazida pelos deslizamentos. A moradora conta que perdeu 14 parentes de até terceiro grau, entre eles mãe e irmã. Do quintal de sua residência aponta o local, pertinho dali, onde havia sete casas. Dez meses depois, existe apenas um terreno vazio e a espera das famílias pela reconstrução de seus lares.

Veja aqui galeria de fotos

É preciso replantar

A drenagem da água não é suficiente para prevenir os desmoronamentos do Baú. Este solo é constituído principalmente por cascalho, de natureza altamente permeável. O excesso de água da chuva leva a sua erosão e o seu deslocamento pela encosta, de forma lenta e gradual. É por isso que a vegetação também precisa ser repensada. Para algumas regiões, como as das encostas próximas às estradas, a plantação de gramíneas é indicada como um meio de firmar o solo, já que esse vegetal tem raiz longa e não apresenta sobrepeso.

As espécies exóticas de pinus e eucaliptus devem ser evitadas. A bióloga Rosemere Marenzi lembra que é preciso optar por espécies arbóreas que sejam adaptáveis à condição de solo local. Entre tantas espécies vegetais ela cita plantas como a guabiroba, a aroeira, a embaúba e o jacatirão. Para solos úmidos como o encontrado na região dos Baús também são indicadas plantas como Ingá, Tucaneiro e Guarapuvú. De acordo com a pesquisadora, essas espécies têm grande valor ecológico, embora o valor econômico ainda seja pouco difundido.

A madeira resistente da guabiroba (Campomanesia xanthocarpa) pode ser aproveitada no tabuado em geral, desde lenha e carvão até a confecção de cabos de ferramentas e instrumentos musicais. Conforme Lorenzi, em sua obra “Árvores Brasileiras”, publicada em 2002, os frutos dessa árvore possuem alto valor vitamínico e podem ser consumidos in natura ou ainda aproveitados na preparação de sucos e licores. No caso da embaúba (Cecropia pachystachya), a madeira leve pode ser utilizada tanto na confecção de lápis, brinquedos e saltos de sapatos, como para o aproveitamento da polpa celulósica usada na fabricação do papel. A estrutura de peso e altura dessa planta a torna excelente para o reflorestamento de áreas degradadas.

A economia do complexo do Baú é, sobretudo, baseada na produção agrícola (bananicultura, horticultura e rizicultura) e extração de madeira. De acordo com a prefeitura de Ilhota, a agricultura representava 22% da arrecadação do município. Após a tragédia, a soma dos prejuízos chegou a 32 milhões de reais. As 124 famílias de rizicultores tiveram perda total de suas lavouras, sendo que as 54 famílias que tiravam o sustento da plantação de banana tiveram 80% de suas plantações devastadas. Hoje, muitas dessas famílias dependem da ajuda de parentes e voluntários que visitam as áreas.

Especialistas procuram apoio para desenvolver projeto de prevenção de riscos para a população do Complexo do Baú:

Construções sustentáveis: comprometimento com o futuro

Larissa Luise Tietjen

Larissa Guerra

Ruana Souza

Torre de Capra

A palavra anda na moda, mas raros são os que têm efetivamente usado como deve: sustentabilidade. Longe de ser apenas uma preocupação ideológica, a sustentabilidade envolve toda uma mudança de hábitos do homem. O setor de construção, que gera mais impacto no meio ambiente que qualquer outra forma de consumo humano, começa a abrir os olhos para essa realidade. E quer que ela venha para ficar.

Cerca de 40 a 75% do que é usado em uma obra, por exemplo, provém de recursos naturais. Encontrar alternativas que aliem viabilidade financeira, garantam o conforto necessário ao homem e não agridam o meio ambiente é o desafio que arquitetos e engenheiros têm encarado desde o começo da década, quando surgiram, nos Estados Unidos e na Europa os primeiros Green Building, ou Edifícios Verdes. Em uma edificação que segue as ideias dos Green Building (veja vídeo abaixo), são aplicadas medidas que procuram aumentar a eficiência dos recursos a fim de promover a redução de impacto ambiental, e devem abranger toda a vida útil do prédio, que dura cerca de 50 anos.

