Voyeurismo empresarial

Quando simples cliques podem ser transformados em repreensão

 

Fernanda Ribas de Oliveira
Lucas Bezzi Negrão
Priscila Fernandes

Você está na mesa de trabalho e ao ligar o computador consulta os e-mails da empresa e depois, ao abrir o correio eletrônico pessoal, uma mensagem de acesso negado surge no seu navegador. Certo de que algo está errado, você tenta se conectar via chat com os amigos e o programa mostra uma mensagem de erro. Sorria, você está sendo vigiado. Dois lados separam o avanço da tecnologia na internet que se faz presente nos cenários empresariais. O lado positivo revela um ambiente virtual que proporciona novas possibilidades de comunicação com o mundo inteiro, independente de onde você esteja. Já o negativo faz com que o internauta fique vulnerável a vários tipos de invasões, desde os vírus enviados por e-mail à monitoração de seus cliques, página a página.

O “Big Brother” coorporativo

O clássico 1984 de George Orwell, em que um regime político totalitário fiscalizava e controlava a vida dos cidadãos, relembra a vigilância invasiva do Grande Irmão sobre os cidadãos da Pista de Pouso Número 1 (Inglaterra). Orwell, em 1949, já previa o caminho que as gerações futuras estavam tomando ao relacionar um governo dominador e o controle da sociedade. O mesmo acontece nos setores de informática e tecnologia das grandes empresas, só que neste caso, as câmeras são trocadas por softwares de monitoramento. As ações do funcionário no ambiente virtual estão cada vez mais expostas e isso acaba por permitir que a empresa julgue através da navegação o potencial profissional do empregado.

Em virtude dessa nova realidade, os empregadores buscam nos serviços de informática, softwares capazes de mostrar as atividades de seus funcionários neste cenário. Marcelo, 26 anos, é proprietário de uma rede de lojas de informática em Itajaí e oferece a seus clientes o controle das atividades dos funcionários através de seus computadores. Ele explica que a partir do momento que é possível o acesso à rede da empresa, o usuário já está sendo observado pelo sistema de monitoramento.

Existem no mercado diversos softwares que são instalados no servidor da empresa para armazenar informações. Eles podem monitorar e bloquear serviços como mensageiros instantâneos, redes sociais, instalação de programas, entre outros. Empresários podem rastrear e-mails, histórico de navegação e até consultar em tempo real as telas dos computadores de suas empresas. Por mais inocente que seja o conteúdo que o empregado utilize na internet, os rastros deixados no sistema podem vir a ser utilizados contra ele.

Em 2008, a Websense, líder global nos serviços de segurança de dados, internet, e email, realizou entrevistas com funcionários de empresas de grande porte, de toda a América Latina, para descobrir quais são os hábitos que os funcionários têm durante o expediente de trabalho. Foi levado em conta fatores de risco que influenciam na segurança da empresa. A pesquisa nomeada “Web@Work 2008”, divulgou que 95% dos funcionários navegam com motivos pessoais durante o expediente, sendo que 75% deles admitem visitar sites perigosos para seus empregadores. Entre as páginas mais visitadas estão: bancos e finanças (77%), notícias, páginas governamentais e email pessoal (75%).

 Mariana Farias, 25, é funcionária a cinco anos de uma multinacional em Itajaí que atua na área industrial. Entre suas atividades profissionais estão o uso diário de e-mails. Desde o primeiro dia no emprego não havia bloqueio de acesso a nenhum tipo de site, entre, porém há cerca de um ano a diretoria começou, sem aviso prévio, a restringir ferramentas como MSN e o orkut. “O bloqueio aconteceu sem qualquer justificativa. Eu utilizava o meu MSN e minha produtividade não era afetada por isso. Acredito que os funcionários deveriam tomar conhecimento do motivo desta decisão”. Mês após mês, redes sociais como o Twitter, o Flickr e o Facebook foram bloqueados sem aviso.

“O problema está na intenção do proprietário da empresa em vigiar as ações de seu empregado. Muitos monitoram a navegação exagerada que influencia o rendimento, contudo a grande maioria procura com este controle bisbilhotar a vida pessoal do funcionário”. Marcelo conta que o MSN é o meio social que mais ocasiona problema, já que o empregador pode ler todas as conversas feitas no local de trabalho. “Caso a empresa faça esse tipo de monitoramento, acredito que o mais sensato seja que o funcionário seja comunicado sobre isso. Muitos desconhecem que são vigiados e acabam falando demais”.

Bom senso na hora de vigiar

A advogada trabalhista de Videira, Ana Lucia Correa, 26, considera que o bom senso do empregador diante da invasão de privacidade do empregado é fator definitivo para caracterizar a ação trabalhista, movida por ambos os lados. Muitos funcionários acabam sendo demitidos por justa causa após o uso indevido da internet. “É direito do trabalhador ter contato com a vida pessoal durante o expediente, já que em muitos casos acontece exatamente o contrário. Ignorar o fato de que os meios de comunicação estão cada vez mais favoráveis para a troca de informação pode ser visto como um controle excessivo por quem é monitorado, por isso não é indicado generalizar este uso errôneo pois muitos funcionários utilizam o ambiente virtual de maneira adequada”.

Com o avanço da tecnologia as empresas justificam o monitoramento de seus funcionários pela questão da produtividade afetada no ambiente de trabalho. Sandra Carvalho, 59, proprietária de dois restaurantes na cidade de Pomerode solucionou o problema de outra maneira: ela retirou o acesso à internet dos computadores de seus estabelecimentos. “Percebi que os funcionários que ficavam no caixa perdiam muito tempo verificando e-mails pessoais e sites, e perdiam o foco durante o expediente de trabalho”, conclui.

Enquete: Quais são os seus hábitos no mundo virtual na hora do trabalho?

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