O primeiro edifício que segue a ideia de Green Building em Santa Catarina começou a ser construído no início deste ano na cidade de Balneário Camboriú. A construtora responsável pelo projeto quer inovar o mercado da cidade, mostrando que é possível construir prédios de alto padrão com alternativas sustentáveis.

Para o engenheiro proprietário da construtora, Mário Luiz Rambo, a sustentabilidade começa na planta da obra. “Fazer modificações em uma construção já existente é muito difícil. O ideal é que o planejamento seja elaborado a partir da cultura da sustentabilidade.” Os cuidados começam com pequenas mudanças, como lavar os pneus dos caminhãos que colhem resíduos da construção até a diminuição da poluição sonora que é produzida enquanto os andares do prédio estão sendo erguidos.

Para uma obra ser sustentável, é preciso que o planejamento esteja voltado para atender três principais frentes: a ambiental, a social e a econômica. Para Lisiane Ilha Bertolotto, engenheira civil doutora em Engenharia de Produção e professora dos cursos de Design Industrial e Arquitetura da Univali, “os profissionais que atuam em projetos devem estar conscientes da necessidade e do caráter multidisciplinar da sustentabilidade”.

O IDHEA – Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica – cita que para uma construção ser sustentável, ela precisa atender a nove requisitos básicos. Entre os nove, estão itens que vão desde estudos com o impacto ambiental do local onde a obra será feita, à gestão de recursos hídricos e energéticos e até mesmo com a poluição sonora que é produzida durante a obra.

A sustentabilidade é uma cultura ainda recente para a sociedade. “Ser sustentável é ter comprometimento com o futuro. Algo que é muito complicado de se fazer na nossa sociedade”, salienta Mário.  Lisiane acredita que ainda mais difícil é implantar práticas sustentáveis em locais turísticos, como Balneário Camboriú, “a construção civil possui um caráter fortemente especulativo, que entrava os avanços na área. Acredito que neste caso, a mudança ocorra de forma mais lenta”.

Lisiane reconhece que a sustentabilidade ainda está relegada a um segundo plano entre engenheiros e arquitetos. “por simples desconhecimento ou resistência cultural.” Nas universidades, a sustentabilidade é ainda um tema pouco abordado. Para a professora, “deve-se considerar não só sua inserção direta na forma de uma disciplina, por exemplo, mas como o conteúdo que permeia as matérias tradicionais de projeto, estruturas, materiais e tecnologia”.

Alternativas sustentáveis: caro no começo, barato no final

O edifício que a construtora de Rambo está fazendo é ainda voltado a um pequeno grupo, restrito a quem está disposto a desembolsar entre R$500 mil e R$ 600 mil. Parece caro, mas este é o valor de mercado de apartamentos do padrão do “Pioneiros do Atlântico” custam em Balneário Camboriú.

Longe de pensar apenas na qualidade de vida dos moradores dos seus prédios, Rambo demonstra vontade de conscientizar outros engenheiros, arquitetos, moradores e até mesmo junto à prefeitura. “Sustentabilidade é uma união de esforços”.

O “Pioneiros do Atlântico” possuirá um telhado verde, que atua na redução do desempenho térmico da construção. “Quando você olha um prédio de cima, você pode ver que é tudo escuro. A absorção de calor acaba sendo muito maior, e em longo prazo, põe em risco a própria estrutura do lugar. O telhado verde equilibra a temperatura da construção e ainda serve de pouso para animais”.

Mário utiliza também nos prédios sistemas de reaproveitamento de água pluvial e de separação do que é utilizada nas pias dos apartamentos. Um litro de óleo jogado na pia polui 100 mil litros de água. A estudante de Administração Paula Essig de Arruda, que conclui um TCC sobre o tema, diz que a construção civil está mais aberta para o reaproveitamento da água. “já existem projetos que reaproveitam a água utilizada na máquina de lavar roupas para a descarga do banheiro, por exemplo.”

Enquanto a aceitação desta alternativa é crescente (porém tímida) entre engenheiros e arquitetos, empresários da região evitam a implantação de projetos nessa área. Paula diz que o custo alto do tratamento da água é o maior problema. “Mesmo que for usar a água da chuva para a descarga ela deve ser tratada.” A professora Lisiane acrescenta ainda que “as tecnologias devem ser economicamente viáveis, sem desconsiderar seus efeitos para o usuário a curto e longo prazo. Nisto devem estar incluídas a manutenção, o desempenho na vida útil, o custo total (inicial da construção e ao longo da vida útil) o domínio da tecnologia, entre outros.”

Sustentabilidade: O que você pode fazer?

Quando o assunto em pauta é sustentabilidade, três apontamentos que sobressaem na fala dos especialistas são: a necessidade de redução dos gastos de energia, o melhor uso da iluminação dos ambientes e utilização racional da água. As recomendações podem facilmente fazer parte da rotina das casas e escritórios em qualquer cidade, já que para isso basta que o indivíduo adote atitudes para o melhor aproveitamento dos recursos da arquitetura e da natureza local.

O termo ‘arquitetura sustentável’ muitas vezes dá a impressão de que se trata de um projeto anterior à construção dos imóveis, e que obrigatoriamente é assinado por arquitetos ou engenheiros. Contudo, a maior porcentagem das construções — desde as vilas até grandes metrópoles — são conhecidas como parte da ‘arquitetura vernacular’: aquela entendida como comum, anônima, construída sem interferência destes profissionais. Estas construções constituem a fisionomia das cidades, refletem a época e ambiente onde foram formadas. Por isso, uma cidade nunca é igual à outra.

É também por este hibridismo entre sociedade e arquitetura que se destaca a importância da população enxergar seu papel como agente responsável pela preservação do ambiente. Hoje se dispõe de material à venda nas lojas para adaptação das construções aos moldes da sustentabilidade, que não implicam grandes gastos ou mudanças bruscas de hábito e resultam em economia no orçamento final de qualquer família. Entre pequenas ações e grandes reformas, aos poucos o cenário arquitetônico ganha ares de tecnologia e preocupação com o planeta.

A arquiteta catarinense Samara Zukoski dá uma opção: para aqueles que possuem casa com telhas sem a estrutura do assoalho, é possível usar telhas transparentes, que aproveitam a luz natural do dia e da noite. “As telhas transparentes de vidros ou as translúcidas são opções de investimento um pouco maior, para um tipo específico de casa, mas diminui o uso de energia elétrica consideravelmente”, garante.

Um exemplo bastante simples é a troca das lâmpadas amarelas pelas fluorescentes, que consomem em média 80% menos energia, duram mais e iluminam melhor os locais. E para isso, o consumidor não precisa mais do que ir até uma loja de utensílios para a casa adquirir as lâmpadas para os cômodos onde se costuma ficar mais tempo com a luz acesa.

Ainda há um longo caminho a percorrer antes que a sustentabilidade torne-se algo que faça parte do cotidiano do homem. A necessidade de salvar o ambiente é urgente, como enfatiza a professora Lisiane: “É uma questão de sobrevivência. Tem de ser. Ponto Final”.

Leia mais sobre isso:

http://sustentabilidade.bancoreal.com.br/sustentabilidadenobancoreal/produtoseservicos/Documents/guia_const_civil.pdf

http://www.unb.br/fau/disciplinas/SC1/SC1-Textos/012 Arquiteturaesustentabilidade.pdf

Veja aqui a planta do Edifício Pioneiros